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01/11/2008

John McCain, a solidão do franco-atirador

Le Monde
Corine Lesnes
Entre todos, será este o combate que ele não deveria ter travado? Quando John McCain apareceu em 13 de outubro diante de uma platéia de partidários em Virginia Beach, neste Estado da Virgínia que não vota no Partido democrata desde 1964, ele manteve os punhos cerrados. "Nós estamos a 22 dias da eleição", disse. "Nós temos seis pontos de atraso". Então, em seu discurso, ele empregou a palavra "combate" 17 vezes, uma referência que soou antes anacrônica.

Quando ele deu início à sua campanha, a América estava em guerra, tomada pelas dúvidas, e carente de heróis. Hoje, dois anos já se passaram. Os veículos de comunicação estão fechando seus escritórios no Iraque. A América está descobrindo a crise, e ela busca a estabilidade. Neste contexto, apesar dos seus 72 anos e dos seus cabelos brancos, John McCain não desponta como uma figura particularmente tranqüilizadora. "Sejam fortes, tenham coragem!", recomenda o candidato aos seus espectadores. "E lutem. Lutem por uma nova direção em nosso país! Lutem para limpar Washington da corrupção, do egoísmo e das brigas intestinas! Lutem para tirar a nossa economia do brejo! Lutem pelos ideais e em defesa do caráter de um povo livre! Lutem pelo futuro dos nossos filhos! Lutem pela justiça e para que todos tenham as mesmas chances!"

Filho e neto de almirantes, McCain continua sendo até hoje o mesmo guerreiro que era no começo da sua carreira. Conforme disse Mark McKinnon, um estrategista republicano, em entrevista ao "New York Times Magazine", "trabalhar com Bush equivale a servir na Royal Navy [a marinha de guerra das forças armadas britânicas]. Já, trabalhar com McCain equivale a navegar com os piratas do Caribe".

"Antes mesmo dos cinco anos e meio que ele passou no cativeiro, no Vietnã, a mitologia já estava petrificada", explica Matt Welch, um dos seus biógrafos (autor de "John McCain, the Myth of a Maverick" - o mito de um franco-atirador -, editora Palgrave Macmillan). Aos 12 anos, McCain leu "Por quem os sinos dobram", de Ernest Hemingway (1940), e o elegeu como o livro da sua vida. No romance, Robert Jordan, um jovem professor americano, envolve-se na guerra civil espanhola. "Por muito tempo, ele foi o homem que eu mais admirei, seja na vida, seja na ficção", escreve o senador em seu segundo livro de Memórias, intitulado "Worth the Fighting for" - um título emprestado de Hemingway ("O mundo é um lugar magnífico pelo qual vale a pena lutar").

Quando faltavam seis dias para as eleições, ao ser entrevistado por Katie Couric, da CBS, que o interrogou a respeito do seu livro predileto, o candidato voltou a mencionar Robert Jordan. "Mesmo que esteja decepcionado pela causa que ele veio defender, ele está disposto a sacrificar-se pelos seus camaradas", justificou.

Na disputa que ele vem travando contra Barack Obama, John McCain nunca conseguiu achar o ângulo certo para atacar. "A mais recente acusação que ele andou proferindo, foi chamar Obama de um socialista disfarçado", diz Matt Welch, o seu biógrafo. "Contudo, no último debate, foi o próprio McCain quem propôs que o governo federal comprasse todas as dívidas pendentes! Ora, trata-se de uma redistribuição muito mais conseqüente".

Em momento algum, o candidato republicano tampouco conseguiu encarnar um personagem capaz de emplacar na opinião. O "New York Times Magazine" recenseou uma meia-dúzia de tentativas nesse sentido. Do senador conciliador, suscetível de trabalhar com os democratas, ao "Maverick" (franco-atirador) capaz de sacudir o imobilismo em Washington, passando pelo herói de guerra, o roteiro da campanha variou com freqüência. Ao longo das semanas, o próprio McCain pareceu estar cada vez mais irritado, irrequieto, a tal ponto que a campanha de Barack Obama colecionou as "caras amarradas" e as declarações "confusas" do republicano para apresentá-las em anúncios publicitários negativos.

O próprio John McCain já disse isso repetidamente: a posição de favorito não lhe convém. Ele enxerga a si mesmo como um "rebelde", hoje não menos do que há cinqüenta anos, quando ele estudava na Academia Naval de Annapolis (Maryland) e que ele praticava o boxe. "Ele não era muito bom neste esporte, e tinha a reputação de aceitar muitos golpes, até o momento em que ele voltava com tudo e disparava um terrível uppercut", diz Matt Welch.

Ele formou-se naquela academia classificando-se no 894º lugar de um total de 899 alunos, ou seja, um resultado pouco brilhante, do qual ele fez um elemento da sua candidatura. Nos seguintes termos: ele era um "sujeito esquentado" até o momento em que encontrou uma "causa maior do que ele próprio": a pátria.

Tão logo ele conquistou a investidura republicana, o slogan apareceu atrás dele: "O país em primeiro lugar". John McCain entende este bordão como um apelo patriótico - o interesse nacional antes do interesse pessoal -, mas ele também comporta um subentendido nacionalista que deixou espantados aqueles que haviam acompanhado sua primeira campanha, em 2000, contra George W. Bush. Na época, a transparência era total. John McCain tinha um discurso voltado para a verdade, a campanha difundia a trilha sonora de "Guerra nas Estrelas" durante os comícios.

Contudo, em 2005, depois da reeleição de George W. Bush, o senador começou a cortejar a direita e os conservadores cristãos, dentro da perspectiva de uma nova candidatura. "Desta vez, ele queria ser eleito", aponta Matt Welch. Uma vez efetuada esta reviravolta - a mais difícil -, os outros acompanharam o movimento. Aos meios de negócios, ele concedeu a renovação das reduções de impostos que haviam sido decididas pela administração Bush. Aos nacionalistas, ele concedeu a consolidação da fronteira em detrimento da regularização dos clandestinos, o que lhe vale agora a inimizade dos latinos, nos Estados cruciais do Oeste. No seu avião, uma cortina foi instalada para isolá-lo dos jornalistas. "Ele voltou atrás em relação a tantos assuntos que acabou ficando irreconhecível", diz o biógrafo.

Distanciado nas pesquisas, assombrado pela maldição de ser republicano depois de George W. Bush, o especialista dos retornos estrondosos, será que McCain ainda pode virar o jogo? Do que se pode deduzir dos artigos na imprensa, nem mesmo os seus amigos políticos parecem estar acreditando nisso. Quando faltava uma semana para o pleito, as revistas já começaram a destrinchar a campanha republicana, destacando seus erros e suas divisões. E acabaram evidenciando a solidão de um candidato que não teme tomar decisões arriscadas, e "não acredita na organização".

Enquanto Barack Obama está cercado por 300 conselheiros, John McCain conta com uma pequena equipe, cujos membros ele convoca, dez minutos antes de aparecer na televisão, para conhecer sua opinião. "A nossa campanha foi conduzida passando de uma tática para outra", confessou um dos assessores do candidato em entrevista ao "New York Times Magazine". "Para o pior ou o melhor". O melhor, do ponto de vista de John McCain, foi a sua decisão de interromper sua campanha no primeiro dia da convenção republicana, no início de setembro, por causa do furacão Gustav. Ela lhe permitiu escapar das fotos em companhia de George W. Bush e de Dick Cheney. O pior ocorreu com a sua tentativa de repetir a mesma jogada quando estourou a crise financeira, suspendendo mais uma vez a campanha. A atitude deveria supostamente valorizar suas qualidades de líder. Ela mostrou, sobretudo, um McCain impotente. "Ele é um piloto de caça", confidenciou o antigo senador Gary Hart em entrevista ao "Washington Post". "Ele reage conforme as circunstâncias".

Houve uma outra decisão que envolveu altos riscos: a escolha de Sarah Palin. Na revista "The New Yorker", Jane Mayer contou a maneira com que a ex-Miss Wassilla foi recrutada. Ela não era a escolha inicial de John McCain, que teria preferido Tom Ridge, o governador da Pensilvânia, ou o ex-democrata Joe Libermann, mas, também neste caso, o senador foi obrigado a fazer concessões às lideranças da direita religiosa, pois estas não teriam tolerado um candidato que não fosse ferozmente hostil ao aborto. A decisão de escolher Sarah Palin não foi uma idéia de Karl Rove, mas sim dos néo-conservadores. E mais particularmente da panelinha do "Weekly Standard", a revista dirigida por Bill Kristol.

Em junho de 2007, o cruzeiro anual da revista passou pelo Alasca. Sarah Palin, que havia recrutado uma agência para fazer a propaganda da sua própria pessoa em Washington, ouviu falar daquela visita. Um almoço foi organizado na residência dos governadores por William Kristol e seus camaradas; em seguida, efetuaram uma visita turística na mina de ouro de Berners Bay. Uma centena de mineiros estava trabalhando. Os néo-conservadores ficaram impressionados com o fato de que Sarah Palin, de maneira alguma se mostrava "intimidada pela multidão - ou pelos homens". . . Um mês mais tarde, o editorialista Fred Barnes publicou a sua primeira crônica dedicada a vangloriar a governadora "mais popular" do país. Então, já neste ano, dois meses antes de John McCain tomar a sua decisão - em decorrência da única conversa em profundidade que ele tivera com a candidata -, Bill Kristol já previa em declaração no canal Fox News que Sarah Palin seria a companheira de chapa do candidato republicano. . .

O cientista político Charlie Cook minimiza as repercussões do "efeito Palin". "McCain poderia ter Mitt Romney (o antigo pré-candidato nas primárias) ou a fundadora do portal eBay, Meg Whitman, ou até mesmo Madre Teresa como companheiros de chapa, isso nada teria mudado: o meio-ambiente neste ano revela ser particularmente tóxico para os republicanos". Contudo, no espaço de algumas semanas, a nomeação de Sarah Palin começou a funcionar como uma armadilha, deixando John McCain encurralado. Ele que reivindicava ser um herdeiro de Theodore Roosevelt, um presidente progressista - que governou de 1901 a 1909 - favorável a uma forte regulamentação da economia por parte do Estado, acaba se vendo na situação de denunciar o "socialismo" de Barack Obama. "Tem-se a impressão de que ele continua conduzindo a campanha para as primárias", diz Matt Welch.

Nos comícios, o público comparece fartamente armado de cartazes contra o aborto ou com os dizeres "No-Bama", os quais assustam os moderados. Em 10 de outubro, no Minnesota, uma espectadora fez uma pergunta a respeito do candidato democrata. "Eu li que ele é árabe", começou dizendo. Então, John McCain a interrompeu abruptamente. E, em meio às vaias, ele pediu respeito pelo seu adversário. "Dava para perceber no seu rosto que ele estava envergonhado. Ele sabe que foi a sua campanha que instaurou este ambiente", diz Matt Welch. "Tudo isso é difícil de agüentar para alguém como ele que atribui tanta importância para a honra".

No decorrer da campanha, John McCain não conseguiu transcender as facções do Partido republicano. Pior ainda, ele perdeu aquilo que ele elegera como a chave da batalha contra o "poder de estrela" de Barack Obama: a autenticidade. Jean-Yves de Neufville

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