UOL Notícias Internacional
 

16/10/2008

A fulminante estratégia de vendas do Taser, a pistola elétrica que supostamente "permite salvar vidas"

Le Monde
Isabelle Mandraud
Antoine Di Zazzo não poupou esforços para alcançar este resultado. Nos últimos meses, a pistola de impulsão elétrica da marca Taser passou a ser um dos equipamentos utilizados pela polícia civil, pela polícia militar, e, mais recentemente, pela polícia municipal. Trata-se de uma ascensão fulgurante, sobretudo considerando-se que a apresentação desta arma importada da Flórida foi realizada pela primeira vez no Bourget (região parisiense) em 2003, por ocasião do Salão Milipol dedicado à segurança. Desde então, a estratégia da SMP Technologies, a companhia francesa que distribui o Taser, e do seu diretor-geral, Antoine Di Zazzo, baseou-se em dois pilares principais: uma frenética atividade de lobby, e uma propensão extremamente desenvolvida a intentar processos na justiça contra os seus críticos, pelos mais diversos motivos.

Foi assim que a Taser França empenhou-se em perseguir perante os tribunais, sucessivamente, as organizações de defesa dos direitos humanos Anistia Internacional França e Raid-H, e, mais tarde, o porta-voz do partido LCR (Liga Comunista Revolucionária), Olivier Besancenot, por "atentado à reputação do produto", ou ainda por "difamação".

"Salvar vidas"...
Em 11 de março, o juiz de medidas cautelares indeferiu a queixa da companhia contra a Anistia Internacional, que com isso segue publicando até hoje, em seu site na Internet, o número de 290 mortos que foram recenseados nos Estados Unidos desde 2001, depois que essas pessoas tivessem sido atingidas por um tiro disparado com um Taser. Em "pelo menos vinte relatórios de autópsia" que foram examinados por sua iniciativa, a organização humanitária afirma que as autoridades judiciárias americanas consideraram as pistolas elétricas como sendo a "causa direta ou agravante dos óbitos". Ora, em seu site na Internet, a Taser França vem divulgando regularmente textos laudatórios sobre o tema da arma "que permite salvar vidas"... Neles a empresa salienta, sobretudo, o seguinte argumento: ao paralisar o seu alvo, a pistola, que emite uma forte carga elétrica, evita que o policial tenha de recorrer à sua arma de fogo.

Em 15 de setembro, a SMP Technologies entrou com um processo, exigindo uma indenização de 50.000 euros (cerca de R$ 145.000) por perdas e danos, contra a organização de defesa dos direitos humanos Raid-H, por esta ter se referido à imagem do "gégène" (um pequeno gerador elétrico utilizado para torturar pessoas) ao analisar as características do Taser.

Em 20 de outubro, chegará a vez de Olivier Besancenot, que deverá responder, perante o mesmo tribunal superior de Paris, competente em matéria de delitos penais, pelas acusações de difamação. Nesse meio-tempo, em 6 de outubro, Antoine Di Zazzo intimou Martine Aubry, por meio de uma carta recomendada que foi entregue por um oficial de justiça, a voltar atrás em suas declarações. A prefeita socialista de Lille (Norte) havia declarado em entrevista ao canal de TV por assinatura Canal+, que ela não equiparia a polícia da sua cidade com a famosa pistola, e havia mencionado o número de 290 mortos registrado nos Estados Unidos. Ao ser contatado então pela reportagem do "Le Monde", Antoine Di Zazzo havia prometido que iria "até o fim", e fulminou a prefeita com duras palavras: "Ela é mesmo muito folgada! Afinal, foi mesmo o governo Jospin [primeiro-ministro socialista, no poder de 1997 a 2001] que autorizou os policiais municipais a estarem equipados com pistolas de calibre 38!"

Agora, passamos para um cenário totalmente diferente, e para um tom bem mais ameno. É um homem todo sorrisos, sempre disponível para efetuar uma demonstração, que efetua visitas em tudo o que Paris conta como locais de poder, dos mais conhecidos aos mais discretos. Foi assim que Antoine Di Zazzo entrou em contato pessoalmente com o The Kitson, um clube criado por profissionais da imprensa anglo-saxões. Fundado em 2005 por Elisa Kitson, ele funciona em circuito fechado, exclusivamente para alguns iniciados oriundos dos meios do CAC 40 (as 40 empresas mais cotadas da Bolsa de Paris), da imprensa e da diplomacia.

O princípio é sempre o mesmo: trata-se de colocar frente a frente duas pessoas, tais como, por exemplo, Marine Le Pen (uma figura destacada da extrema-direita francesa) e Tariq Ramadan (um escritor suíço de origem egípcia cuja obra busca fundamentar a religião muçulmana em termos políticos e filosóficos), para um debate a ser administrado pela autoridade de um "moderador". Em 31 de janeiro de 2007, o encontro promoveu uma "confrontação" verbal entre Antoine Di Zazzo e Benoît Muracciole, um dirigente da campanha intitulada "Controlar as armas", organizada pela Anistia Internacional França. Bruce Crumley, um correspondente na Europa da revista "Time", desempenhava o papel de árbitro. Ele se recorda que naquela ocasião, Antoine Di Zazzo passou uma parte da noite em pé, disparando pequenas doses de eletricidade na sua mão por meio de um Taser adaptado. Benoît Muracciole, por sua vez, teve o sentimento desagradável de que o seu oponente contava com alguns "apoios" na platéia. "Ele organiza a vinda ao debate de pessoas da sua confiança", afirma, "para que elas argumentem no mesmo sentido".

Foi freqüentando outro clube, o Wine & Business, fundado por Alain Marty em 1991, que Antoine Di Zazzo se aproximou do criminologista Alain Bauer. Neste clube elegante no qual só se pode entrar por meio de algum apadrinhamento, e mediante o pagamento de uma cotização anual mínima de 4.900 euros (cerca de R$ 9.300), a presença do responsável pela distribuição do Taser na França como convidado - ele não foi admitido como membro - remonta a julho de 2007.

Estrelas do show-biz
Alain Bauer se defende de ter se tornado um "embaixador" da Taser. Mas ele reconhece de bom grado ter sugerido ao Alto Comitê Francês para a Defesa Civil (HCFDC) para organizar, em abril, um debate no Senado sobre este tipo de arma. Debate este que o delegado geral do HCFDC, Christian Sommade, qualificou de "mediano" e que não demorou a vangloriar os méritos da Taser, por falta de concorrentes. Entre os participantes figurava Jo Masanet, um antigo secretário-geral da UNSA-Police, o mais importante sindicato dos policiais de Paris. Ele foi um dos primeiros que Antoine Di Zazzo contatou e visitou, seis anos atrás, em seu escritório, quando ele lhe ofereceu uma brochura que ele trazia debaixo do braço. Desde então, o sindicato vem prestando uma ajuda constante para a promoção do Taser, conforme comprovam as seis páginas que o sindicato dedicou a esta "arma do terceiro milênio" na edição de setembro da sua revista.

Antoine Di Zazzo tampouco tem problemas em freqüentar estrelas do show-biz ou personalidades políticas. Ele é visto numa foto ao lado do deputado da UMP (o partido governista, de direita) Thierry Mariani num recente número da revista para homens "Balthazar"; ou ainda, ele se exibiu, num grande hotel parisiense, em companhia de Caroline Barclay, a viúva de Eddie Barclay (um famoso empresário de artistas da música francesa), por ocasião da noite de lançamento do Stoper C2, em 29 de março de 2007. Com este "Taser light", segundo a sua própria expressão, que não requer nenhuma licença de porte de arma, o responsável pela sua distribuição na França visa novos alvos: os médicos, os veterinários, os agentes de segurança. E, obviamente, as mulheres, "que devem poder se defender".

Na segunda-feira, 13 de outubro, nos estúdios do Planète Justice, um canal de TV a cabo, Antoine Di Zazzo assegurava, com a arrogância do comercial experiente, que "cinco esposas de chefes de Estado" já possuíam um Taser. Jean-Yves de Neufville

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