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02/11/2008

Produção de etanol e a extração de petróleo em águas profundas podem ser prejudicadas pela crise

Le Monde
Por Jean-Pierre Langellier | Correspondente no Rio de Janeiro
A crise financeira internacional e a queda dos preços do petróleo geram uma situação de incerteza em relação a dois emblemas da economia do Brasil: a produção de etanol, que constitui há trinta anos um eixo fundamental da sua política energética, e o projeto de exploração das jazidas petrolíferas em alto-mar, em águas muito profundas.

Um tesouro —petróleo e gás— dorme a cerca de 250 quilômetros ao largo dos Estados do sul do Brasil. Esses campos petrolíferos se estendem por uma superfície de 800 quilômetros de comprimento por 200 quilômetros de largura. O "ouro negro" que eles contêm está enterrado numa profundidade de 5.000 a 7.000 metros, sob uma espessa camada de sal.

A sua descoberta, em novembro de 2007, havia suscitado um entusiasmo legítimo. Na ocasião, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva havia atribuído à futura fonte de riqueza petroleira um duplo objetivo: financiar a educação e erradicar a pobreza.

Atualmente, em função dos novos parâmetros introduzidos pela crise, os discursos têm sido muito mais cautelosos. O arrefecimento do crédito e a queda da cotação do petróleo bruto, que passou de US$ 147 para US$ 63 em três meses, modificam a equação econômica desses enormes projetos, que se caracterizam por serem tecnicamente complexos e financeiramente muito gulosos.

Mesmo se ele já adquiriu o domínio das técnicas de perfuração em águas profundas, o Brasil deverá daqui para frente superar novos desafios. A seguir, alguns exemplos desses obstáculos técnicos a serem superados: o petróleo bruto, que é muito quente debaixo da camada de sal, esfria rapidamente ao subir rumo à superfície, e gera parafina que se deposita nas camadas internas dos dutos, podendo entupi-los; ele emerge numa pressão 230 vezes mais forte do que aquela que enche um pneu de carro; o afastamento de certos campos petrolíferos complica a transferência por helicóptero dos operários até as plataformas.

Os esforços para resolver essas dificuldades exigem muito dinheiro. A companhia nacional Petrobras afirma que ela tem cacife suficiente para contrair as dívidas necessárias para tais despesas. Em seu próximo plano qüinqüenal (2009-2013), ela previu investir US$ 112 bilhões (cerca de R$ 240 bilhões), dos quais US$ 104 bilhões (R$ 223,6 bilhões) provêm de fundos próprios. Este orçamento, que ainda se encontra em fase de revisão, só deverá ser publicado oficialmente em dezembro.

"Distorção do mercado"

Sem dúvida será necessário espaçar mais certos projetos no tempo, no quadro deste cronograma. A sua seleção será "mais rigorosa", avisou o presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli. Contudo, ele também acrescentou que as oscilações dos preços do petróleo não chegarão a ameaçar os projetos de exploração no longo prazo, mesmo se estes foram orçados tendo como parâmetro um barril a US$ 35.

O governo fará tudo o que for possível para que os primeiros testes em águas muito profundas sejam efetuados conforme previsto, em 2010, um ano de campanha presidencial no Brasil.

O barateamento do petróleo tampouco constitui uma boa notícia para o etanol brasileiro, isso porque a redução dos preços dos combustíveis torna menos atraentes, principalmente no mercado americano, as energias alternativas, inclusive os biocombustíveis.

O Brasil, que enxerga antes com bons olhos a possível eleição de Barack Obama, teria mais interesse, por este ângulo, numa vitória de John McCain. Isso porque este último prometeu uma diminuição das taxas alfandegárias - entre outras, sobre as importações de biocombustíveis - que provocam, segundo ele, "uma distorção do mercado".

Uma medida desta natureza devolveria ao etanol brasileiro, fabricado a partir da cana-de-açúcar, uma melhor competitividade em relação ao etanol americano, proveniente do milho e fortemente subvencionado. Ainda assim, seria preciso vencer a forte hostilidade dos produtores americanos, que se recusam a ver o seu país incentivar, mesmo que indiretamente, uma produção similar num país concorrente. Jean-Yves de Neufville

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