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24/10/2008

Níger ameaça expulsar os integrantes da ONG humanitária Médicos Sem Fronteiras

Le Monde
Christophe Châtelot
Este é mais um paradoxo do Níger, um país mais ou menos do tamanho da Bolívia que, como esta, não tem acesso ao mar. Enquanto os esforços que as autoridades de Niamey empenharam no decorrer dos últimos anos para vencerem a batalha contra a desnutrição foram reconhecidos pela comunidade internacional, o Níger ameaça expulsar do seu território a organização não-governamental francesa, Médicos Sem Fronteiras (MSF). Há três meses, esta que vem se destacando como uma das entidades mais ativas na luta contra este flagelo no Níger desde 2001, viu as suas atividades de atendimento nutricional da população serem suspensas.

Na terça-feira, 21 de outubro, em Niamey, a capital, Marie-Pierre Allié, a presidente da seção francesa de Médicos Sem Fronteiras, tentou convencer as autoridades nigerenses a voltarem atrás em sua decisão e permitirem que a ONG prossiga suas atividades e volte a atender milhares de crianças desnutridas na região meridional de Maradi, situada na fronteira com a Nigéria.

"Ouçam o que nós temos a dizer, considerem a situação, aceitem a nossa ajuda hoje. A melhor opção que nós temos é conversarmos juntos agora a respeito das modalidades para trabalharmos em parceria num futuro próximo", argumentou a ativista humanitária, apelando para a boa-vontade do presidente Mamadou Tandja. Contudo, na quarta-feira, na sede parisiense da ONG, todos se mostravam antes pessimistas em relação às chances de sucesso da tentativa de acordo.

Nos dias que antecederam a ameaça de expulsão, o ministro da Saúde nigerense, Issa Lamine, havia trazido à tona uma acusação já antiga, que todos consideravam como esquecida. A acusação segundo a qual a Médicos Sem Fronteiras exagerava "o número de crianças mal nutridas com o objetivo de obter fundos suplementares". Desde o começo deste ano, mais de 60 mil crianças sofrendo de desnutrição aguda foram atendidas nos centros nutricionais da organização. Contudo, no modo de ver do ministro, a situação na região de Maradi (onde vivem 2 milhões de habitantes) "não é dramática". "Queremos que a Médicos Sem Fronteiras vá embora. Cabe ao Estado empenhar os meios necessários para fazer com que a saúde das populações seja garantida", disse Lamine, em entrevista na rádio pública.

Os problemas da Médicos sem Fronteiras com as autoridades nigerenses remontam a 2005. "Naquela época, a crise nutricional no Níger havia se tornado um fenômeno de primeiro plano, repercutido com grande intensidade pela mídia; foi então que dezenas de ONGs desembarcaram no país", lembra Isabelle Defourny, uma dirigente da MSF. As autoridades de Niamey não gostaram nem um pouco desta publicidade que comprometia a imagem do país. "A desnutrição das crianças é uma doença vergonhosa para as famílias e para os Estados que sofrem com essa situação", explica.

Alimentos prontos para serem consumidos
Atualmente, no momento em que o regime emite os sinais de um endurecimento político, o ativismo da Médicos Sem Fronteiras contribui para sublinhar a persistência de um problema do qual o regime preferiria negar a existência. "Contudo, a taxa de mortalidade das crianças de menos de 5 anos vem se aproximando do nível que costuma ser verificado num país em guerra", comenta Isabelle Defourny, alarmada.

É por esta razão que a Médicos Sem Fronteiras havia implantado um programa orientado não apenas em benefício das crianças em estado de desnutrição aguda, como também daquelas moderadamente atingidas. Esses programas se baseavam essencialmente na utilização de alimentos terapêuticos prontos para serem consumidos. "A região de Ramadi havia se tornado um campo experimental que estava demonstrando a eficiência preventiva dos nossos modos de proceder", sublinha Isabelle Defourny.

Às dificuldades da Médicos Sem Fronteiras com o poder nigerense se sobrepõem, segundo os dirigentes da organização, as carências da ação internacional contra a desnutrição. "Ocorre que este flagelo não é uma prioridade para a ONU, e isso faz com que os financiamentos sejam raros", explica a sua presidente. Uma abordagem inversa, sem dúvida teria motivado as autoridades de Niamey a pensarem duas vezes antes de interromperem os programas da ONG. Jean-Yves de Neufville

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