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04/11/2008

A Europa está mal preparada para uma pandemia gripal, alertam especialistas

Le Monde
Jean-Yves Nau
A gravidade desta ameaça é considerável. Segundo previsões da ONU, em função do grau de virulência que foi detectado no novo agente patogênico que está se alastrando, uma eventual pandemia gripal provocaria a morte de 1,4 milhão a 70 milhões de pessoas. Além disso, o Banco Mundial avalia que o seu impacto econômico poderia representar um custo global de US$ 3 trilhões (cerca de R$ 6,54 trilhões).

De cerca de cinco anos para cá, esta ameaça deixou de ser considerada como uma simples hipótese pelos dirigentes das organizações sanitárias. A preocupação foi reforçada pelo desenvolvimento da atual epizootia (epidemia em meio à comunidade animal) de gripe aviária provocada pelo vírus H5N1 que se transmitiu para o homem. Ainda assim, nenhum especialista dispõe de elementos suficientes para prever quando e onde uma pandemia desta natureza irá ocorrer, caso ela ocorrer.

Atendendo a uma iniciativa da Organização Mundial da Saúde (OMS), e atuando em nome do princípio de precaução, um grande número de países elaborou planos nacionais que visam a organizar o quanto antes uma série de ações coletivas preventivas e curativas que deverão ser implementadas tão logo aparecerem os primeiros casos. Em que pé está a situação neste momento? "Considerando que o nível de preparação do mundo a uma pandemia estava num patamar quase inexistente há três anos, o atual grau de prontidão e de ação de muitos países representa um sucesso considerável", declarou, em 21 de outubro em Nova York, David Nabarro, o coordenador na ONU da luta contra a gripe, por ocasião da divulgação de um relatório sobre esta questão. "Entretanto, muito mais precisa ser feito para garantir que estamos prontos para enfrentar uma crise mundial desse tipo", acrescentou Nabarro.

Inexistência de qualquer coordenação

A principal falha provém da inexistência de qualquer coordenação entre os países em relação àquelas medidas que deverão imperativamente ser tomadas para assegurar uma continuidade das atividades, não apenas sanitárias como também econômicas, sociais, administrativas e políticas, em caso de pandemia. O relatório da ONU observa que a maior parte dos planos nacionais que se destinam a enfrentar uma eventual pandemia está essencialmente focada, em quase todos os seus aspectos, nas respostas sanitárias, ao passo que uma pandemia teria impactos consideráveis sobre todos os aspectos da vida cotidiana, os quais poderiam provocar fenômenos de pânico coletivo.

A Europa não escapa dessas críticas, conforme demonstrou uma série de apresentações que foram feitas, na sexta-feira, 31 de outubro em Paris, no quadro das primeiras jornadas européias organizadas pela recém implantada Escola dos Altos Estudos de Saúde Pública (cuja sigla em francês é EHESP). "Se considerarmos (...) uma recente avaliação da capacidade de reação apresentada pelos planos nacionais de luta contra pandemias, nós somos obrigados a reconhecer que a situação na União Européia (UE) revela ser muito heterogênea", observa Didier Houssin, um delegado interministerial francês encarregado desta questão.

Neste contexto, em virtude do princípio que lhe confere um caráter apenas subsidiário no que diz respeito às questões de saúde pública, o Centro Europeu do Controle das Doenças, que foi fundado em 2004 e está baseado em Estocolmo, na Suécia, está apenas autorizado a desenvolver ações de consultoria e de apoio para assessorar os Estados-membros que solicitam sua ajuda.

Segundo Richard Coker (da London School of Hygiene and Tropical Medicine - Escola de higiene e de medicina tropical de Londres), apenas um terço dos países da UE elaboraram estratégias precisas com o objetivo de garantirem uma continuidade das atividades sócio-econômicas em caso de pandemia. Disparidades consideráveis existem entre os países em relação a questões tão essenciais como a da detecção das doenças em pessoas que se apresentam nas fronteiras, ou das restrições para a entrada no território de pessoas provenientes de países onde está ocorrendo uma epidemia, ou ainda, a utilização (profilática ou curativa) dos estoques nacionais de medicamentos antivirais. "Mesmo que nós estejamos progredindo, a verdade é que nós ainda não estamos prontos", avalia Coker.

Existe uma outra incoerência enorme que desta vez foi apontada por Antoine Flahaut, diretor do EHESP: até agora, ninguém se lembrou da importância de constituir estoques maciços de antibióticos e de vacinas específicas. Ora, esses estoques despontam como absolutamente necessários uma vez que está comprovado hoje que a grande maioria dos milhões de vítimas da gripe espanhola de 1918 morreu não por causa de uma infecção viral, mas sim em conseqüência de fortíssimas infecções bacterianas, para as quais não existiam então nenhum meio de resposta, fosse ele preventivo ou terapêutico. Jean-Yves de Neufville

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