UOL Notícias Internacional
 

25/10/2008

Candidata de Lula está em posição desfavorável nas eleições municipais

Le Monde
Jean-Pierre Langellier
Em São Paulo
Na Avenida Paulista, a artéria chique de São Paulo, as bandeiras vermelhas trazem o retrato de Marta Suplicy; e as bandeiras verdes o do seu adversário, Gilberto Kassab (DEM), o prefeito de direita em final de mandato. Faltando apenas um dia para o segundo turno das eleições municipais, no domingo, 26 de outubro, as pesquisas atribuem a este último uma dianteira de 17 pontos.

Nem é preciso ler os jornais para perceber qual dos dois candidatos está com o vento em poupa. Naquele dia, perto do Parque do Trianon, o prefeito estava caminhando pelas calçadas, acompanhado por um grupo de vinte deficientes físicos de cadeira de roda. Câmeras filmaram os protagonistas distribuindo abraços e sorrisos radiantes. Um alto-falante berrava um jingle frenético: "A gente quer que Kassab fique na prefeitura!" Sem se esquecer do "Kassabinho", o boneco gigante, fetiche do candidato, que apareceu na rabeira da passeata.

Já, no campo dos adversários, o ambiente revelava ser muito menos festivo. No Largo do Arouche, no bairro da República, um pequeno grupo de fiéis que trajavam a mesma camiseta vermelha, repetia em ritmo, alto e bom som, o nome da sua estrela: "Olê! Olê! Olá! Marta! Marta!" Muitos deles são "motoboys", esses mensageiros que circulam sobre duas rodas, driblando os terríveis engarrafamentos da maior cidade da América do Sul (11 milhões de habitantes).

Contudo, houve uma mudança de última hora no programa: Marta não viria. O seu vice, Aldo Rebelo, estava lá para substituí-la. Ele prometeu proteger melhor os motociclistas, cujos "possantes" estavam alinhados na sua frente. Ele fez comentários a respeito "da confiança" e "da serenidade" da candidata, mas dava para sentir que não acreditava muito no que estava dizendo. No mesmo dia, num outro comício, ela faria a seguinte declaração: "Nós temos muitos Pelés no nosso time para fazer gols daqui até domingo". Contudo, todos já sabiam: era tarde demais para "salvar o bravo soldado Marta".

Marta Suplicy, 63 anos, é membro, desde a sua fundação, em 1980, do Partido dos Trabalhadores, o PT do presidente Lula. Oriunda de uma família da classe alta, psicóloga de formação, ela foi apresentadora durante os anos 1980 de um programa televisivo educativo intitulado "Comportamento sexual". Mulher de um senador, ela ocupou o assento de prefeito de 2000 a 2004, um cargo que ela então perdeu. A título de compensação, Lula a nomearia ministra do turismo.

Sedutora e impulsiva, ela comete gafes de vez em quando. O que foi o caso quando ela ofereceu o seguinte conselho, em 2007, aos viajantes preocupados com o caos no tráfego aéreo: "Relaxem e gozem!" Ela está muito ligada ao presidente Lula, que foi, em 2003, a testemunha do seu segundo casamento. O chefe do Estado participou de vários dos seus comícios, escolheu o seu conselheiro eleitoral e enviou para ajudá-la o seu chefe de gabinete. Mas esses esforços não foram suficientes.

Por sua vez, Gilberto Kassab, 48 anos, pertence a uma categoria social muito diferente. Um engenheiro e economista, este descendente de uma família libanesa não se destaca especialmente pelo seu carisma. Mas é um trabalhador intensivo, um administrador metódico que desperta às 5h da manhã para ler os jornais e enviar seus primeiros e-mails do dia. Ele é o arquétipo da nova classe urbana brasileira.

Salvo alguma reviravolta de última hora, ele deverá ganhar. Diversas razões explicam sua provável vitória. Apoiado pelos meios de negócios, ele injetou muito dinheiro na sua campanha. Obteve dos seus aliados que estes lhe cedessem seu tempo de palavra no horário eleitoral televisivo, e soube tirar o melhor proveito disso, valorizando as realizações do seu mandato. Antes mesmo do primeiro turno, ele já despontava como o adversário mais crível do PT.

Isso porque, no que vem a ser a razão mais importante, São Paulo, que é o berço do PT, permanece rebelde ao partido de Lula. Na capital econômica do Brasil, mais de um terço do eleitorado vota contra o PT. Este último só conquistou a prefeitura, em duas oportunidades, graças à divisão ou à falta de dinamismo dos seus rivais. Atualmente, a configuração da geografia eleitoral favorece ainda mais o prefeito em final de mandato.

Esvaziada da sua indústria, que foi afastada para a sua periferia, São Paulo tornou-se uma cidade de serviços onde a classe média reina, absoluta. Conforme sublinha o sociólogo Francisco de Oliveira, a metrópole abriga "um imenso setor informal no qual os trabalhadores, em busca de vantagens imediatas, votam antes à direita". Muito popular em nível nacional, Lula não tem o poder para transferir seu próprio prestígio para a sua protegida. Ele permanecerá leal para com a candidata até este domingo, mas, depois disso, ele não tem a menor intenção, conforme apontou um jornalista brasileiro, "de morrer nos braços de Marta". Jean-Yves de Neufville

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