UOL Notícias Internacional
 

18/10/2008

Roberto Saviano, o inimigo número 1 da Camorra

Le Monde
Fabio Gambaro
Ele deixou a sua cidade natal, vive escondido e se desloca num carro blindado, constantemente escoltado por dois policiais encarregados da sua proteção. Esta é a vida de Roberto Saviano, o jovem autor de "Gomorra" - um livro estarrecedor em que ele relata suas investigações do mundo do crime napolitano vinculado à Camorra -, que, na Itália, com quase 900 mil exemplares vendidos, vem ocupando há um ano os primeiros lugares no ranking dos best-sellers.

O sucesso transformou o livro num autêntico fenômeno de sociedade, sendo objeto de manifestações públicas, e até mesmo de leituras nas escolas. Ele também está na origem de um filme, em fase de realização, dirigido pelo cineasta Matteo Garrone. Tudo isso, evidentemente, não agradou nem um pouco aos chefões responsáveis por dezenas de assassinatos, que detestam acima de tudo esse tipo de publicidade. Principalmente porque o escritor não hesitou a denunciar publicamente suas identidades, não só no seu livro como também por ocasião de um ato de protesto público realizado em Casal di Principe, uma aldeia da periferia de Nápoles considerada como a capital da Camorra.

"Eles não suportaram que eu os atacasse em seu próprio quintal, diante dos seus filhos e das suas famílias. Até então, ninguém nunca havia ousado fazer isso. Foi por esta razão que eles me condenaram à morte", explica o escritor, que aproveita todas as oportunidades para agradecer aos numerosos intelectuais (entres os quais Umberto Eco e Giancarlo De Cataldo), por estes terem apoiado abertamente sua iniciativa.

"A indisciplina do romance"

Nascido em Nápoles em 1979, Roberto Saviano, depois de concluir seus estudos de filosofia, queria dedicar-se à escrita. O crítico Goffredo Fofi aconselhou-o um dia a relatar a realidade na qual ele estava vivendo em vez de obstinar-se em inventar histórias de ficção. O escritor seguiu seu conselho. Empreendeu um extenso trabalho de investigação nos bairros controlados pelos "camorristi". O seu inquérito acabou resultando num livro em forma de soco no estômago, no qual ele utilizou a técnica da reportagem literária para narrar a realidade econômica e antropológica da nova criminalidade napolitana. Um mundo impiedoso que não hesita a matar para defender não só os seus tráficos vinculados às drogas como também as suas tramóias nos setores da construção civil e da indústria têxtil, e no mercado do processamento do lixo.

"Eu não queria elaborar um ensaio de concepção clássica, nem uma simples ficção", explica. "Portanto, inspirei-me no gênero da 'nonfiction novel' (novela testemunhal) de Truman Capote (escritor americano, 1924-1984). Lancei mão da liberdade e da indisciplina do romance, cruzando-as com o rigor das estatísticas, dos arquivos, das análises sociológicas. Quando abordada por este ângulo, a literatura deixa de constituir uma fuga da realidade, como isso ocorreu tantas vezes com muitos escritores do sul da Itália, e torna-se o instrumento mais adequado para narrar um universo que está diante dos olhos de todos, ainda que esse tipo de narrativa permaneça aparentemente difícil de circunscrever dentro de padrões".

"Gomorra" - um título que remete ao mesmo tempo à cidade bíblica de Gomorra e à Camorra - apresenta-se como uma viagem iniciática "pelo império econômico e o sonho de dominação" desta organização mafiosa que tudo mundo chama de "o sistema", porque na verdade "a palavra camorra não existe, é apenas um termo utilizado pelos policiais". No decorrer da sua narrativa, Saviano gosta de encenar a si mesmo, com os seus temores e suas indignações, alternando constantemente a descrição dos detalhes com uma visão de conjunto, uma reflexão sócio-econômica com recordações pessoais, a relação de atos oficiais da magistratura com a narração de histórias individuais.

Por conta deste dispositivo muito rico, sempre valorizado pela tensão da escrita, o livro deixa de ser uma mera investigação para tornar-se um objeto mais complexo, ao mesmo tempo um romance de formação e um livro de militância que desvenda a verdadeira guerra travada por uma criminalidade muito poderosa, sempre à procura de novos nichos para os seus tráficos.

"Características épicas"

"Os camorristi são verdadeiros samurais do liberalismo", escreve. "Eles se consideram como empreendedores e o seu modelo é o de uma empresa que deve se desenvolver sem limites, dentro de um contexto globalizado. É por esta razão que a Camorra não é mais um fenômeno simplesmente napolitano. Ela gangrenou a Itália e agora se desenvolve de maneira intensiva no exterior, inclusive na França. O seu modelo, aliás, é muito diferente daquele da Máfia siciliana, que sempre procura infiltrar-se no mundo da legalidade e nas esferas do poder político. A Camorra, por sua vez, só quer saber de fazer negócios".

Este mergulho alucinante possui uma força tão grande que certos críticos chegaram a escrever que Saviano parece ser dominado por um fascínio excessivo pelo tema que ele aborda, sobretudo ao pintar com freqüência os seus personagens com traços quase heróicos. O escritor - "da mesma forma que todos os que nasceram em Nápoles" - reconhece ter sido fascinado pelas façanhas perpetradas por esses heróis do mal, mas ele acrescenta que tenta hoje "enfrentar o mito, desconstruindo-o sem, contudo, negar sua existência". Segundo ele, no mundo da Camorra, haveria uma verdadeira dimensão épica: "As suas histórias, as suas ações, os seus rituais revestem características épicas e eles mesmo tentam constantemente alimentar sua própria mitologia, que eles constroem com freqüência em função das imagens do cinema".

Para escorar esta afirmação, ele menciona o "chefão" que mandou construir uma mansão igual àquela de Tony Montana, o personagem encarnado por Al Pacino em "Scarface" (1983), ou ainda certas mulheres da Camorra que trajam roupas da cor amarela fluorescente como Uma Thurman em "Kill Bill" (2003/2004). Aliás, se na Itália "Gomorra" teve tanto sucesso (o que foi o caso também na Alemanha, na Espanha e na Holanda, onde ele já foi traduzido), é provavelmente porque os leitores, muito além da sua vontade de compreenderem, se mostraram sensíveis à fascinação ambígua e doentia provocada por este universo sombrio e violento.

Um mês atrás, Roberto Saviano retornou pela primeira vez a Casal di Principe. Lá ele vivenciou mais uma vez toda a hostilidade de um mundo que não lhe perdoa por ele ter quebrado a lei do silêncio e mostrado a gravidade de uma situação que até então era conhecida apenas pelos magistrados, os policiais e mais alguns jornalistas.

"Eu não escrevi nada que seja novo; tudo já era do conhecimento de todos", afirma hoje este admirador de Camus (Albert Camus, 1913-1960, escritor e filósofo francês) e de Pasolini (Pier Paolo Pasolini, 1922-1975, escritor e cineasta italiano). "Eu apenas construí uma combinação de dados e de histórias, dentro de um quadro no qual os episódios criminosos adquirem uma dimensão totalmente diferente. Nunca se deve ter medo de dizer a verdade. Mesmo se hoje estou pagando pelas conseqüências disso, eu sei que era preciso fazê-lo". Jean-Yves de Neufville

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,54
    3,265
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    1,36
    64.085,41
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host