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31/10/2008

Dominique Strauss-Kahn, diretor do FMI: "Eu proporei ao G20 um plano para viabilizar uma nova governança mundial"

Le Monde
Alain Faujas
Em Washington
Inocentado pelo seu conselho de administração da acusação de abuso de poder, no quadro do relacionamento que ele teve com uma das suas subordinadas, Dominique Strauss-Kahn, o diretor do Fundo Monetário Internacional (FMI), está dando a volta por cima. Ele recuperou o dinamismo que lhe havia permitido, de um ano para cá, começar a reformar a representatividade e as finanças desta entidade.

No momento em que a crise financeira estava no seu auge, ele incentivou os governos a implementarem planos globais que incluíssem a recapitalização dos bancos em situação difícil. Em 15 de novembro, em Washington, ele pretende propor ao G20 um plano destinado a viabilizar uma nova governança mundial, batizado de "Global Regulation Strategy" ("Estratégia de Regulamentação Global"), cujo principal objetivo é de acabar de uma vez por todas com as "bolhas" recorrentes que destroem a economia real.

Em entrevista ao "Le Monde", o diretor do FMI analisa a atual evolução da crise financeira mundial, e apresenta os detalhes da sua estratégia.


Le Monde - Quando acabará a "descida ao inferno" das Bolsas mundiais?

Dominique Strauss-Kahn
- A extrema volatilidade dos mercados mostra que a crise financeira segue produzindo seus efeitos. Tenho boa esperança de que essa volatilidade se acalme porque os planos financeiros, americano e europeu, são sólidos; tudo o que eles precisam é de um pouco de tempo para que os seus efeitos possam exercer-se plenamente.

Em contrapartida, eu estou mais preocupado com o desaquecimento da economia mundial e suas conseqüências sociais. É por esta razão que o FMI não pode contentar-se com o seu papel de bombeiro que ajuda os países a equilibrarem suas balanças de pagamento. Ele também reivindica o papel do pedreiro que ajuda a reconstruir o crescimento. Em 2009, nós estamos prevendo um crescimento mundial de 3%, ou seja, de 0% para as economias dos países desenvolvidos, e de 6% a 7% para os países emergentes. Logo em fevereiro deste ano, aliás, eu já havia aconselhado a aqueles dentre eles que tivessem condições para tanto, a preverem a criação de um mecanismo de apoio orçamentário conjuntural.

Le Monde - Por muito tempo, o senhor não se manifestou. Por que não foi o senhor quem elaborou o plano Brown que serviu como modelo para outros planos de salvamento?

Strauss-Kahn
- Mas vocês da imprensa não estão a par de tudo, o que é normal! Quando uma crise bancária é desencadeada no interior de um país, o FMI não exerce nenhum papel que o conduza a intervir diretamente, mas sim oferece conselhos aos governos. Baseados na análise única de 122 crises passadas, nós andamos insistindo em duas recomendações. Em primeiro lugar, era preciso acabar com a abordagem individual de cada caso e elaborar um plano global; em segundo lugar, era importante recapitalizar os bancos, porque o fato de injetar liquidez não pode ser suficiente. Até meados de setembro, a eficiência exigia que fosse mantida uma grande discrição. Desde então, após sermos ouvidos, nós pudemos nos manifestar publicamente.

Le Monde - O que o senhor pensa da proposta de Gordon Brown de fazer do FMI um banco central mundial dotado de meios financeiros reforçados?

Strauss-Kahn
- Gordon Brown está certo ao querer reformar a arquitetura financeira mundial. Com a globalização, quando o setor imobiliário desmorona na Virgínia, a Hungria padece disso, porque a derrubada do setor da habitação americano coloca em dificuldade os bancos americanos, e depois, todos os bancos do planeta, que repatriam seu dinheiro para recomporem suas liqüidezes e cortam os créditos que eles costumavam fornecer aos países mais distantes. O efeito dominó começa então a se instaurar. O FMI pode impedir que o fenômeno se alastre.

Para tanto, é preciso que o seu papel de coordenador da regulamentação mundial seja reafirmado - tal é, aliás, a abordagem de Nicolas Sarkozy. Nesse sentido, eu irei propor ao G20 um plano que se destina a viabilizar uma nova governança, intitulado "global regulation strategy", que se baseia nos cinco eixos seguintes:

1) Criar um novo tipo de empréstimo que permita aliviar os problemas de liquidez no curto prazo que certas economias estão enfrentando: nós acabamos de definir as suas características.

2) Aumentar os recursos do FMI, que podem tornar-se insuficientes diante da amplidão das necessidades no médio prazo: é precisamente isso que propõe Gordon Brown.

3) Tirar as lições das políticas econômicas que conduziram à formação dessas "bolhas" recorrentes, cujo estouro destrói a economia real: esta é a missão que nos foi confiada, dias atrás, pelos 185 países membros do Fundo.

4) Vigiar a implantação das novas regulamentações financeiras a serem elaboradas, junto com o FMI, pelo Fórum de estabilidade financeira, o qual é integrado principalmente pelos grandes bancos centrais.

5) Ajudar em repensar um sistema mundial que seja mais coerente porque mais simples; mais eficiente porque mais coordenado. Muito além do seu papel de bombeiro e de pedreiro, o FMI também pode desempenhar, por um tempo determinado, um papel de arquiteto.

Le Monde - O que o senhor espera da reunião do G20 em Washington, em 15 de novembro?

Strauss-Kahn
- Que este reaja à altura da situação histórica que nós estamos vivendo. E, portanto, uma impulsão decisiva, a partir do documento que nós lhe submeteremos a respeito das lições a serem tiradas da crise, em favor da reforma da governança mundial.

Le Monde - Esta é uma perspectiva da qual os americanos são reputados não gostarem muito. . .

Strauss-Kahn
- Muitas coisas estão mudando neste momento. Em graus diversos, todos os países - inclusive os Estados Unidos - reconhecem que o mercado não pode funcionar, a não ser se ele estiver organizado, e que não será possível esperar qualquer vantagem da globalização se os seus defeitos não forem corrigidos.

A nossa assembléia de 11 de outubro em Washington promoveu uma reviravolta neste campo: os nossos 185 países-membros aceitaram por unanimidade um sistema cooperativo, o qual logo depois ajudou os europeus a se mostrarem unânimes em suas decisões em Paris, em 13 de outubro. Ora, você se lembra de que, alguns dias antes, todo mundo não enxergava qualquer processo de decisão, a não ser pelo prisma nacional. . .

Você constata também que será um G20, e não um G8 que se reunirá em Washington, em 15 de novembro, isso porque todos os dirigentes se conscientizaram de que a economia mundial não mais se limita apenas aos países ricos. Por minha vez, eu não me canso de lembrar que existe uma outra crise por trás da crise financeira: aquela que os países pobres estão vivendo, atingidos à queima-roupa pelo encarecimento das matérias-primas e dos produtos alimentícios. Nos países desenvolvidos, a crise significa uma redução do poder aquisitivo que atinge os mais depauperados; ela significa um risco de sofrer da fome para alguns, de desnutrição para muitos, e ainda seqüelas para toda uma geração.

Le Monde - O inquérito interno que foi solicitado pelo seu conselho de administração a respeito de um incidente ocorrido em sua vida privada inocentou-o da acusação de abuso de poder. A sua credibilidade e a do Fundo não terão sido abaladas com este caso?

Strauss-Kahn
- Este inquérito foi conduzido por um organismo independente cujas conclusões são claras e não deixam margem para dúvidas. Conforme disse o conselho de administração do FMI: "O incidente está encerrado".

No que me diz respeito, eu estou plenamente envolvido nas ações que visam a oferecer soluções para os problemas econômicos e financeiros do planeta. Aliás, o FMI já não é mais o mesmo do que era há um ano, quando assumi as minhas funções. Ele é mais representativo: a reforma dos direitos de voto, que há anos vinha sendo objeto de comentários, foi finalmente adotada na primavera e terá, no médio prazo, efeitos consideráveis. Além disso, o Fundo tornou-se mais eficiente: os 500 assalariados que nos deixaram por vontade própria nos proporcionaram uma margem que nos permite agora contratar uma centena de outros funcionários que irão nos ajudar na realização das nossas novas missões.

O Fundo tornou-se ainda mais respeitado: as relações da Ásia e da América Latina com o FMI não estão mais estremecidas, pois foram corrigidos os problemas que as conduziam a acusá-lo de apagar os incêndios ao preço de uma regressão econômica e social. Por fim, ele está mais pragmático: da mesma forma que seria absurdo emprestar dinheiro para os Estados que não apresentam as condições requeridas, essas condições não devem mais decorrer de uma linha ideológica, mas sim das necessidades dos países. O FMI tirou as lições dos seus erros passados. Mais do que nunca, eu ambiciono prosseguir na tarefa de reformá-lo, de modo que ele possa desempenhar um papel original neste novo contexto histórico. Jean-Yves de Neufville

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