UOL Notícias Internacional
 

01/11/2008

A penúria de diplomados conduz a uma guerra da massa cinzenta

Le Monde
Brigitte Perucca
Depois da fuga dos cérebros, teria chegado a hora da guerra da massa cinzenta? Esta perspectiva, com a qual acena o diretor adjunto da OCDE (Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Econômicos) para assuntos de educação, nada tem de inverossímil. Assim, como posfácio para um número da revista "Formation Emploi" (Formação Emprego) - editada pelo Centro de Estudos e de Pesquisas sobre as Qualificações (Céreq) - dedicado a esta temática, Bernard Hugonnier escreveu que, diante da globalização, "o que importa é descobrir se (...) a demanda crescente por cérebros, que tem tudo para acontecer no mundo inteiro, será ou não atendida por uma produção de capital humano proporcional. Tudo nos leva a duvidar disso".

As penúrias que já vêm atingindo certas profissões - os docentes na Alemanha ou a carência de profissionais especializados no setor da saúde nos Estados Unidos, por exemplo - constituem os sinais precursores desta provável carência.

O fato de a saúde e a educação figurarem no primeiro lugar entre os setores envolvidos nada deve ao acaso. Diferentemente dos centros de atendimento por telefone que podem ser facilmente terceirizados, esses serviços de "forte densidade em capital humano, que até agora registraram reduzidos ganhos de produtividade potenciais", não são "intercambiáveis". A "presença física" dos médicos e dos professores é necessária no território, lembra, no mesmo número da revista, a economista Annie Vinokur, que ainda sublinha a qual ponto os países vêm organizando a penúria nesses setores.

Foi assim que o Reino Unido optou por priorizar, durante muitos anos e até uma reviravolta recente, a vinda maciça de médicos estrangeiros. Da mesma forma, os Estados Unidos, que detectaram importantes necessidades no plano da renovação dos seus quadros de profissionais da saúde, não consideraram nenhum plano de formação em massa para preencher esses quadros. Essas fugas de cérebros podem tornar-se, na escala de uma região, um "jogo de cadeiras musicais" entre os países, prossegue Annie Vinokur, referindo-se ao caso dos médicos da África do Sul que se exilaram rumo aos países anglo-saxões e foram substituídos, nas áreas rurais, por homólogos "importados" dos países vizinhos.

Os países menores e mais pobres já são os grandes perdedores em decorrência desta situação. Assim, a "taxa de emigração qualificada" pode variar de "menos de 5% nos países emergentes que possuem amplas "reservas", como a Indonésia, a Índia, a China ou o Brasil, para mais de 50% em vários países da África subsaariana, e até mesmo para mais de 80% em ilhas tais como a Jamaica, o Haiti ou Granada".

Essas movimentações vêm ocorrendo em meio a um contexto de grande desequilíbrio em matéria de investimento na educação. Enquanto os países desenvolvidos apresentam uma taxa de participação no ensino superior próxima de 50%, os países em vias de desenvolvimento registram uma taxa inferior a 10%. Enquanto "a elite escolar" dos países da OCDE - ou seja, a porcentagem dos alunos que alcançam aos 15 anos os melhores níveis de competência em termos de cultura científica - é estimada em 8,8% dos alunos, aquela dos países em vias de desenvolvimento não supera os 4%.

Considerando-se o custo muito elevado da formação de um diplomado, são poucas as chances para que os desequilíbrios diminuam. Vinte anos de estudos representam uma despesa de cerca de US$ 150.000 (R$ 322.500, o número oficial da OCDE, divulgado em 2004) por pessoa, ou seja, uma despesa que tanto os países ricos quanto os pobres costumam relutar a fazer. Com isso, um jogo em que todos perdem passa a predominar no cenário, no final do qual "o país que exporta capital humano, considerando as quantias que foram investidas e perdidas, tenderá a investir menos na educação; enquanto o país importador estará naturalmente mais propenso a fazer o mesmo, uma vez que ele pode contar com o investimento dos outros países", resume Bernard Hugonnier. Isso porque o fantasma de uma "guerra dos cérebros" se alimenta em primeiro lugar e acima de tudo de um investimento reduzido demais por parte dos países mais ricos na educação.

Agora que "a caça predatória e agressiva aos talentos tornou-se a regra", segundo a fórmula empregada por Annie Vinokur, será que soluções compensatórias poderiam ser consideradas? Será possível imaginar um "mercado" mundial das pessoas altamente qualificadas, a exemplo daquele das transferências de jogadores de futebol?

Inspirar-se num modelo como este poderia "justificar um aumento da ajuda pública para o desenvolvimento, a qual deveria ser calculada em função do número dos expatriados em relação ao mercado do trabalho do seu país de origem", propõe Bernard Hugonnier. Uma outra idéia sugerida por este especialista consiste em taxar "proporcionalmente" as empresas que contratam esses profissionais. Jean-Yves de Neufville

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