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01/11/2008

"Barack Obama não deixa de ser, em essência, um político centrista", diz especialista

Le Monde
Elise Barthet
Pierre Melandri é professor do IEP, o Instituto de Estudos Políticos, de Paris (mais conhecido como "Science Po"), e autor de uma "História dos Estados Unidos contemporâneos". Em entrevista ao "Le Monde", ele analisa o perfil político do candidato democrata.


Le Monde - A candidatura de Barack Obama suscitou um movimento de entusiasmo sem precedente nos Estados Unidos, e também no mundo. O seu programa reflete mesmo a mudança anunciada pela sua campanha?

Pierre Melandri
- Obama destoa pela sua personalidade e seu carisma, mas, se analisarmos mais detalhadamente o seu programa, logo percebemos que ele se mantém na continuidade da tradição democrata. Em essência ele é um centrista. Em matéria de fiscalidade, as suas idéias para enfrentar a crise são muito clássicas: proteger a classe média, aumentando os encargos fiscais das camadas mais abastadas da sociedade. Em relação à proteção social, ele retoma idéias que há muito vêm sendo defendidas por John Edwards e Hillary Clinton. Além do mais, essas idéias não são nenhuma novidade. Harry S. Truman, que exerceu a presidência dos Estados Unidos nos anos que se seguiram ao fim da Segunda Guerra Mundial, foi o primeiro que propôs um sistema de proteção social universal. O Medicaid (programa para os pobres com filhos) e o Medicare (para os que têm mais de 65 anos) foram adotados sob a presidência do democrata Lyndon B. Johnson (em 1965).

Le Monde - O que o diferencia, então, dos seus predecessores democratas?

Pierre Melandri
- Em primeiro lugar, ele é o primeiro a enfatizar verdadeiramente a importância da ecologia e dos problemas do aquecimento climático. Ele compreendeu a aspiração visceral dos americanos à independência energética. A sua idéia de investir 150 bilhões de euros (cerca de R$ 400 bilhões) em dez anos no desenvolvimento das tecnologias energéticas alternativas é muito inovadora. Segundo avaliam certos especialistas, este novo setor de atividade poderia permitir a criação de 5 milhões de empregos.

Além disso, Obama também decidiu enfrentar a situação preocupante das infra-estruturas nacionais. Ele propõe implantar um banco específico, o National Infrastructure Investment Bank, que permitiria financiar a renovação das estradas, dos portos e dos aeroportos, entre outros. Isso mostra uma boa percepção da realidade, assim como o seu projeto de lei intitulado Employer Patriot Act, que visa a incentivar as empresas americanas a manterem os empregos em território americano, em vez de transferi-los para o exterior. O verdadeiro problema está no financiamento dessas reformas, no momento em que o país está vivendo uma das mais graves crises financeiras da sua história e já ingressou num período de recessão. Obama explicou desde já que ele será obrigado a estabelecer prioridades, a atenuar o ritmo e, portanto, o custo das reformas, deixando simultaneamente o déficit correr em seu estado atual.

Le Monde - Seria ele mais progressista em relação às questões de sociedade tais como a pena de morte ou a religião?

Pierre Melandri
- Em relação a temas como a pena de morte ou a religião, Obama defende posições que poderiam surpreender os europeus. Ele posicionou-se ao lado de John McCain contra uma decisão da Corte suprema visando a proibir a pena de morte nos casos em que não houve assassinato. Barack Obama pertence à sociedade americana. Ele compreendeu que os democratas estavam equivocados ao se cortarem dos valores religiosos. A Igreja e o Estado estão separados na Constituição, mas sempre existiu uma extraordinária osmose entre a religião e a vida pública. Ele mesmo por muito tempo foi o discípulo de uma igreja muito praticante de Chicago, a do reverendo Wright. Ele é até mesmo mais religioso do que McCain, mas consegue distinguir suas convicções pessoais do seu engajamento público.

Le Monde - Uma eventual eleição de Obama anunciaria uma real mudança em matéria diplomática?

Pierre Melandri
- Sim. O principal problema dos Estados Unidos é que eles são cordialmente detestados numa boa parte do mundo. A eleição de um mestiço, nascido de um pai queniano e de uma mãe branca do Kansas, que tem uma meia-irmã indonésia casada com um chinês canadense, mudaria por completo a imagem que se tem da América. Isso poria um fim na identificação entre o Ocidente e o imperialismo do homem branco.

Mas, diplomaticamente falando, Obama é acima de tudo um realista. Ele se opôs à guerra no Iraque porque ele considerava que era um erro geo-estratégico, e que era preciso concentrar o esforço de guerra no Afeganistão. Embora ele esteja aberto para o diálogo, ele nunca excluiu totalmente a opção militar no Irã. Da mesma forma que a administração Bush e que McCain, ele se disse favorável à entrada da Geórgia e da Ucrânia na Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), contra a opinião dos europeus. Por fim, em relação à União Européia, ele preconiza uma forma melhorada de multilateralismo. Contudo, tensões poderiam surgir por causa do conflito afegão. Jean-Yves de Neufville

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