UOL Notícias Internacional
 

29/10/2008

O fantasma da fraude eleitoral volta a assombrar os Estados Unidos

Le Monde
Sylvain Cypel
Em Nova York
A controvérsia não pára de crescer: a eleição presidencial de 4 de novembro nos Estados Unidos estaria correndo o risco de ser deturpada por fraudes? As equipes de campanha dos dois candidatos à Casa Branca, o republicano John McCain e o democrata Barack Obama, vêm travando entre si um tiroteio de acusações. Os republicanos denunciam uma tentativa dos democratas de incentivarem inscrições maciças de falsos eleitores. Já, os democratas acusam os republicanos de se empenharem em excluir o maior número possível de pobres, de jovens e de negros das listas eleitorais, com o objetivo de evitarem que Estados que eles governam atualmente passem a ser dirigidos pelo campo democrata.

O "escândalo" da Acorn (Associação das Organizações Comunitárias por uma Reforma Imediata) é uma ilustração desta briga. Esta agremiação democrata de esquerda vem lutando para melhorar o acesso dos mais depauperados à saúde, à educação, à habitação, etc. Ela vangloriou-se de ter conseguido obter a inscrição de 1,3 milhão de novos eleitores. Contudo, os republicanos encontraram nas suas listas, inscrições fantasistas (com a inclusão de nomes como Mickey Mouse, Dallas Cowboy, etc.).

Durante o debate presidencial televisivo de 15 de outubro, John McCain, citando especificamente a Acorn, considerou que os Estados Unidos estão "prestes a verem perpetrar-se uma das maiores fraudes em toda a história eleitoral do país". Desde então, os seus partidários vêm multiplicando as acusações nesse sentido. Na opinião do seu diretor de campanha, Rick Davis, uma "nuvem de suspeição" cerca desde já o resultado do pleito.

A Acorn parece ter "inchado" numa proporção de um terço o número real daqueles que ela alega ter incentivado a se inscreverem; além disso, a associação admitiu ter apresentado um número muito reduzido de inscrições fraudulentas. Mas ela atribui esses atos à negligência de alguns indivíduos isolados. Acima de tudo, ela se defende afirmando que ela nada faz senão ajudar as pessoas a se inscreverem, uma vez que são os funcionários públicos dos Estados que, após verificação, emitem as carteiras de eleitor.

Já, no modo de ver dos democratas, os seus adversários republicanos buscam preparar as mentes para uma contestação do resultado em caso de derrota e vêm exercendo pressões sobre os eleitores que mais desconhecem seus direitos, de maneira a desestimulá-los de votarem. Eles os acusam também de tentarem "purificar" as listas eleitorais em circunscrições democratas. Ao que tudo indica, este foi o caso, por exemplo, no Mississipi, onde uma funcionária pública teria eliminado da lista 10 mil eleitores de uma só vez, por diversos motivos. Assim, estudantes que estavam tentando se inscrever teriam esbarrado numa recusa, sob o pretexto de que o seu verdadeiro local de residência seria em seu Estado de origem; por sua vez, pessoas endividadas, que foram despejadas do seu apartamento, teriam sido excluídas das listas por "inexistência de um domicílio fixo".

O Prêmio Nobel de economia Paul Krugman escreve em "A América que nós queremos" (2008) que "a fraude eleitoral (tem sido) onipresente" nos Estados Unidos durante muito tempo. Em 1960, as suspeitas de manipulação pairaram sobre a vitória do democrata John Kennedy. Em 2000, a eleição de George W. Bush só foi consumada em função de uma reviravolta de última hora da Flórida, onde os seus partidários foram acusados de terem fraudado o resultado.

Contestações
Esta recordação, que ainda está muito presente nas memórias, assombra tanto mais este pleito que as incertezas perduram, e isso por duas razões principais. Em primeiro lugar, o surgimento de Barack Obama estimulou uma onda incomum de inscrições de novos eleitores. Além disso, neste país cuja organização é federal, cada um dos Estados instaura suas próprias regras. Em 33 dentre eles, é possível votar por antecipação, o que já vem provocando contestações, como em Maryland; ao passo que nos outros, só se vota no dia do pleito. Alguns Estados admitem apenas a utilização da cédula de papel, enquanto outros organizam a votação por meio de urnas eletrônicas, ou ainda admitem em certos casos a votação por e-mails. Em certos locais, basta apresentar a carteira de eleitor; em outros, é preciso apresentar ao menos duas outras certidões de identidade. Qualquer problema, por menor que seja, que for encontrado nas informações incluídas nesses documentos oficiais pode valer ao seu detentor uma proibição de votar.

Em seu mais recente número, a revista "Time" recenseia os "7 elementos que poderiam falsificar a eleição", classificados na seguinte ordem: a supressão de eleitores das listas, as inscrições falsas ou múltiplas, as cédulas que comportam erros, as máquinas registradoras eletrônicas que não permitem nenhuma recontagem dos votos - a revista menciona exemplos recentes de resultados manifestamente errôneos -, a distribuição desigual dos recursos que prejudica os mais pobres (a espera para votar pode ser seis vezes mais longa nos bairros onde estão concentrados); além disso, são também citados os procedimentos de identificação exigidos, que foram modificados recentemente, e, por isso, são desconhecidos dos eleitores; e por fim, a confusão das regras que mudam de um local para o outro, sobretudo num país onde a mobilidade geográfica é importante.

Contudo, as contestações dizem respeito apenas a 0,013% dos pleitos. Se o triunfo do vencedor da eleição presidencial for indiscutível, as polêmicas logo serão esquecidas. Mas se a sua vitória dependesse mais uma vez de algumas circunscrições em Ohio ou na Flórida, os democratas temem que os republicanos se mostrem muito mais determinados e dispostos a recorrerem na Justiça do que eles mesmos foram quando o seu candidato, Al Gore, reconheceu sua derrota em 2000. Jean-Yves de Neufville

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