UOL Notícias Internacional
 

22/10/2008

Na Dinamarca, a guerra das gangues alimenta o discurso antiimigrantes

Le Monde
Olivier Truc
Em Estocolmo (Suécia)
Após um curto período de trégua, os tiroteios entre bandos rivais recomeçaram nos últimos tempos pelas ruas de Copenhague. Foram cinco ocorrências no espaço de quatro dias. O mais recente desses confrontos, que foi registrado na segunda-feira, 20 de outubro, aconteceu em pleno dia, na frente de uma escola. Ninguém foi ferido, mas a tensão e a preocupação não param de crescer.

Vários especialistas se dizem preocupados diante desta escalada da violência de tipo americano, na qual os motoqueiros dos Hell's Angels (Anjos do Inferno), que vêm dominando a criminalidade organizada dinamarquesa desde os anos 1980, estão enfrentando bandos de jovens delinqüentes de origem imigrante que querem tomar o seu lugar e foram ganhando força ao longo dos últimos anos. A onda de violência atual teve início em meados de agosto com a morte de Osman Nuri Dogan, um jovem de 19 anos de origem turca que foi baleado na frente de uma pizzaria de Copenhague. Um membro do AK81, um clube que apóia os Hell's Angels, foi preso, suspeito de ser o autor do assassinato, mas teve de ser libertado por falta de provas.

Desde então, a guerra das gangues deixou vários feridos no seu rastro. Cerca de trinta tiroteios ou confrontos com disparos de armas foram recenseados nas três principais cidades do país, Copenhague, Arhus e Odense. "Nenhum morador chegou a ser atingido, isso criou um ambiente de medo nas ruas", constata o delegado Kim Kliver, chefe do Centro Nacional de Investigação, responsável da luta contra a criminalidade organizada.

"São conflitos locais que apresentam dois aspectos", declarou o policial em entrevista ao "Le Monde". "O controle do mercado das drogas e uma concepção estúpida da honra segundo a qual quando um lado atira, o outro deve necessariamente replicar". Na maioria dos casos, esses conflitos colocam em confronto bandos de motoqueiros com gangues de jovens de origem imigrante, "mas, há também situações em que gangues de jovens de origem imigrante se enfrentam entre si". Em todos os casos, os conflitos têm como origem o controle do tráfico de entorpecentes.

Esses bandos constituem a principal preocupação da polícia dinamarquesa. Segundo ela, os Hell's Angels e seus bandos afiliados são compostos por cerca de trezentas pessoas. Do outro lado, cerca de duzentas pessoas de origem imigrante constituem as tropas de uma dezena de grupos, entre os quais o Black Cobra e o Den Internationale Klub. Estes últimos começaram a desafiar os motoqueiros a partir de 2005. Os Hell's Angels tinham ficado enfraquecidos pela guerra que eles haviam travado entre 1994 e 1997 com outro bando de motoqueiros, chamado de Bandidos, em diversos países nórdicos, um conflito que havia provocado a morte de onze pessoas e deixado dezenas de feridos. Desde então, a polícia multiplicou as operações de grande vulto contra esses bandos, que com elas acabaram ficando enfraquecidos. Diante disso, as outras gangues aproveitaram a oportunidade para entrarem em ação.

No decorrer das últimas semanas, o conflito adquiriu uma nova dimensão. Retomando a retórica da extrema-direita dinamarquesa, também praticada por certas lideranças políticas que enxergam no crescimento dos bandos de origem imigrante o fracasso da política de integração implantada pelo governo, um dos mais conhecidos dentre os Hell's Angels dinamarqueses, Jorgen Nielsen, mais conhecido como Jonke, declarou ao diário "Politiken" que ele e seus amigos iriam "cuidar do problema dos imigrantes". "Já faz algum tempo, a Dinamarca vem sendo tiranizada por esse tipo de pessoas que me agrediram", acrescentou Jonke, referindo-se a um ataque do qual ele foi vítima no ano passado.

Os Hell's Angels, posicionando-se como os defensores dos dinamarqueses? "Os confrontos nada têm a ver com um conflito étnico, ao contrário do que os Hell's Angels gostariam que acreditássemos", rebate o delegado Kliver. "Mas, argumentos desse tipo lhes permitem, entre outros, recrutar com maior facilidade".

Ao se posicionarem como vítimas, os Hell's Angels esperam conquistar simpatizantes. Desta forma, eles podem manipular de modo mais eficiente, aqueles que o delegado Kliver chama de "idiotas úteis". Esses bandos se mostram tanto mais propensos a investirem no argumento étnico que este alimenta diretamente sua ideologia: por ocasião de certas operações de busca efetuadas ao longo dos anos, os policiais escandinavos encontraram material de propaganda nazista.

Os Hell's Angels também desenvolvem suas atividades num terreno propício, num país onde a extrema-direita se banalizou, desde que o Partido do Povo Dinamarquês passou a atuar como força de apóio parlamentar complementar para o governo minoritário liberal-conservador de Anders Fogh Rasmussen. A agressividade do discurso com os jovens imigrantes mal integrados vem sendo compartilhada pela maioria dos partidos, de todos os credos políticos.

Para debelar esta guerra aberta entre bandos, a polícia reforçou as patrulhas ostensivas e passou a contar com uma autorização especial que lhe permite intensificar suas operações de busca em determinadas áreas de riscos. Desde o mês de agosto, 200 armas foram apreendidas e 40 pessoas foram colocadas em regime de detenção provisória. Jean-Yves de Neufville

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