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17/10/2008

Todos nós somos recicláveis

Le Monde
Sandrine Blanchard
Uma mulher de 57 anos recebeu seu coração, um homem de 42 anos ganhou seu fígado, e os seus rins foram atribuídos a dois jovens rapazes de 28 e 32 anos. Sébastien Sudrot precisava saber "para onde foram levados" os órgãos do seu pai. "Ele conseguiu salvar quatro pessoas!" Claude, um agente de manutenção, tinha 58 anos e não apresentava nenhum problema de saúde. Numa tarde, num sábado de janeiro de 2007, ele caiu estatelado numa das alamedas de um supermercado do Val-d'Oise (na região parisiense), quando estava fazendo compras com a sua mulher, vítima de uma ruptura de aneurisma. "O meu pai estava em coma, o médico explicou para a minha mãe que não havia esperança de salvá-lo". Claude era doador, era o que ele sempre dissera aos seus familiares.

"Ele era um cara super legal, que ajudava as pessoas. Ele sempre dizia: 'Se um dia eu puder ajudar alguém a viver, por que não fazê-lo? Afinal, nós somos recicláveis'", recorda-se Sébastien. A família respeitou seu desejo. "Eu aceitei que tomassem seus órgãos, mas eu não queria que mexessem nem com os seus olhos, nem com a sua pele; aquilo era uma espécie de reação humana instintiva em relação ao cheiro e ao contato da pele do meu pai", conta o seu filho único. Sébastien e sua mãe foram autorizados a ver seu corpo depois da retirada dos órgãos. "Com a exceção da cicatriz, a sua aparência não havia mudado. O seu semblante estava apaziguado. Eu pude ver as suas costas e confirmar que a minha vontade havia sido respeitada".

Em 2007, na França, 1.562 pessoas tiveram os seus órgãos retirados para doação, 4.666 doentes receberam enxertos, e 227 morreram por falta de uma cirurgia de enxerto. Atualmente, cerca de 13 mil pacientes estão inscritos em listas de espera. Por ocasião da Jornada mundial da doação de órgãos, em 17 de outubro, um "jardim efêmero", a ser criado apenas para este evento, será plantado no Jardim do Luxembourg em Paris, por iniciativa da Fundação Greffe de Vie (Enxerto de Vida).

"Nós enfrentamos constantemente uma situação de penúria", sublinha o doutor Jacky Clauquin, diretor dos serviços de coleta e de enxertos na Agência da Biomedicina (www.dondorganes.fr). "O enxerto constitui a derradeira opção terapêutica, à qual se recorre quando todas as técnicas médicas e cirúrgicas não conseguiram "consertar" o mau funcionamento de um órgão vital", resume este especialista. Anônima e gratuita, a doação de órgãos é regulamentada, na França, pela lei de bioética. Ela baseia-se no princípio do "consentimento presumido": as equipes médicas consultam os familiares do defunto para verificar se ele não se opunha a uma doação. Uma família em cada três recusa a idéia de se efetuar uma retirada de órgãos. Apenas as pessoas que faleceram no hospital em estado de morte encefálica, em conseqüência de um traumatismo craniano ou de um acidente vascular cerebral, podem ter os seus órgãos colhidos sem permissão da família. Apenas doze centros hospitalares estão habilitados a proceder a esta operação depois de uma parada cardíaca.

Géraldine Corre esperou por nove meses até poder receber o enxerto de um rim. "De vez em quando, quando havia um fim de semana prolongado ou quando as férias começavam ou terminavam, ocasionando deslocamentos em massa nas estradas, os médicos ou os meus familiares me diziam: 'Isso é bom para você'. Eu achava meio estranho o fato de me encontrar naquela situação de viver na espera da morte de alguém, mas acabei me conformando, pensando que a vida é assim mesmo. Em 31 de março de 1999, um funcionário do hospital ligou para mim e disse: 'Como está se sentido? Prepare a sua escova de dentes e seus pertences, pois temos aqui um rim para a senhora'. Naquele momento, eu não consegui acreditar que era verdade; desatei num choro de alegria e de pânico".

Antes da operação de enxerto, Géraldine tinha o sentimento de ser "um peso morto", de estar vivendo em velocidade lenta. Havia dois anos que ela estava sob diálise por causa de uma insuficiência renal em fase terminal, que foi diagnosticada quando ela estava tentando ter um filho por inseminação artificial. Ela tinha 30 anos e "tudo estava desmoronando". O seu desejo de se tornar mãe estava aniquilado; o seu cotidiano e a sua vida conjugal mudaram por completo. Depois da cirurgia, "o enxerto trouxe o renascimento para nós dois", resume Daniel, o seu marido. "Fisicamente, eu passei a me sentir extremamente bem, tive vontade de fazer e de ver tudo o que fosse possível, de não mais perder uma migalha sequer da vida", conta Géraldine.

Para tentar "evacuar a doença", o casal havia dado entrada num processo de homologação, tendo em vista uma adoção. O pequeno Mehdi chegou em maio de 2001, e Shaime em maio de 2004. "A vida de todo ser humano só ocorre como resultado de doações", comenta Géraldine, com um sorriso. Ela conhece a idade, o sexo e as circunstâncias da morte do seu doador, mas ela não quer falar nesse assunto. "Por respeito por ele, eu não revelo este meu segredo. Acabei idealizando a sua imagem. Quando me sinto triste ou deprimida, quando não tenho mais vontade de tomar meus medicamentos, penso no meu doador. De vez em quando, eu fico imaginando seu rosto, e me pergunto a quantas andava a sua vida; chego à conclusão de que ele era forçosamente uma pessoa muito legal. Este rim foi uma dádiva que eu recebi; estou cuidando dele e, graças a ele, estou vivendo. De alguma forma, o meu doador continua vivo, mas, infelizmente, não mais como uma pessoa plena e inteira!"

Patricia Mortreux, por sua vez, diz "estar vivendo para dois". Colocando as suas mãos sobre o seu coração e seus pulmões que foram enxertados em 14 de janeiro de 1988, esta mulher de 50 anos, uma funcionária de banco, confessa estar "falando" regularmente com a sua doadora. "Eu tinha 30 anos quando fui beneficiada pela sua doação; ela, por sua vez, tinha 24 por ocasião do seu acidente de carro. É um pouco como se ela fosse uma irmãzinha. Juntas, nós duas estamos seguindo o mesmo caminho. Quando eu vejo coisas bonitas, converso com ela, e quando enfrento problemas, eu lhe digo: 'Não fique preocupada, vou conseguir resolver'; já, quando tenho problemas de saúde, eu lhe peço para agüentar firme, para não me abandonar".

Para comemorar os seus dez anos de vida com os órgãos enxertados, Patricia havia até mesmo preparado uma extensa carta para os pais de jovem moça. "Um dos meus amigos me disse que isso comportava o risco de despertar sofrimentos. Acabei guardando a carta numa gaveta". "Você vai descobrir algo que nunca havia vivenciado", anunciou-lhe o seu médico pouco antes da cirurgia. Ela que sempre andava sem fôlego, que enfrentava dificuldades enormes para galgar alguns poucos degraus de escada por causa de uma malformação congênita, teve o sentimento de que alguém havia "insuflado" ar nos seus pulmões. "Imediatamente depois da operação, ou mais tarde, a questão relativa à origem dos órgãos sempre acaba surgindo à tona", diz. É que Patricia sofreu uma "pequena rejeição" há 14 anos, um problema que voltou a ocorrer em fevereiro passado. "Estou tentando manter tudo funcionando da melhor maneira possível, até onde for possível", conclui.

O coração que está batendo no corpo de Thierry Prévotat, 41 anos, já é o seu terceiro. Primeiro, foi o seu próprio, que funcionava de mal a pior por causa de uma malformação cardíaca que foi diagnosticada quando ele ainda era uma criança. Depois, veio um primeiro enxerto, em 1990, que agüentou por dez anos até ocorrer um processo de rejeição crônica, e então um segundo, em julho de 2000. "Para mim, não era concebível que um coração estranho para o meu corpo pudesse funcionar. Então, eu tive primeiro que me conformar com a idéia de receber um enxerto". Depois de uma espera que durou seis meses, o telefone finalmente tocou, o coração estava lá. Depois da cirurgia, Thierry sentia "medo de que ele parasse de repente" e tinha o sentimento de estar "como prisioneiro". "Obviamente", ele começou a se perguntar qual era a origem do seu novo coração. "Sempre dever haver algum dossiê médico guardado dentro de alguma gaveta, no qual são indicados a idade e o sexo do doador, mas eu não tive vontade de descobrir. Proibi a mim mesmo de pensar nisso, e acabei aceitando este órgão como se ele fosse uma peça mecânica de reposição".

Ele era novo, não tinha nenhum diploma, e tinha muitos outros problemas para resolver. "Este enxerto mudou a minha vida e a minha maneira de encarar a vida. Eu podia finalmente fazer projetos, mesmo que aquele equilíbrio fosse precário". Ele partiu para uma viagem de sete meses em Taiti, voltou a curtir uma farra, recomeçou finalmente a jogar futebol, resolveu retomar seus estudos e acabou se formando; casou-se então, e tornou-se pai. "Eu fiz questão, uma questão de honra, de levar a minha vida como qualquer outra pessoa, de não procurar cultivar a minha diferença", diz. "Este enxerto foi o mais belo presente que eu poderia receber".

Depois da morte da sua filha, Micheline Piveteau compareceu no hospital todo santo dia. "Eu precisava compreender por que os órgãos de Sandrine não puderam ser enxertados naquele momento, quando duas pessoas deveriam receber o seu coração e um rim". Toda vez, os médicos lhe explicaram a mesma coisa: "Não foi por culpa sua, mas sim por causa de uma hemorragia". "Para mim, foi muito difícil aceitar e assimilar aquela falha", recorda-se Micheline. Sandrine tinha 20 anos, ela estava se preparando para o exame de conclusão dos estudos de formação profissional, para tornar-se cabeleireira.

Na tarde de um domingo de 1997, quando ela estava atuando como fiscal benévola numa corrida ciclista na Vendée (sudoeste), a sua moto caiu e ela bateu de frente num poste de iluminação. No hospital de Luçon, na sala das famílias, quando os médicos apareceram para perguntar a respeito de uma possível retirada de órgãos, Micheline, sem saber realmente por que, aceitou imediatamente. O seu filho logo rebateu: "Você está oferecendo algo que não lhe pertence". O seu marido, por sua vez, não disse nada. "Aquele foi um momento difícil", recorda-se Micheline. Os amigos de Sandrine chegaram então ao hospital. "Eles também eram motoqueiros. Eles nos revelaram que a nossa filha lhes dissera que em caso de acidente, ela queria doar seus órgãos". Portanto, o seu irmão acabou aceitando. "Nós pudemos ver Sandrine uma última vez, depois da coleta dos órgãos. Tirando a cicatriz, a sua beleza havia sido perfeitamente preservada".

Evelyne Comte telefonou regularmente para a coordenadora dos transplantes, para se informar a respeito do que seria feito com os órgãos do seu filho. "Ela me manteve a par, sem qualquer problema. Hoje, em algum lugar, pessoas enxergam e vivem graças a ele. Isso nada tem de admirável, é perfeitamente normal". François, o seu filho, tinha 16 anos. Em 12 de janeiro de 2000, ele partiu junto com colega para passear de moto nas pequenas estradas vicinais do Jura (leste). Algumas horas mais tarde, os bombeiros contataram a sua mãe. François estava no hospital de Besançon, em estado de coma, sem chance alguma de sobreviver. Este jovem colegial tinha a sua carteira de doador de órgãos. "Eu havia sido convencida por amigos das virtudes da doação de órgãos, era um assunto a respeito do qual nós conversávamos com freqüência, mas eu nunca teria pensado que um dia a questão surgiria à tona para o meu filho". Ela respeitou a sua vontade "sem hesitação, com o sentimento de ser útil em meio à inutilidade da morte". Evelyne reconhece que ela resolveu se "agarrar a esta doação, possivelmente para não afundar de vez". Ela segue se agarrando a ela até hoje: "Atualmente, ainda existe uma parte do meu filho que está vivendo, nem tudo está acabado". Jean-Yves de Neufville

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