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22/10/2008

Mistério nas catacumbas de Roma

Le Monde
Stéphane Foucart
A alguns metros debaixo da superfície, numa área tranqüila da periferia romana, dormiam os protagonistas e os ingredientes de um cenário macabro e trágico: catacumbas, esqueletos amontoados aos milhares, uma epidemia ocorrida há mais de 19 séculos, tudo isso tendo como pano de fundo o culto celebrado em memória dos primeiros mártires da cristandade. . . Contudo, esta história começou com um incidente muito banal que aconteceu no verão de 2003, num jardim dos subúrbios do sudeste de Roma, a menos de 5 quilômetros do centro da cidade.

"Depois da ruptura de uma canalização de água, uma fossa havia se criado num terreno particular", conta Raffaella Giuliani, da Comissão Pontifical da Arqueologia Sagrada. O incidente ocorreu dentro do perímetro das catacumbas dos Santos Pedro e Marcelino, pertinho do imponente mausoléu de Helena, construído pelo imperador Constantino, o Grande (272-337) para a sua mãe. Sem demora, a Comissão pontifical enviou especialistas ao local que desentulharam o desmoronamento e descobriram um conjunto de várias salas até então inexploradas das catacumbas. No chão, encontraram as ossadas de 3 mil a 4 mil pessoas. Eles se dedicaram a construir muros de sustentação, de modo a evitar o desmoronamento das abóbadas, e então entregaram o achado, em 2005, aos cuidados de arqueólogos franceses que concluirão, em 30 de outubro próximo, suas operações de perícia.

"A idéia inicial era de recorrer aos nossos serviços para que explicássemos um massacre eventual. E, uma vez concluída a tarefa, a previsão era de que nós liberássemos a área o quanto antes", explica a pesquisadora Dominique Castex (do CNRS, a principal entidade científica francesa), que co-dirige as escavações. "Mas, as coisas não aconteceram conforme as previsões". Aparentemente, as coisas poderiam ter sido mais simples. Nas salas esquecidas de uma catacumba, ossadas foram encontradas. Afinal, nada mais normal. A cerca de sessenta catacumbas romanas foram amplamente utilizadas como cemitérios pelos primeiros cristãos, entre meados do século 3 e o final do século 4.

As catacumbas foram construídas a partir de estruturas que anteriormente eram cisternas cavadas dentro da rocha, ou ainda carreiras. Aproveitando essas estruturas pré-existentes, foi criada uma complexa trama de galerias de vários quilômetros, as quais se comunicam e se separam em dois ou três níveis diferentes, geralmente numa profundidade de uma dezena de metros. Dentro das paredes desses labirintos, inúmeros "loculi" - tipos de nichos retangulares - foram cavados para acolherem sepulturas (hoje, não há mais nenhuma ossada dentro deles).

Em muitos casos, verdadeiros porões foram construídos nessas galerias, os quais, não raro, foram finamente decorados pelos seus proprietários. Segundo a estimativa de Jean Guyon (do CNRS, que atua na Casa Mediterrânea das Ciências do Homem), um dos maiores especialistas nesta questão, cerca de 25 mil defuntos foram enterrados apenas na catacumba dos Santos Pedro e Marcelino.

Contudo, nenhum dos elementos que formam os amontoados de restos humanos descobertos em 2003, apresenta qualquer relação com as sepulturas cristãs dos séculos 3 e 4. Em primeiro lugar, explica Dominique Castex, "a datação de um dos corpos que nós efetuamos por meio do carbono 14 apontou uma data situada entre 80 e 132 da nossa era". Muito antes, portanto, que esses subterrâneos fossem convertidos em necrópoles cristãs.

Portanto, ao que tudo indica, os mortos foram colocados dentro de antigas cisternas enterradas, ou ainda nas dobras de uma carreira de calcário poroso abandonada. Colocados ou jogados? "O estado de conservação das conexões ossudas, que revelaram ser frágeis, mostra que todos os corpos foram colocados ali de uma só vez", prossegue a pesquisadora. "Isso porque se cadáveres tivessem sido jogados por cima dos corpos já em estado de decomposição, essas pequenas junturas teriam ficado desorganizadas, o que não é o caso aqui".

Portanto, os corpos ali foram instalados, formando uma camada acima da outra, dentro de um curto período de tempo. "Eles foram alinhados, pés com cabeça, orientados conforme um eixo norte-sul ou leste-oeste", acrescenta Dominique Castex. Um pó esbranquiçado foi espalhado sobre os corpos. Terá sido cal viva? De forma alguma: "A análise mostrou que se tratava de gesso".

O estudo físico-químico dos restos reservou uma outra surpresa: âmbar da longínqua região do Báltico também foi aplicado nos defuntos, misturado com uma outra resina vegetal que ainda está em fase de análise. É a primeira vez que uma "pseudo-momificação" desta natureza é documentada. Nicolas Laubry, um membro da Escola Francesa de Roma, confirma o caráter estranho do procedimento, "tanto mais que naquela época, o procedimento funerário mais utilizado era o da cremação, uma vez que a inumação era uma prática muito marginal em Roma", diz.

Quem são, então, esses 3 mil a 4 mil defuntos? "Em sua maioria, trata-se de jovens adultos", diz Philippe Blanchard (do Instituto Nacional de Pesquisas Arqueológicas Preventivas), um dos co-diretores das escavações. Aparentemente, eles não pertencem às camadas mais pobres da sociedade romana, uma vez que os panos mortuários que adornam seus despojos foram bordados com fios de ouro. . . Poderia então tratar-se de um grupo de mártires que foram assassinados na época do imperador Domiciano (81-96) ou ainda na de Trajano (98-117)?

A hipótese é tanto mais sedutora que apenas uma parede separava uma das galerias principais da catacumba dos Santos Pedro e Marcelino do conjunto de novas salas que foram descobertas. Além disso, foi encontrado, pintado nesta parede, um afresco datado do século 6 ou 7 - uma época em que as catacumbas romanas foram visitadas por inúmeros peregrinos -, cujos restos visíveis evocam um culto a um grupo de mártires. Além do mais, ao lado deste afresco, uma meia-coluna está apoiada na parede, sobre a qual os peregrinos podiam colocar uma oferenda.

Mas, infelizmente esta hipótese revelou-se caduca. Os membros desses supostos mártires não apresentam qualquer estigma e esses infelizes não apresentam quaisquer sinais de terem sido submetidos a algum suplício. "Hoje, a hipótese mais provável entre todas é a de que se tratou de une mortalidade importante provocada por um ou diversos episódios epidêmicos", diz Philippe Blanchard. Quanto aos cuidados minuciosos dos quais beneficiaram os despojos mortais, "é preciso simplesmente imaginar que as regras de higiene eram provavelmente muito diferentes daquelas que nós temos em mente quando nós imaginamos hoje a administração de uma epidemia", diz Dominique Castex. "Não é porque alguém morre das conseqüências de uma doença que o seu despojo é abandonado ou queimado".

Não são mártires, portanto. Mas, antes, as vítimas de uma doença fulminante. Então, nesse caso, esta parede adornada com um afresco, este altar em forma de meia-coluna votiva, a quem se destinavam a prestar homenagem? Para explicar este ponto, Jean Guyon está trabalhando na seguinte hipótese. "É possível que ao tentarem prorrogar e aumentar as galerias, cristãos tivessem encontrado essas salas por acaso", explica. "E eles podem ter acreditado de boa-fé que os defuntos que haviam sido colocados ali eram mártires, mortos muito tempo antes deles".

O que mais poderiam fazer, a não ser construir um muro para deixar os mortos em paz, o que permitiu no mesmo tempo que os peregrinos, dedicassem um culto, do outro lado do muro, àqueles em relação aos quais eles pensavam que haviam sido entre os primeiros mártires da cristandade. . . Eles também ignoravam, portanto, sem dúvida, a verdadeira identidade dos 3 mil a 4 mil desconhecidos da catacumba dos Santos Pedro e Marcelino. Jean-Yves de Neufville

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