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26/10/2008

Em Rifle, no Colorado, Leslie Robinson não se esqueceu da depressão econômica de 1982

Le Monde
Corine Lesnes
Em Rifle (Colorado, EUA)
A crise? Que crise? As estatísticas que o prefeito de Rifle, Keith Lambert, está apresentando não são as de uma localidade que estaria sofrendo de um desaquecimento da sua atividade. A taxa de crescimento é de 7% por ano. O número de despejos imobiliários? Zero. Com 9 mil habitantes, Rifle cultiva um astral típico do Faroeste. Há canteiros de obras por todos os lados e ainda assim, a cidade sofre de uma penúria de habitações. O município vive no ritmo da expansão da indústria energética. Uma loja da Starbucks instalou-se recentemente em Rifle, e agora desponta como uma séria concorrente para a loja Base Camp Café, que exibe um urso empalhado acima do seu balcão.

Keith Lambert é um homem ponderado que exibe um belo bigode branco. É um democrata que conseguiu ser eleito num condado republicano. "Uma grande parte da população se mostra favorável às perfurações de poços, quaisquer que sejam os seus custos", constata. Por ter vivenciado o "boom" precedente, durante os anos 1980, ele está hoje um pouco mais desconfiado. "Você está vendo a montanha que está atrás de mim?", indaga, apontando para o planalto de Roan. "Pois saiba que há mais petróleo no seu subsolo do que na Arábia Saudita. Só que ele está aprisionado no interior da rocha".

Naquela época, o governo estava tentando enfrentar o choque petroleiro, desenvolvendo a exploração dos xistos betuminosos. Quando o dinheiro federal arrefeceu, e que os preços do petróleo baixaram, as companhias fecharam uma depois da outra. Até mesmo a Exxon, que "literalmente colocou 2 mil operários no olho da rua de uma hora para a outra, numa tarde de um domingo", em 2 de maio de 1982. A partir daquele momento, os preços das casas desmoronaram, e até hoje, a região permanece traumatizada com aquilo que ela segue chamando de "o domingo negro".

Vinte e seis anos mais tarde, os prospectores de jazidas de "ouro negro" estão de volta no pedaço. Desta vez, não são os xistos betuminosos que eles estão cobiçando, mas sim o gás, que se tornou acessível graças ás novas técnicas de perfurações horizontais. Os operários "petroleiros" se misturam muito pouco com o restante da população. Eles chegam diretamente das plataformas da Louisiana ou do Texas e vivem em alojamentos dentro de campos instalados o mais perto possível dos pontos de perfuração.

"Guerra de trincheiras"

"Eles não compreendem o Oeste", diz Leslie Robinson. "Só estão interessados em caça furtiva e em atividades predatórias!" Ela também se recorda muito bem do "bust", da falência de 1982. Para não esquecer, ela conserva até hoje uma prova daquele desastre: um cubo de areia estriado de preto, uma amostra daquele famoso xisto que deveria substituir o petróleo do Oriente Médio. Democrata desde criancinha, ela seguiu um percurso incomum, daqueles que apenas os americanos sabem traçar para si. Vinda de Chicago "para fazer camping e descobrir o que eu queria fazer da minha vida", ela instalou-se em Rifle. Durante o "bust", ela trabalhou simultaneamente em "três empregos de meio-período". "Nós aqui estamos prontos para a depressão", diz. "Afinal, a gente sobreviveu ao desastre de 1982".

Leslie Robinson está se empenhando "febrilmente" para promover a mudança. E se Barack Obama for eleito, ela conta com ele "logo na primeira semana do seu mandato" para proibir as perfurações no planalto. Neste ano, o Colorado desponta como um "swing state", um Estado indeciso. O jornal local, o "Grand Junction Sentinel", orientou seus leitores a votarem em John McCain, mas a sua companheira de chapa, Sarah Palin, foi obrigada a comparecer no Estado pela segunda vez, em 20 de outubro, para "manter acesa a combalida chama" da mobilização republicana.

Até mesmo os adeptos do "Drill, baby, drill!" ("Perfure, querido, perfure!"), o slogan que ela incentiva suas platéias a repetirem durante os comícios, andam um pouco preocupados em relação às suas condições de vida. Nos últimos tempos, muitos donos de fazendas republicanos começaram a manter certa distância em relação aos fanáticos das perfurações. Bastaria o voto de mais um conselheiro apenas para que o condado passasse a ser controlado pelos democratas, uma perspectiva que está causando alvoroço entre os dirigentes da indústria petroleira. "As pessoas estão se convertendo cada vez mais à filosofia democrata", diz Leslie Robinson. "Elas querem uma maior regulamentação. Estamos vendo uma reação muito intensa contra a mentalidade de Wall Street".

Entre os democratas e os republicanos, está sendo travada "uma guerra de trincheiras", descreve Leslie. Neste condado que conta uma população de 25% de "latinos", os partidários de Barack Obama conseguiram inscrever 500 novos eleitores nas listas eleitorais. Mas, as companhias petroleiras já perceberam a iminência do perigo. Muitos dos seus dirigentes aproveitaram-se das reuniões sobre assuntos de segurança, organizadas para os funcionários, para incentivarem seus empregados a votarem em Rifle, e não na localidade onde eles residem. O resultado disso é que outros 500 novos inscritos, desta vez, favoráveis ao campo republicano, também apareceram nas listas da cidade... Jean-Yves de Neufville

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