UOL Notícias Internacional
 

30/10/2008

Amy Goodman, uma outra voz da América

Le Monde
Yves Eudes
Nova York, 8h da manhã. Amy Goodman dá início ao seu jornal televisivo cotidiano, com o seu bordão ritual: "Você está assistindo a 'Democracy Now' (Democracia agora), o seu relatório sobre a guerra e sobre a paz". O tom é calmo, o rosto neutro, o corte de cabelo comportado, o vestuário ordinário. Ela passa em revista os principais assuntos da atualidade, mas o telespectador não demora a perceber que o programa é único em sua categoria. Assim, para abordar o tema da crise financeira, ela começa com uma reportagem sobre uma manifestação organizada por associações de esquerda, na qual estas protestam ao mesmo tempo contra os especuladores de Wall Street e a guerra no Iraque.

Então, ela passa a falar de militantes negros que estão encarcerados por assassinatos que eles não cometeram; de prisioneiros afegãos sendo submetidos a interrogatórios por psiquiatras militares; de um apelo à desobediência civil que foi lançado por militantes ecologistas contra a construção de centrais elétricas a carvão; da chegada de um regimento que foi repatriado do Iraque, e que agora estaria encarregado da manutenção da ordem no território americano. . .

Em vez de spots publicitários, o programa "Democracy Now" volta e meia é interrompido por videoclipes de músicas sindicais e de rap anticapitalista. Para poder abordar esses assuntos como bem entende, Amy Goodman soube se alforriar de todas as tutelas. Ela é simultaneamente a apresentadora, a redatora em chefe e a produtora do seu programa, cuja administração é garantida por uma associação sem fins lucrativos. O "Democracy Now" não aceita nem publicidade, nem apadrinhamento, e o seu orçamento de US$ 4 milhões (cerca de R$ 8,6 milhões) por ano é financiado em grande parte pelas doações de ouvintes e de fundações. A filmagem no dia-a-dia é realizada num estúdio de televisão que pertence a uma associação de bairro, instalado nas dependências de um antigo quartel de bombeiros.

Ainda assim, esta produção semi-artesanal é difundida pelos Estados Unidos afora. Para tanto, Amy Goodman pode contar com uma rede informal, tão complexa quanto movediça. O "Democracy Now" é difundido ao vivo, em vídeo, por um canal a cabo comunitário nova-iorquino, e em áudio, por uma rede de emissoras de rádio alternativas, a Pacifica. Além disso, o programa é também reprisado por dois canais por satélite e por cerca de 700 emissoras de rádio e de televisão associativas e universitárias. Por fim, o "Democracy Now" pode ser acessado no mundo inteiro por meio da Internet.

Aos 51 anos, Amy Goodman, uma mulher solteira e sem filho, dedica-se de corpo e alma à sua missão. Quase sempre, ela trabalha de doze a quinze horas por dia; ela ainda aproveita seus fins de semana para dar palestras em cidades distantes. Ninguém sabe ao certo quantas pessoas assistem ao seu programa, uma vez que não é efetuada nenhuma medição de audiência nas emissoras não-comerciais.

Amy não chega a ser uma apresentadora célebre na América profunda, mas ela é conhecida nos campus, nos meios intelectuais e por uma parte dos seus colegas jornalistas. Ela mesma está convencida de que os seus ouvintes se contam aos milhões, uma vez que a sua emissora ocupa um nicho que foi abandonado pelos veículos de comunicação comerciais. "Muitos americanos", diz a jornalista, "entenderam que a concentração dos meios de comunicação entre as mãos de um pequeno grupo de bilionários constitui um perigo para a democracia. Existe neste país uma importante demanda por veículos que não procurem retratar o mundo através do prisma deformador dos meios de negócios".

Segundo ela, as grandes emissoras de televisão assumiram posições extremistas que as cortam da população: "Os americanos que se opõem à guerra no Iraque, que são contra as prisões arbitrárias e a tortura, não constituem um pequeno grupo qualquer, de tamanho desprezível. Eles integram a maioria silenciosa, ou, melhor dizendo, a maioria que está reduzida ao silêncio". Contudo, ela está convencida de que quando as pessoas são devidamente informadas do que está acontecendo, elas sentem que esta realidade lhes diz respeito. "O meu trabalho consiste em iluminar os locais escuros e em dar a palavra para aqueles que nunca têm oportunidade para expressarem sua opinião".

As suas qualidades de comunicadora são os frutos de uma sólida herança. O seu pai, um médico que atuava na periferia de Nova York, empenhou-se durante a sua vida inteira para promover a integração racial das escolas da cidade. A sua mãe, inicialmente uma professora que se tornou uma assistente social, foi uma militante pacifista muito engajada contra a guerra do Vietnã. Além de tudo, Amy recebeu uma educação religiosa consistente do seu avô, um rabino ortodoxo originário da Europa do Leste: "Eu era bastante rebelde, mas nós tínhamos discussões acaloradas que me marcaram para o resto da vida. Eu não sou mais praticante, mas permaneço impregnada de cultura judaica".

Em 1986, Amy foi contratada na qualidade de jornalista principiante pela Pacifica Radio. "Eu encontrei logo na minha primeira tentativa aquilo que os outros jornalistas seguem procurando durante sua vida inteira: uma verdadeira liberdade", comenta. Estava começando então uma vida de aventuras e de viagens. Em 1991, quando ela estava realizando uma reportagem em Timor Leste, Amy presenciou um drama que a marcaria profundamente. Na ocasião, ela testemunhou um massacre de civis perpetrado pelo exército da Indonésia, durante o qual ela mesma foi espancada e ferida por soldados.

Em 1996, Amy optou por se instalar em Nova York com o objetivo de criar o programa "Democracy Now", no quadro da rede da Pacifica Radio, e foi conquistando espaços no contexto das comunicações. Em novembro de 2000, o presidente Clinton a contatou, dizendo-se interessado em participar do seu programa. Depois de uma meia-hora de entrevista, o presidente, furioso, declarou que a jornalista havia se mostrado "hostil, combativa e não raro desrespeitosa". Hoje, em retrospecto, Amy acha esta descrição divertida: "Eu apenas lhe fiz algumas perguntas embaraçosas. Os dirigentes políticos não estão acostumados com isso, porque os jornalistas lidam com eles como se fossem monarcas".

O "Democracy Now" tornou-se um programa televisivo em 2001, alguns dias antes dos atentados de 11 de setembro, um evento que Amy cobriria ao vivo ao longo de vários dias. "O acaso fez com que o nosso estúdio de televisão fosse o mais próximo de Ground Zero". Hoje, nesses dias de outono, Amy Goodman vem acompanhando a campanha presidencial americana. Contudo, fiel aos seus princípios, ela não apóia oficialmente nenhum candidato, e recusa-se a revelar em quem ela irá votar. Ela vem travando uma guerra aberta contra os republicanos, mas, ainda assim, ela lamenta que Barack Obama, da mesma forma que o seu adversário, esteja cercado e assessorado por industriais e financistas de Wall Street: "O dinheiro corrompe a política, nos dois campos que estão disputando a presidência", diz.

A cada mês que passa novas emissoras se candidatam para difundirem o seu programa. Em setembro, quando ela estava fazendo uma reportagem sobre as manifestações de opositores à margem da convenção nacional do Partido republicano em Saint Paul (Minnesota), ela foi presa e mantida brevemente em detenção pela polícia. No espaço de poucas horas, uma petição divulgada on-line, que exigia a sua liberação, conseguiu obter dezenas de milhares de assinaturas. O vídeo que registrou a cena da sua prisão, filmado por um dos seus colegas, tornou-se a seqüência mais vista pelos usuários do site na Internet YouTube durante uma semana.

Em dezembro, o Parlamento sueco vai outorgar-lhe o célebre prêmio Right Livelihood ("Modo de vida justo"). No começo de 2009, a equipe do programa vai finalmente se instalar no seu próprio estúdio novinho em folha. Então, Amy será ainda mais independente, se isso for mesmo possível. Jean-Yves de Neufville

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