UOL Notícias Internacional
 

21/10/2008

O meio-ambiente pode ser beneficiado pela crise econômica

Le Monde
Hervé Kempf
O ritmo do tráfego aéreo vai se reduzindo, as vendas de automóveis diminuem. Com isso, a contração da atividade econômica deveria reduzir mecanicamente as emissões de gases de efeito-estufa. Dentro da mesma ordem de idéias, o desaquecimento da atividade do setor imobiliário deverá frear a expansão urbana; projetos de construção de infra-estruturas que contribuem para a destruição dos ecossistemas naturais podem vir a serem questionados por causa de sua rentabilidade reduzida; a cotação da soja está caindo e, de maneira geral, "a redução dos preços das matérias-primas deverá reduzir a pressão sobre a floresta", conforme bem observou Carlos Minc, o ministro brasileiro do meio-ambiente.

Na opinião dos economistas e dos especialistas no meio-ambiente entrevistados pela reportagem do "Le Monde", o efeito benéfico da crise sobre o meio-ambiente é real. "Contudo, enquanto a crise irá provocar uma diminuição do consumo, esta evolução postergará o problema, mas não o resolverá", diz Sylvie Faucheux, da Universidade de Versalhes. Da mesma forma, Nicholas Stern, da London School of Economics (Universidade de Economia de Londres), autor de um importante relatório a respeito das conseqüências econômicas do aquecimento climático (publicado em novembro de 2006), avalia que "dois a três anos de crescimento reduzido das emissões de gás carbônico não resultarão numa alteração relevante da situação. O verdadeiro objetivo é de passar para um crescimento que emite pouco CO2".

Um efeito perverso desta evolução poderia até mesmo fazer com que, "assim como ocorreu em 1973 com o primeiro choque petroleiro, a crise acabe deixando a preocupação ecológica em segundo plano, até que ela seja esquecida", comenta Jean-Marie Harribey, um professor da Universidade de Montesquieu-Bordeaux-IV, e vice-presidente da organização não-governamental Attac.

Ora, conforme salienta Christian Coméliau, do Instituto Universitário de Estudos do Desenvolvimento, em Genebra, "as crises ecológica, petroleira e dos alimentos não suspendem seus efeitos apenas porque está havendo uma crise econômica". Esta realidade foi relembrada recentemente por Pavan Sukhdev, um economista do Deutsche Bank, cujo estudo sobre a economia dos sistemas naturais calculou entre US$ 2 trilhões e US$ 5 trilhões (entre R$ 4,3 trilhões e R$ 10,75 trilhões) por ano o montante total da perda dos serviços prestados pela natureza, perda essa provocada pela destruição dos ecossistemas.

"Há um ensinamento para ser tirado da crise financeira", diz Nicholas Stern. "Se nós ignoramos os riscos que se desenvolvem no quadro de um sistema, acabamos nos deparando com graves problemas. Esta é uma lição muito poderosa que serve também para o aquecimento climático, cujas conseqüências, se nada for feito, serão muito mais sérias do que a crise atual".

Outro aspecto cuja evolução vem sendo observada no quadro da crise é a questão social: "O fato de haver uma recessão e um desaquecimento da produção resultará numa pressão menor sobre o meio-ambiente", analisa Benjamin Grebot, um especialista em ecologia do movimento Utopia. "Mas este fenômeno será uma imposição não desejada, e não uma opção escolhida. Além disso, as populações mais pobres serão as primeiras a suportar suas conseqüências".

"Esta crise não atingirá todo mundo da mesma maneira", confirma Jean-Marie Harribey. Para ele, "ela implica num questionamento drástico da distribuição da renda". Já, na opinião de Sylvie Faucheux, "o mundo já alcançou os limites da decência no que diz respeito à repartição das riquezas. Os economistas liberais se esqueceram de que os seus ancestrais, entre os quais os britânicos Adam Smith (1723-1790) e David Ricardo (1772-1823), insistiram tanto na questão da distribuição da renda quanto naquela da produção".

Está tomando forma um consenso geral em torno da idéia segundo a qual "a crise pode constituir uma chance se ela permitir repensar o modo de desenvolvimento", segundo a expressão empregada por Jean-Marie Harribey. "Se não houver uma conscientização generalizada por parte dos dirigentes políticos dos países ocidentais em relação à necessidade de se operar mudanças radicais em suas abordagens", explica Sylvie Faucheux, "isso provocará a morte do sistema dentro de algum tempo, porque inelutavelmente haverá conseqüências negativas, e destrutivas, quer no plano social, quer no plano ambiental".

Na busca de soluções, duas vias principais estão sendo esboçadas, uma mais tecnológica, a outra mais social. A primeira é defendida por Nicholas Stern, para quem "nós deveríamos investir em infra-estruturas que permitam produzir a eletricidade de outras formas, dentro de construções mais eficientes em termos energéticos, de maneira a podermos passar para uma economia que emitirá pouco carbono". E ele acrescenta: "Está havendo uma oportunidade enorme para tais investimentos, cujo montante total provável é de 1 trilhão de dólares por ano no decorrer dos próximos vinte anos. Isso ajudará os países a saírem da recessão, e, portanto, contribuirá para solucionar o problema da distribuição". Contudo, conforme observa Christian Coméliau, "o crescimento está sendo questionado, porque o peso da crise financeira acrescenta ao fator ecológico um elemento de bloqueio".

Em vez de valorizar a procura de uma ruptura tecnológica, a segunda via privilegia a modificação das regras do jogo do sistema econômico. Nesse sentido, segundo Jean-Marie Harribey, "é preciso ampliar a esfera não mercantil, cujo impacto ambiental geralmente revela ser bem mais reduzido: a saúde e a educação são os dois pilares principais desta geração de riquezas".

Em todo caso, conforme avalia Benjamin Grebot, "esta é a oportunidade ideal para voltarmos a questionar o modo de funcionamento do sistema atual, que visa a rentabilidade a qualquer custo, sem se preocupar com os danos causados ao meio-ambiente. Não se trata de sair da economia de mercado, mas sim de organizá-la de outra forma". Jean-Yves de Neufville

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