UOL Notícias Internacional
 

31/10/2008

Otan dedica-se a aplicar progressivamente sua estratégia da "afeganização"

Le Monde
Laurent Zecchini
De Cabul
Eles tentaram de tudo, mas de nada adiantou: por mais que os responsáveis militares e os diplomatas garantam que o número de incidentes envolvendo o uso de armas diminuiu de 35% em Cabul de um ano para cá, o sentimento de insegurança não pára de aumentar. Três assassinatos recentes reforçaram a impressão de que a capital afegã está tanto menos segura que ela se encontraria "sitiada" pelos insurretos.

A realidade revela ser mais contrastada: houve efetivamente um crescimento da criminalidade, que na maioria dos casos está vinculada ao tráfico de drogas e aos seqüestros perpetrados por motivos sórdidos.

Assim, os dois ocidentais que foram mortos em 25 de outubro teriam sido aparentemente eliminados por não terem concordado com a utilização da sua própria empresa (a DHL) para exportar heroína. Entretanto, globalmente, o número de atentados suicidas e de ocorrências de ataques perpetrados por meio de artefatos explosivos improvisados (IED) antes diminuiu. Além disso, embora nenhuma das estradas que conduzem a Cabul seja verdadeiramente segura, a capital não está ameaçada de tornar-se alvo de um ataque planejado dos talebans.

Durante a noite, a polícia reforçou as suas rondas e, daqui para frente, está onipresente nas principais encruzilhadas da cidade. Enquanto isso, as patrulhas do Exército Nacional Afegão (ENA) se multiplicaram. Esta visibilidade é um sinal do aumento considerável da capacidade do ENA, para o qual a Força Internacional de Assistência para a manutenção da Segurança (ISAF, sob o comando da Otan - Organização do Tratado do Atlântico Norte), entregou a responsabilidade do controle da cidade de Cabul, desde 28 de agosto. Desde então, a situação não se deteriorou, e os afegãos enxergam neste fato a prova da eficiência das suas forças de segurança.

Esta transmissão de poder reflete uma concretização da política conhecida como "de afeganização". Concretamente, enquanto os 3.500 soldados afegãos estacionados em Cabul passaram a atuar na linha de frente, eles também contam com o apoio dos 3 mil homens da ISAF colocados sob o comando do general francês Michel Stollsteiner, o "patrão" do comando regional das operações no centro do país.

Se esta transição tiver prosseguimento sem que sejam registrados incidentes mais graves, o ENA ampliará o seu controle nos arredores da capital, até assumir o controle de toda a província de Cabul, a partir de março de 2009.

A Otan vem se esforçando para reconquistar terreno em volta da capital, de maneira a fazer com que o ENA possa instalar novamente suas guarnições, e com isso, devolver confiança à população. Depois da demonstração de força à qual se dedicaram as tropas da Otan, em 18 de outubro, no vale de Uzbin, uma "choura" (assembléia) foi organizada com os "maleks" (prefeitos), que se queixavam do assédio e da truculência dos talebans.

"O centro de gravidade em torno do qual tudo será decidido", insiste o general Stollsteiner, "é a população. As forças que conseguirem conquistar o apoio da população levarão a melhor. É necessário que os afegãos tenham o sentimento de que nós os protegemos mais do que fariam os insurretos".

"O objetivo", insiste o general canadense Richard Blanchette, porta-voz da ISAF, "é de conseguirmos formar um "espírito de guarnição" local entre a população e o ENA, combatendo a propensão dos insurretos a implantarem um "governo fantasma" [uma administração paralela àquela de Cabul]".

A "afeganização" também comporta uma estratégia da reconciliação. Trata-se de uma política de passos curtos, difícil de implementar em razão do esmigalhamento dos movimentos de luta talebãs, e porque a guerra enfraqueceu a estrutura tribal pachtun. No âmbito do governo, o debate em torno dos limites da reconciliação está longe de chegar a uma conclusão, tanto mais que um processo desta natureza, que passa pelo escalão local, segue antes um rumo inverso daquele da centralização do poder que por muito tempo foi preconizada pelo presidente Hamid Karzai e os americanos.

Contudo, o fato é que esta política de centralização não está rendendo os frutos esperados, em todo caso, não de modo suficiente e sem a agilidade desejada.

A Otan operou essa nova guinada de maneira progressiva: "Neste momento, nós estamos estudando até onde o poder central poderia ser descentralizado. Esta poderia constituir a melhor solução, principalmente nas regiões fronteiriças com o Paquistão", confirma o general Blanchette. "Mas é também uma decisão muito política, e o governo Karzai precisa assumir a sua inteira responsabilidade", apressa-se a acrescentar o oficial. Segundo explica um membro do Conselho Nacional de Segurança (um órgão presidido por Hamid Karzai), o governo deverá encarregar os governadores de conduzirem essas negociações em nível local.

Não faltam os obstáculos que deverão dificultar o duplo processo da "afeganização" e da reconciliação. Entre estes, já podem ser apontados o calendário eleitoral (a eleição presidencial deverá ser realizada em setembro de 2009) e a decisão da Otan de adotar uma atitude mais ofensiva para lutar contra o narcotráfico.

Na província de Cabul, as inscrições da população nas listas eleitorais deverão ser realizadas de 5 de novembro a 5 de dezembro, e tudo leva a crer que os insurretos irão fazer de tudo para dificultar este processo democrático, por meio de um recrudescimento da violência. Além disso, esta última só poderá ser atiçada pela decisão da Otan de desmantelar as redes de exportação da heroína.

"Esta estratégia antidrogas é necessária", considera um diplomata, "mas é preciso prever desde já que ela irá constituir um chute num ninho de marimbondos. Isso é verdadeiro não apenas para os talebans", avalia, "como também para todos aqueles que, nos círculos do poder, são beneficiados pelo dinheiro da droga".

Portanto, mais do que nunca o caminho a ser seguido para enfrentar o duplo desafio da "afeganização" e da reconciliação é incerto. E tão difícil quanto será o processo de seleção entre os insurretos "reconciliáveis" e os "jihadistas globais" - militantes islâmicos promotores da "guerra santa" pelo mundo afora. "Com estes últimos, não existe nenhuma possibilidade de diálogo", lembra um assessor do governo afegão. "Eles combatem em prol do além, não em favor desta terra". Jean-Yves de Neufville

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