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16/10/2008

A crise financeira apresenta o risco de agravar a crise dos alimentos

Le Monde
Laetitia Clavreul
A fome vem ganhando terreno. Atualmente, ela atinge 923 milhões de humanos, ou seja, 75 milhões de pessoas a mais do que no ano anterior, em razão das disparadas dos preços dos gêneros agrícolas e do petróleo. Este é o balanço que acaba de ser divulgado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), às vésperas da Jornada mundial da alimentação, que será realizada na quinta-feira, 16 de outubro.

Este agravamento da carência de alimentos talvez seja apenas o começo de uma crise de grande dimensão. "Aquilo que nós vivenciamos neste ano, com os motins da fome, não era bem uma crise, mas sim um alarme. Se uma crise dos alimentos de amplidão mundial estiver mesmo por acontecer, ela ainda não ocorreu a valer e deverá tornar-se uma realidade num futuro próximo", avalia Abdolreza Abbassian, um economista que trabalha na FAO. Isso porque os mercados agrícolas permanecem tensos, e que a crise financeira apresenta o risco de agravar a situação.

Contudo, alguns sinais de melhora já são perceptíveis. As colheitas do período de 2008 a 2009 deverão bater todos os recordes. Segundo a FAO, a produção mundial de cereais deverá aumentar em 2,8%, sobretudo graças à ampliação da cultura do trigo. Essas perspectivas acabaram favorecendo uma redução dos preços no decorrer dos últimos seis meses nos mercados mundiais, revertendo uma tendência que havia atingido seu ápice em março/abril deste ano.

Regulamentar para controlar a especulação
E o que acontecerá depois dessas colheitas? No longo prazo, as perspectivas permanecem incertas. "Toda vez que houver alguma colheita ruim, os preços deverão disparar. Uma vez que nada foi feito para mudar as regras do jogo, nós continuaremos expostos a uma sucessão de crises dos alimentos", analisa Hervé Guyomard, um economista no Instituto Nacional da Pesquisa Agronômica (cuja sigla em francês é INRA). "Será que o mundo está preparado para agüentar novas disparadas dos preços no futuro?", indaga Abdolreza Abbassian. "Eu creio que este não seja o caso, e tudo o que nós podemos prever é que o seu impacto certamente será ainda mais terrível para os países pobres".

A crise dos preços dos alimentos que teve seu auge em março/abril fez com que todos se conscientizassem dos erros do passado e chegassem a um consenso em relação a quatro necessidades: é preciso investir na agricultura, promover a auto-suficiência da produção de alimentos de cada país - e, portanto, das culturas dos gêneros alimentícios -, apostar no desenvolvimento dos centros familiares de produção agrícola, de maneira a garantir a alimentação dos mais pobres que, em sua maioria, são camponeses, e desenvolver modos de produção duradouros.

Contudo, não se chegou a nenhum consenso em relação aos próprios fatores que provocaram as disparadas das cotações: os efeitos que exercem os biocombustíveis, os mecanismos que permitem a especulação e as alterações dos modos de alimentação nos países em desenvolvimento até hoje continuam sendo objetos de debates. Em conseqüência disso, nenhuma decisão foi tomada pela comunidade internacional que, além do mais, não cumpriu nenhuma das suas promessas financeiras. "Mesmo se a produção continuar aumentando, o verdadeiro problema diz respeito às fontes de renda e ao acesso dos mais pobres à produção", analisa François Danel, o diretor-geral da ONG Action Contre la Faim (Ação contra a fome).

Existe também o risco de o problema até mesmo ampliar-se, por causa da crise financeira. Isso porque, para garantir a segurança alimentícia mundial de uma população que segue aumentando, é preciso investir. Ora, daqui para frente, os aportes dos fundos públicos deverão diminuir ou mesmo desaparecer, o que tornará difícil, por exemplo, desenvolver no médio prazo a agricultura africana e, desde já, ainda neste ano, financiar a ajuda alimentícia, conforme temem as organizações não-governamentais (ONGs) que se dedicam a implementar essas metas.

Portanto, no curto prazo, vai ser preciso contar de fato com os agricultores dos países desenvolvidos para aumentar a produção. Mas, não há garantia alguma de que eles terão condições para enfrentar este desafio se o crédito se tornar mais difícil de conseguir, pois isso tornará impossível a compra de sementes e de fertilizantes. Além de tudo, se os créditos vierem mesmo a faltar, "os países pobres terão muitas dificuldades para financiarem suas importações de gêneros alimentícios", teme Abdolreza Abbassian.

Segundo afirmam muitos especialistas, para que uma crise dos alimentos de grandes dimensões seja evitada num futuro próximo, é absolutamente necessário reduzir a volatilidade dos preços, que é mais preocupante do que as cotações elevadas, tanto para os consumidores dos países pobres quanto para os produtores. A solução poderia ser de utilizar os estoques regionais, de maneira a repor as mercadorias que estão em falta no mercado em caso de desequilíbrio entre a oferta e a demanda. Até então, este papel havia sido desempenhado pelos estoques europeus e americanos, antes que essas ferramentas de regulação acabassem desaparecendo.

Neste ponto específico, a crise financeira poderia revelar-se benéfica. Mesmo se, ao longo das últimas semanas, ela ocultou a crise dos alimentos, a crise financeira fez ressurgir a idéia de se instaurar uma regulação internacional. No que diz respeito ao problema mundial dos alimentos, o debate havia sido iniciado em março deste ano. Na época, o Instituto Internacional de Pesquisas sobre as Políticas Alimentícias (cuja sigla em inglês é Ifpri), baseado em Washington, que considera necessária uma coordenação mundial, havia lançado um apelo para se incentivar a redução e a estabilização dos preços. Este objetivo seria alcançado por meio da implantação de uma regulamentação da especulação e de uma reorganização da distribuição dos estoques de cereais públicos, de modo a racionalizar sua partilha. Contudo, o debate que havia sido estimulado por esta proposta acabou não dando em nada e as decisões práticas e efetivas ainda estão por serem tomadas.

22 países vulneráveis
Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), 89% das pessoas que sofrem da fome vivem na Ásia ou na África. Vinte e dois países revelam ser particularmente vulneráveis às disparadas dos preços, em razão da sua subalimentação crônica, e também da sua forte dependência em relação às importações de produtos petroleiros e de cereais. Trata-se da Eritréia, do Niger, das Ilhas Comores (no oceano Índico), de Botsuana, da Libéria, do Burundi, de Serra Leoa, do Zimbábue, da Etiópia, de Zâmbia, da República Centro-Africana, de Moçambique, da Tanzânia, de Guiné-Bissau, de Madagascar, do Malaui, de Ruanda, do Quênia, do Tadjiquistão, do Camboja, da Coréia do Norte e do Haiti.

Segundo o Programa Alimentício Mundial (PAM), a ajuda internacional caiu em 2008 para o nível mais baixo já registrado nos últimos quarenta anos, no momento em que um número crescente de países precisa de uma ajuda de emergência. Jean-Yves de Neufville

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