UOL Notícias Internacional
 

25/10/2008

Repleta de petróleo, Nigéria carece cruelmente de eletricidade

Le Monde
Jean-Michel Bezat
De Lagos e Abuja (Nigéria)
A noite é muito escura em Lagos. Escura nos bairros residenciais de Ikoyi e de Victoria, e mais escura ainda nos subúrbios de Ajegungle e de Agege. Quando o sol se põe na capital econômica da Nigéria, com os seus 15 milhões de habitantes, os arranha-céus do centro da cidade se transformam em sombras. A única luz visível provém do traçado luminoso formado pelos faróis dos carros, que se estende por dezenas de quilômetros de auto-estradas urbanas.

Este fato caracteriza o paradoxo nigeriano: o país possui hidrocarbonetos em abundância, mas está carente de eletricidade. Onde foi parar a renda petroleira que deveria financiar o desenvolvimento? O Banco Central deste Estado que é o principal produtor de petróleo da África negra (junto com Angola) possui reservas financeiras declaradas de US$ 63 bilhões (cerca de R$ 145 bilhões). Contudo, dezenas de bilhões de petrodólares evaporaram desde que a Shell bombeou o primeiro barril de óleo bruto, no final dos anos 1950.

Além disso, os ataques recentes contra instalações petroleiras do delta do Níger, perpetrados pelos rebeldes e as gangues, "impediram que o país faturasse US$ 15 bilhões [cerca de R$ 35 bilhões] em 2006-2007", calculou Duncan Clarke, um especialista na África e no petróleo, cuja análise está incluída numa pesquisa monumental que foi publicada neste ano pela editora Profile Books.

Por sua vez, o dirigente de uma companhia petroleira avalia que, "de uma produção cotidiana de 2 milhões de barris, 50 mil a 100 mil são desviados para alimentarem o mercado negro".

Sonho inacessível

Em 1º de outubro, por ocasião das cerimônias do 48º aniversário da independência, o presidente nigeriano, Umaru Yar'Adua, lançou um desafio: trata-se de fazer com que o país se torne "uma das vinte maiores economias mundiais daqui até 2020". Mas este sonho permanecerá inacessível enquanto o país estiver tão carente em equipamentos públicos, acrescentou. "O nosso déficit de infra-estruturas não pode permitir o nível de desenvolvimento econômico que nós ambicionamos". Este déficit é gritante no setor da energia, o qual é o ponto-chave da "parceria estratégica" que foi assinada em Paris, em junho, por Nicolas Sarkozy e Umaru Yar'Adua.

O tamanho do desafio é proporcional às necessidades do país. "O consumo médio de uma família nigeriana é o de uma lâmpada de 100 watts", resume um diplomata francês que está em missão em Abuja, a capital federal. Este país de 145 milhões de habitantes dispõe de uma capacidade de produção de 3.000 megawatts - ou seja, quinze vezes inferior àquela da África do Sul, a sua grande rival que, contudo, tem uma população três vezes menor. "A França não pode ignorar este gigante africano. Ele já desponta como o principal destino dos investimentos franceses na África subsaariana", sublinhou Anne-Marie Idrac, no início de outubro, durante uma visita em Abuja. Na ocasião, a secretária de Estado para o comércio exterior reuniu-se com os dirigentes nigerianos para definir as bases de uma cooperação no setor da eletricidade.

Várias empresas francesas estão sendo requisitadas para implementarem diversos projetos. Inicialmente, a RTE, uma filial da EDF (a principal companhia estatal de energia) que administra a rede de linhas de alta tensão, fará uma auditoria da rede elétrica nigeriana, que se encontra em péssima situação. Atrás dela, firmas como a Areva T & D, a Alstom e a Schneider Electric estão de prontidão, na esperança de obterem mercados.

"As necessidades em infra-estruturas [estradas, centrais elétricas, portos...] estão orçadas em US$ 510 bilhões [cerca de R$ 1,2 trilhão]. Este será o investimento necessário para que o país possa acabar com as suas carências daqui até 2020", explica Hakeem O. Sanusi, o presidente do Banco de Desenvolvimento Urbano da Nigéria. "Isso representa 20% do PIB, ou seja, um esforço sem equivalente no mundo". Os observadores estrangeiros não acreditam que companhias privadas se arriscarão em investir sozinhas em grandes infra-estruturas cuja rentabilidade é incerta. Tanto mais que o meio-ambiente político permanece instável e que persistem dúvidas em relação ao respeito dos acordos firmados em contratos.

Os industriais cautelosos

É pouco provável que o setor público nigeriano passe a substituir as empresas privadas. Embora ela siga faturando dividendos importantes, a companhia petroleira nacional tarda a pagar sua quota-parte dos investimentos e está pedindo às multinacionais para adiantarem bilhões de dólares, ainda que ela detenha 60% dos grandes projetos de extração dos hidrocarbonetos. Para desenvolver a rede de eletricidade, as autoridades também estão pressionando gigantes petroleiros como a Shell, a Total ou a Chevron, para que estes construam centrais a gás. Isso fará com que o governo possa cumprir seu compromisso de suprimir as emissões das queimadas do gás na atmosfera, cujas conseqüências sanitárias e ambientais vêm sendo desastrosas para os habitantes do delta do Níger.

Acima de tudo, a Nigéria pretende aceder à tecnologia nuclear, que oferece maiores garantias para alcançar a sua meta de se dotar de uma eletricidade abundante e afirmar sua vocação de grande potência africana. Ao se reunir com a secretária de Estado Anne-Marie Idrac, em 8 de outubro, o vice-presidente nigeriano, Goodluck Jonathan, lembrou-lhe do compromisso assumido por Nicolas Sarkozy de abrir os caminhos para o desenvolvimento da energia nuclear civil. Contudo, a oferta do presidente francês era em primeiro lugar de natureza política. Os industriais do setor nuclear permanecem extremamente cautelosos. A Nigéria é um país ainda demasiadamente instável no plano político. Além disso, nesta nação que contará 250 milhões de habitantes em 2025, nada permite acreditar que o dinheiro do petróleo será mesmo utilizado para financiar um programa tão ambicioso. Jean-Yves de Neufville

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