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28/10/2008

O coração artificial, aquele que não deixa ninguém na mão

Le Monde
Yves Mamou
A companhia EADS tem um coração. Esta que é o gigante europeu da aeronáutica, dos mísseis e da eletrônica de defesa, abriga num dos seus centros de produção, em Suresnes (Hauts-de-Seine, região parisiense), um coração, um verdadeiro.

Um pequeno casco ovóide de matéria sintética branca, repleto de equipamentos eletrônicos e de materiais biológicos, que palpita no ritmo de 90 pulsações por minuto, 24 horas por dia, está em fase de testes. Pintada de vermelho, esta pequena bomba cardíaca teria todas as características de um coração humano, isso se excetuarmos o ruído de fole de forja que ele emite. A ambição dos inventores desta máquina é de devolver mobilidade aos pacientes, por meio de um transplante.

Dez milhões de pessoas acometidas de insuficiência cardíaca em todo o mundo estão à espera de um produto desse tipo. Elas terão de armar-se de paciência, ao menos por mais algum tempo: dois a três anos de estudos serão ainda necessários até que se possa proceder aos primeiros experimentos em humanos. Mas, para que estes últimos possam ser realizados, o coração deverá deixar as dependências da EADS para passar a integrar uma nova estrutura jurídica e financeira.

Na segunda-feira, 27 de outubro, uma nova rodada de negociações deveria ser realizada em benefício da sociedade Carmat, a principal idealizadora do projeto. Mas os parceiros já anunciaram de antemão suas apostas. O fundo de investimentos Truffle, dirigido por Philippe Pouletty, entrará com 5 milhões de euros (R$ 14,09 milhões); a EADS, que já investiu mais de 15 milhões de euros (R$ 42,26 milhões) no projeto, oferecerá mais 2 milhões de euros (R$ 5,63 milhões); o fundo Oseo aplicará 33 milhões de euros (R$ 92,97 milhões) e o professor Alain Carpentier, responsável da parte científica do projeto, desembolsará 250 mil euros (R$ 705 mil). Esta safra de investimentos não é definitiva. Apesar da crise financeira, o projeto precisa atrair outros investidores. Além disso, "uma entrada em Bolsa não está excluída", acrescenta Philippe Pouletty.

Um inventor prolífico e um cirurgião de reputação mundial, o professor Carpentier vem se dedicando a este projeto desde 1988. "Eu estava frustrado com a inexistência de soluções terapêuticas e pensei que eu poderia oferecer a minha contribuição, uma vez que eu já tinha sido bem-sucedido com as biopróteses". Essas "biopróteses" valvulares - que foram recompensadas, em 2007, com o prêmio internacional Albert Lasker - são válvulas cardíacas artificiais utilizadas por cirurgiões do mundo inteiros. Este pequeno cone de cartilagem de porco é utilizado para substituir a válvula que, nos corações humanos, impede que o sangue reflua durante a sua passagem da aurícula direita para o ventrículo direito e da aurícula esquerda para o ventrículo esquerdo. Quando essas válvulas deixam de regular corretamente a circulação do sangue no coração, fala-se em "estreitamentos" e em "insuficiências cardíacas".

A invenção do professor Carpentier constituiu o prolongamento da inovação que havia sido introduzida pelo americano Albert Starr. Durante os anos 1960, este último havia criado uma primeira prótese de válvula cardíaca de aço. Infelizmente, a formação de coágulos sangüíneos obrigava o paciente a passar sua vida tomando anticoagulantes.

O objetivo de Alain Carpentier seria então de desenvolver um produto que permitisse dispensar os anticoagulantes. Depois de uma série de tentativas frustradas, este cirurgião de 32 anos - estávamos em 1968 - substituiu o aço por cartilagem de porco esterilizada com glutaraldeído (uma substância ideal para a fixação de tecidos biológicos, entre outros). O sucesso foi imediato. Até mesmo as autoridades religiosas judaicas e muçulmanas aceitaram a implantação de porco no músculo cardíaco humano.

Contudo, nos casos de moléstias severas do coração, é quase sempre o próprio órgão que deve ser substituído. O professor Carpentier quis então remediar ao problema da carência de doadores para os transplantes cardíacos. Em parceria com o Cetim, o Centro Tecnológico das Indústrias Mecânicas, ele testou o projeto de um coração artificial. Alguns dos procedimentos foram então patenteados. Mas, para a validação industrial desses procedimentos, o Cetim revelou-se insuficiente.

Alain Carpentier agendou então uma reunião com Jean-Luc Lagardère, o diretor-geral e fundador da Matra (uma antiga montadora de automóveis e fabricante de motores para aviões), uma companhia que hoje já foi absorvida pela EADS. "Eu já tinha prestado alguns serviços para Jean-Luc, operando alguns dos seus colaboradores. Um dia, ele me dissera: 'Se você me fizer o favor de operar este doente, eu poderei vender-lhe um Airbus quando ele estiver recuperado'". O cirurgião conheceu o patrão da Matra "no momento em que ele estava enfrentando dificuldades com a Matra Racing [uma filial que produzia carros de competição]. Tudo o que você precisa fazer é mudar de equipe e associar-se comigo", sugere Carpentier. Então, Lagardère - após ter examinado a questão - tomou rapidamente a sua decisão. "É isso aí, vamos trabalhar juntos!"

Em 1993, Lagardère e Carpentier fundam uma sociedade intitulada Carmat (Carpentier-Matra). Mas, quando Lagardère ameaça abrir seu talão de cheques, o médico lhe faz um sinal para parar. "O dinheiro me interessava menos do que o seu know-how. Eu lhe propus uma cooperação. Eu escolhia entre os membros da sua equipe os especialistas dos quais eu precisava. Quando a sua missão se encerrava, eles retornavam ao seu trabalho inicial". Ele escolheu especialistas em balística, engenheiros em eletrônica, ou engenheiros em diversas disciplinas integradas. Mas, será que esses homens dedicados a especialidades tão diversas poderiam mesmo ajudá-lo a desenvolver um coração artificial? "A medicina não tem nenhuma pátria", responde o professor Carpentier.

Patrick Coulombier, o diretor de programa da Carmat, explica que os métodos de desenvolvimento foram idênticos àqueles utilizados para a construção de um avião ou de um satélite. "Um coração que bate dentro de um tórax é comparável ao conjunto dos equipamentos embarcados num foguete. É preciso reduzir o peso, o volume, a despesa energética. . . A partir do momento em que nós passamos a estudar a questão nesses termos, reencontramos as problemáticas da aeronáutica". As simulações foram realizadas por meio de computadores. "Recorrendo a softwares de modelagem digital, é possível afinar a forma das paredes do coração de modo a fluidificar a circulação do sangue e reduzir o aparecimento dos coágulos", explica Coulombier. Da mesma forma que para os mísseis, os pesquisadores testaram por meio de scanner o desgaste e a resistência dos componentes.

"Brigitte Bardot - a ex-atriz fervorosa defensora dos animais - pode agradecer a nossa equipe, pois essas técnicas evitaram sacrificar dezenas de carneiros", brinca o professor Carpentier. E ele acrescenta: "Para um médico, essas técnicas são extremamente gratificantes. Elas nos obrigam a dar mostras sempre mais de rigor e de precisão". Os engenheiros, por sua vez, parecem estar encantados por estarem trabalhando num projeto que não apresenta apenas um alto valor científico, como também humanitário. "Quando nós estávamos esbarrando num problema, eles conversavam a respeito com os seus colegas, e todo mundo tentava solucioná-lo em rede", conte Alain Carpentier.

Contudo, em 2001, o projeto por pouco não capotou, por ser demorado demais, e caro demais. O seu custo foi então avaliado em uma centena de milhões de francos. Em 2008, a estimativa aproxima-se de uma centena de milhões de euros. Mas, uma vez que o êxito parece estar próximo, os promotores continuam.

Um dossiê preliminar de registro de patentes foi apresentado na Afssaps, a Agência Francesa de Segurança Sanitária e dos Produtos de Saúde. Já, no que diz respeito à agência americana, a Food and Drug Administration, o diretor do projeto prefere deixar isso para mais tarde. A exigência do professor Carpentier é de que o financiamento do projeto seja francês. Até hoje ele não digeriu o fato de a válvula cardíaca, da qual ele é o inventor, ter encontrado apenas um único operador industrial interessado em fabricá-la, a companhia californiana Edwards, que realiza atualmente um faturamento de US$ 1 bilhão (R$ 2,25 bilhões) e que criou centenas de empregos do outro lado do Atlântico.

Assim como ocorre com todos os "medicamentos" de alta tecnologia, o coração artificial terá um custo elevado para o seguro-saúde: possivelmente 150.000 euros (R$ 422.600) por paciente. Jean-Yves de Neufville

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