UOL Notícias Internacional
 

24/10/2008

O governo japonês não consegue promover uma recuperação da natalidade

Le Monde
Philippe Mesmer
Correspondente em Tóquio
Um Japão sem mais nenhum japonês? A idéia pode parecer surpreendente, mas, segundo os demógrafos, se a tendência atual se mantiver, a população japonesa, que atualmente é de 127 milhões de indivíduos, poderia muito bem cair para... 0 até o ano de 3000, conforme lembra o mais recente número do boletim mensal do Instituto Nacional de Estudos Demográficos, francês. Este exercício de previsão ressalta que, no arquipélago nipônico, 22,1% da população têm mais de 65 anos e que a taxa de fecundidade se situava em 1,34 filho por mulher em 2007. Com isso, o Japão poderia passar aquém da barra dos 100 milhões de habitantes daqui até 2050, e aquém da barra dos 50 milhões de habitantes daqui até o final do século.

Na origem dessas dificuldades estão diferentes fatores, tais como o desaparecimento, em meados dos anos 1970, das solidariedades familiares e de vizinhança. Naquela época, "o modelo que se tornou predominante foi aquele de um pai que provém às necessidades da família", explica Sasai Tsukasa, do Instituto Nacional da População e da Pesquisa sobre a Seguridade Social, japonês. "A mãe torna-se dona-de-casa e dedica-se a cuidar das crianças".

A partir dos anos 1980, um número crescente de mulheres se orientou rumo a uma carreira profissional. Contudo, nas empresas, a tradição manda que uma mulher encerre sua atividade quando ela se torna mãe. Com isso, um grande número de mulheres renunciou a fundar uma família. A crise dos anos 1990, que acelerou o processo de deterioração da sociedade, tornando a vida social mais precária, incentivou um bom número de casais a não terem filhos, por temerem não ter condições para garantirem a sua educação. O que resultou numa queda continuada da taxa de fecundidade.

Diante desta situação, o governo, que comporta um ministério encarregado de lutar contra o declínio da natalidade, permanece estranhamente passivo. Um plano de emergência, chamado de "Angel Plan", que foi implantado no final de 1994, previa um aumento da quantidade de vagas nas creches, além de vantagens fiscais para os casais com filhos. Mas este esforço permaneceu limitado, e, na maioria dos casos, foram as administrações públicas locais que não raro se mostraram mais aptas a tomarem iniciativas. Assim, o distrito de Kita, situado na região de Tóquio, passou a outorgar uma ajuda mensal de 300.000 ienes (R$ 7.224) aos casais que têm um filho, ao passo que a Seguridade Social não reembolsa nenhuma das despesas relacionadas à gravidez.

Atualmente, nas grandes empresas, que estão confrontadas a uma penúria de mão-de-obra e ao aumento da proporção de mulheres entre os seus funcionários, as mentalidades andaram evoluindo. Algumas companhias como a Mitsui, um gigante do comércio no Japão, estão criando seus próprios serviços de creche. "O problema é causado, sobretudo, pelas pequenas e médias empresas", comenta Sasai Tsukasa. "Nelas, as mentalidades permanecem mais conservadoras".

A questão da imigração, por sua vez, ainda está por ser solucionada. As empresas vêm insistindo junto ao governo para que este implemente uma política destinada a atrair os trabalhadores estrangeiros. Contudo, excetuando-se a concessão excepcional de vistos de trabalho, no início dos anos 1990, para descendentes de japoneses que haviam emigrado, a situação não apresenta qualquer evolução.

"Muitos são aqueles que se preocupam com a possibilidade de ver os problemas sociais das populações oriundas da imigração observados na Europa se reproduzirem no Japão", explica Sasai Tsukasa. Na opinião deste especialista, "mais do que as orientações políticas, são as mentalidades que precisam mudar para fazer com que esses problemas sejam resolvidos. Vai ser preciso aguardar o advento de ao menos mais uma geração até que esta evolução se concretize". Jean-Yves de Neufville

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