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18/10/2008

Um lago glaciário ameaça devastar aldeias na Suíça

Le Monde
Agathe Duparc
Correspondente em Genebra
Desde os acontecimentos deste verão (em julho/agosto), a comunidade dos pesquisadores europeus especializados nos riscos glaciários vem acompanhando atentamente a evolução de um lago que se formou nos contrafortes da geleira de Grindelwald, no Oberland bernês. Esta acumulação de água apareceu inicialmente em 2006, em conseqüência da queda, na extremidade da geleira, de importantes materiais morênicos - depósitos de fragmentos minerais acumulados pela geleira que são liberados quando do seu derretimento -, os quais acabaram constituindo uma barragem natural que impede o escoamento natural das águas geradas pelo derretimento e pelas chuvas de verão.

Desde então, o volume do lago não parou de aumentar. No médio prazo, ele ameaça transbordar, ou ainda provocar o rompimento do dique, o que resultaria em enchentes catastróficas, e até mesmo no derramamento de uma "lava torrencial" por todo o vale. Uma série de lugares de grande importância turística - aldeias e centros dedicados aos esportes de inverno, além de lugarejos, numa área que abrange até mesmo a cidade de Interlaken, à beira do lago de Brienz - seria então atingida pelo desastre. Sem mostrarem a mesma pressa que os pesquisadores, que lhes entregaram desde o final de setembro um relatório a respeito da situação, as autoridades do Cantão de Berna finalmente divulgaram o problema para a população, na sexta-feira, 17 de outubro.

Evoluções rápidas

O fenômeno foi descoberto por Martin Funk, um pesquisador no Laboratório de construção hidráulica, de hidrologia e glaciologia da Escola Politécnica Federal de Zurique. A queda dos fragmentos minerais é uma conseqüência do derretimento acelerado da geleira de Grindelwald, que, desde 1850, perdeu 200 metros de espessura. No final de setembro, o glaciologista, que esteve no local, constatou que, desde maio, o volume do lago havia mais que duplicado, passando de 1,3 milhão de m3 para 2,7 milhões de m3.

Em seu relatório, o pesquisador qualifica a situação de "muito preocupante". "Neste verão, o lago encheu-se em duas oportunidades e esvaziou-se sem provocar maiores estragos. Mas, por pouco uma grave catástrofe não ocorreu", explica. No decorrer deste inverno, a situação deveria permanecer estável. Contudo, durante o verão de 2009, o volume do lago poderia continuar crescendo, o que aumentaria o risco de um esvaziamento brutal.

Diante de uma perspectiva tão preocupante, as autoridades do Cantão de Berna optaram, sobretudo, por tranqüilizar a população. Elas asseguraram que o lago vem sendo objeto de uma "vigilância constante". Enquanto uma intervenção direta visando a reduzir o volume de água está excluída por enquanto, em razão dos riscos de desmoronamentos de pedras, as autoridades estudam a construção de um túnel sob a rocha (dentro do qual a água poderia escoar em caso de enchente); ou ainda um sistema de barragens que permitiria reduzir o ritmo da vazão da enchente.

"Essas soluções permitiriam evitar destruições consideráveis, mas elas não suprimem o problema", avalia Christian Vincent, do Laboratório de glaciologia e de geofísica do meio-ambiente de Grenoble (leste da França). No verão de 2005, este pesquisador supervisionou, na qualidade de especialista, a sifonagem de um lago supra-glaciário que havia se formado sobre a geleira de Rochemelon (na Savóia). Junto com os seus colegas, ele havia alertado em 2004 a prefeitura local para a existência de riscos importantes de transbordamento.

"Nem todos os lagos glaciários são perigosos. Mas, por causa do derretimento acelerado das geleiras, as situações evoluem com grande rapidez", acrescenta. Em julho de 2002, foi preciso bombear, numa operação de emergência, um lago que havia se formado na superfície da geleira do Mirante do Monte Rosa (Itália) e que ameaçava submergir a aldeia de Macugnaga.

Em outras áreas montanhosas do planeta, no Himalaia, nos Andes ou na Ásia central, a situação permanece mal conhecida. Em 2002, um relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio-Ambiente (cuja sigla em inglês é PNUE) havia avaliado que com o derretimento das geleiras, vinte lagos haviam se formado no Nepal e 24 outros no Butão, todos eles potencialmente perigosos.

Na maioria dos casos, trata-se de lagos retidos por barragens de morenas instáveis. Na ocasião, Surendra Shrestha, um especialista nepalês do PNUE, explicou que "caso medidas não fossem tomadas em caráter de emergência, qualquer um desses lagos poderia transbordar dentro de cinco a dez anos, o que poderia se revelar catastrófico para as pessoas e os bens que se encontram a centenas abaixo das geleiras". Jean-Yves de Neufville

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