UOL Notícias Internacional
 

14/10/2008

Em Michigan, Kenneth Dewoskin luta contra o sentimento antichinês

Le Monde
Sylvain Cypel
Em Ann Arbor (Michigan, EUA)
A China mudou de vez a vida de Kenneth Dewoskin, um sinólogo americano entre os mais respeitados que por muito tempo foi o diretor do departamento de estudos asiáticos na universidade do Michigan. Desde que ele se tornou, há cerca de dez anos, o diretor do Centro de pesquisas e de previsões sobre a China da firma de auditoria e de consultoria Deloitte & Touche, ele passou a viver mais da metade do ano em terra chinesa.

Até mesmo a sua família acabou se "chinesizando": a sua mulher, Judith, ensina a literatura chinesa. Eles têm um filho que atua como arquiteto em Pequim, e uma filha professora de estudos chineses em Columbia.

Contudo, nesses tempos de crise, o que mais deixa Kenneth Dewoskin preocupado é o crescimento muito nítido de um sentimento antichinês nos Estados Unidos. Quando as pessoas constatam que o seu modo de vida está sendo transtornado, alguns põem a culpa "nos outros, os estrangeiros", diz. "A sinofobia vai ganhando força. A China está sendo acusada de destruir empregos americanos. O problema é que ninguém se habilita a rebater essas inépcias".

A obsessão do "low cost"

Não há como negar os fatos, os Estados Unidos produzem cada vez menos bens manufaturados. Eles os compram diretamente no exterior, ou ainda as suas empresas transferem sua produção para países onde a mão de obra é mais barata. Além disso, em certos setores (têxtil, móveis, eletrodomésticos, informática), os produtos fabricados na China alcançam partes de mercado enormes (83% do vestuário íntimo, por exemplo). Então, Kenneth Dewoskin procura corrigir essas idéias recebidas: "Os chineses produzem a custos menores, é verdade, mas eles não estão 'roubando' empregos dos americanos. O crescimento das transações com a China provocou a perda de 600 mil empregos nos Estados Unidos, e de outros 12 milhões na China!"

Com o processo de globalização, foi a estrutura da produção como um todo que mudou, e isso não ocorre apenas nos Estados Unidos. Por exemplo, quando um calçado de fabricação chinesa é vendido em San Diego ou em Atlanta, os chineses não recebem mais do que "3% ou 4% do seu valor de venda, enquanto o restante do seu valor agregado, que inclui o design, o marketing, a distribuição, a publicidade, é faturado integralmente pela economia americana", insiste.

Estão acusando os produtos "made in China" de aumentarem o déficit da balança comercial americana? Para Kenneth Dewoskin, este é mais um "bode expiatório". As transações dos Estados Unidos com a China foram deficitárias em US$ 26 bilhões (cerca de R$ 55 bilhões) em 2007? "O que é isso, se comparado com as nossas importações de petróleo ou com os custos da guerra no Iraque?" replica. "Se nós aproximarmos este montante da nossa dívida pública, que já soma US$ 12 trilhões (R$ 26,5 trilhões), o excedente da balança comercial chineses não passa de uma gota de água"

E ele acrescenta: "O operário americano que resmunga contra as importações de produtos chineses é o primeiro a comprar esses produtos. Os americanos só querem saber de 'low cost', o preço mais em conta. Quando se procede a uma transação", prossegue, "cada pessoa envolvida na corrente comercial deve se perguntar: qual é o meu trunfo?" E, para este especialista, é evidente que a força principal dos Estados Unidos está na sua capacidade de inovação tecnológica e na excelência do seu marketing.

O declínio da escola pública

Ora, na opinião de Kenneth Dewoskin, essas capacidades estão sendo "muito ameaçadas" em razão do "terrível declínio" da escola pública norte-americana. Ele denuncia o fato de que os estudantes se dirigem cada vez menos para carreiras científicas: "Por causa da inexistência de toda e qualquer política pública de educação, os Estados Unidos deixaram de gerar as forças vivas de que precisam. Neste processo, nem os chineses, nem os indianos, nem os europeus têm qualquer responsabilidade".

A questão da decadência da educação e dos avanços da "ignorância" tornou-se uma obsessão para ele. Existe nos Estados Unidos, prossegue o especialista, "uma forte propensão a criticar tudo o que é intelectual, e os políticos se valem desse tipo de atitude. Ora, quanto menos um cidadão é educado, mais ele adota atitudes protecionistas", comenta, preocupado.

Apesar de tudo, Kenneth Dewoskin avalia que a sinofobia e o sentimento contra os imigrantes ainda permanecem "contidos". Para ele, a sua evolução dependerá de maneira com que a crise irá evoluir. "O nosso nível de consumo, que se tornou insustentável, deverá diminuir. Portanto, os riscos de haver um surto protecionista são reais. Agora, o que os americanos devem fazer é encararem o princípio de realidade. A crise não se originou na China. Sem o apoio desta última, o dólar hoje estaria ainda mais fraco. E não foi a China que se endividou a esse ponto". Jean-Yves de Neufville

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