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17/10/2008

Em Johannesburgo, uma escola modelo atrai alunos de todo o continente para formar as elites futuras

Le Monde
Jean-Philippe Rémy
Em Johannesburgo (África do Sul)
Nesta época em que a fuga dos cérebros é um fato corriqueiro, a resistência a esse fenômeno vai se organizando na África. Enquanto uma parte dos executivos do continente, formados localmente ou no exterior, tende a exilar-se, partindo em busca de uma melhor sorte em outros lugares no mundo, na África do Sul, uma escola secundária que acaba de abrir suas portas, a African Leadership Academy (ALA - Academia das lideranças africanas), não esconde a sua ambição imensa de reverter este quadro. Para tanto, ela tenta convencer as melhores cabeças pensantes das escolas da África de se tornarem seus alunos, para desenvolverem seus talentos a serviço do seu continente.

No decorrer dos dois anos que antecedem a entrada na universidade ou nas escolas superiores, a "Academy" promete formar uma rede de excelentes alunos, oferecendo-lhes um ensino de alto nível antes de encaminhá-los para as melhores universidades do planeta. Ao procederem desta forma, os dirigentes da nova escola apostam no fato de que, uma vez orientados pela ALA esses alunos se tornarão os executivos da reconstrução da África.

Oriundo dos meios de negócios, e convencido da necessidade de promover o surgimento de uma geração de empreendedores, um grupo de amigos implantou no espaço de cinco anos a African Leadership Academy. Em setembro, a escola, instalada nas dependências de uma antiga imprensa de Johannesburgo reformada, abriu suas portas. Ela acolhe sua primeira promoção, integrada por 97 alunos originários de 29 países.

"Para que a África possa se transformar e seja bem-sucedida, ela precisa de dirigentes de alto nível", insiste Chris Bradford, um dos co-fundadores e o atual diretor da escola. "Dezenas de milhares de famílias, por toda a África, gastam fortunas para enviar seus filhos estudarem em outros continentes, onde eles acabam esquecendo-se de uma parte da sua cultura. Nessas condições, como podem os atuais dirigentes africanos querer que se formem elites em sintonia com o seu continente?", indaga.

No total, 1.700 alunos oriundos do continente inteiro pleitearam uma vaga para este ano inaugural. Após passarem por três fases de seleção, apenas uma centena dentre eles foi selecionada. Eles foram submetidos a um processo ainda mais seletivo que o da Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Um deles, um sudanês, cresceu num campo de refugiados no Quênia. Um jovem de Serra Leoa enfrentou uma viagem de 16 horas de ônibus para chegar a Freetown, a capital, e submeter-se aos testes de seleção.

"Um projeto magnífico"
A escola, que é uma organização sem fins lucrativos, conta com as contribuições de fundações e de mecenas (empresas ou indivíduos) para implementar o projeto. "É um projeto magnífico, e único", comenta com entusiasmo Jon Zehner, o diretor para a África do banco JP Morgan, que contribui financeiramente para viabilizar a escola. Mais da metade dos alunos é bolsista: as suas despesas com escolaridade são cobertas pelas doações recebidas pela ALA. Os outros, quando os seus pais têm um poder aquisitivo suficiente, devem arcar com as despesas de escolaridade, de cerca de 15.000 euros (cerca de R$ 43.670) por ano.

Uma parte importante do programa é dedicada à África, enfocando a sua história, sua geografia e as relações entre os seus países. "Os jovens desconhecem seu próprio continente, que tem sido totalmente negligenciado durante os seus estudos até agora. Alguns dias atrás, um dos alunos ficou espantado ao ser informado de que a Somália faz parte da África", diz Chris Bradford, ainda abismado com esse fato.

Graças ao exigente caderno de endereços dos fundadores da escola, a qualidade dos docentes e palestrantes convidados está à altura do nível de excelência almejado pela escola. Um professor de física de Oxford acaba de dar uma palestra, dizendo-se motivado pela esperança de que "o próximo Einstein esteja ali, em algum lugar na África". Um dirigente da Fundação Bill & Melinda Gates está sendo aguardado para uma aula em que ele irá explicar a importância da agricultura para o continente e os seus desafios. O vice-presidente do Bank of America, por sua vez, está se despedindo após ter destrinchado a crise financeira atual.

"Aqui, nós temos tudo de que precisamos; tudo o que temos a fazer é mostrarmos o nosso empenho", comenta, admirado, Mehdi Oulmakki, um aluno originário de Salé, no Marrocos. "Em nossos países, somos obrigados a partir para estudar na Europa. Mas o que se aprende por lá é o sistema dos outros. No que me diz respeito, tenho vontade de estudar aqui na África", explica Fatoumata Binetou Fall, 16 anos, uma aluna que acaba de chegar do Senegal.

No mesmo momento, numa região do continente situada a milhares de quilômetros de Johannesburgo, uma idéia similar também começou a ser desenvolvida. Em Abidja, na Costa do Marfim, uma escola das ciências morais e políticas da África do Oeste, que pretende ser "uma das escolas superiores da África", acaba de abrir suas portas, com a esperança de se tornar um caldeirão de formação de elites, que dedicarão seus talentos ao desenvolvimento da África. Jean-Yves de Neufville

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