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05/11/2008

Internet, mentiras e quebras nas Bolsas

Le Monde
Yves Eudes
Em 29 de novembro de 2007, às 13h em ponto, cerca de trinta profissionais de Wall Street receberam em seu site de mensagens instantâneas um texto anônimo: o grupo financeiro Blackstone, que estava no processo de comprar a sociedade informática ADS, teria decidido não mais pagar US$ 81 por ação conforme era previsto, mas sim apenas US$ 70. Assustados, os membros da diretoria da ADS se reuniram às pressas.

Para os detentores de ações da ADS, aquela era uma péssima notícia. Os "traders" (corretores financeiros) transmitiram a informação por e-mails para os seus colegas e para diversos sites na Internet especializados - blogs, correios de notícias ("newsletters") financeiras, revistas on-line -, que a publicaram e repassaram a informação para os seus assinantes. Ela passou então a ser detectada pelos motores de busca e por diversos sites de informação. No espaço de alguns minutos, as redações dos grandes veículos de informação tomaram conhecimento do fato e entraram em ação, contatando suas fontes nos mais diversos lugares.

Imediatamente, milhões de ações da ADS foram colocadas à venda, e a sua cotação caiu brutalmente. No espaço de meia-hora, a capitalização em Bolsa da sociedade foi desvalorizada de US$ 1 bilhão, e a Bolsa de Nova York teve de suspender sua cotação. Na parte da tarde, a ADS publicou um comunicado desmentindo formalmente a informação. A cotação foi retomada, os traders voltaram a comprar o título, e o valor da ação voltou a subir rapidamente.

Para a maioria dos acionistas, este incidente não teve nenhuma conseqüência mais grave. Em contrapartida, os traders que venderam as ações a US$ 77 e as recompraram no mesmo dia a US$ 63, obtiveram lucros consideráveis. Esta tática de especulação que consiste em forçar a baixa de uma cotação, chamada de "short-selling", é muito comum. O trader pega ações emprestadas de um investidor e as vende em seguida; ele fica esperando até que a cotação caia para recomprá-las e devolvê-las ao seu proprietário, após ter embolsado a diferença. Em certos casos, o trader vende ações que ele ainda não pegou emprestadas, e tenta pôr a mão nelas após ter efetuado a sua transação, tirando vantagem dos prazos legais: esta operação é chamada de "naked short-selling", ou seja, a venda de curto prazo a descoberto, ou "venda nua".

É importante lembrar que se a cotação da ação subir, o trader obviamente perderá dinheiro. Assim, para aumentar suas chances de ganhos, alguns cedem à tentação de recorrer à Internet para fomentarem e disseminarem um rumor negativo a respeito da sociedade alvejada. Ora, enquanto o "short-selling" é legal, a difusão de falsos rumores é considerada como uma manipulação ilícita do mercado, passível de sanções.

No final de 2007, a crise financeira já estava ameaçando, e inúmeras companhias estavam vendo a cotação da sua ação cair inexplicavelmente. Elas acusaram então os "hedge funds" (fundos altamente especulativos) que estavam praticando operações de "short-selling" em grande escala, de matá-las aos poucos e de forma inexorável, unicamente para realizarem ganhos no curto prazo.

Submetida a uma pressão crescente, a SEC, a agência federal americana de vigilância dos mercados financeiros, decidiu então acompanhar o problema de perto. Para fazer exemplo, ela deu início a uma investigação visando a apurar a origem do rumor envolvendo a Blackstone e a ADS. Em abril de 2008, depois de um inquérito extenso, ela anunciou que o autor da mensagem original se chamava Paul Berliner, um nova-iorquino de 32 anos que trabalhava na época para a firma de corretagem Schottenfeld.

Berliner havia vendido 10 mil ações da ADS dez minutos depois de ter enviado a sua mensagem, e havia começado a recomprá-las quinze minutos depois, obtendo um lucro de US$ 25.509 (equivalente hoje a R$ 54.127,55) na operação. Ele foi condenado a uma proibição de exercer sua profissão e a pagar uma multa de US$ 156.000 (cerca de R$ 331.000).

Esta foi a primeira vez que um profissional foi punido por ter disseminado um rumor na Internet. O presidente da SEC, Christopher Cox, prometeu que medidas similares sempre seriam tomadas nesses casos: "Nós iremos investigar vigorosamente e indiciar todos aqueles que manipulam os mercados, lançando mão desta poção de bruxa composta por rumores destruidores e pela especulação".

Contudo, o escândalo Berliner e seus desdobramentos não obtiveram o efeito dissuasivo esperado. Com o agravamento da crise durante a primavera de 2008, as operações de "short-selling" se tornaram a principal fonte de lucros para alguns traders. Isso fez com que os rumores malévolos se multiplicassem. Em julho, a SEC proibiu temporariamente as operações de "short-selling" com "venda nua", e deu início a inquéritos envolvendo as atuações de cerca de cinqüenta hedge funds. A disposição de espírito geral foi resumida por James Dimon, o presidente do banco JPMorgan Chase, que declarou, numa entrevista televisiva: "Se alguém fomentar um rumor, ou disseminá-lo, ele deve ser preso. Esse tipo de ato é pior do que um delito de iniciados; é uma destruição deliberada e malfazeja de valores, e da vida de muita gente". Por sua vez, Christopher Cox lembrou que na Internet o anonimato é geralmente ilusório: "A tecnologia que permite espalhar rumores instantaneamente pelo mundo afora também ajuda as forças da ordem a encontrarem a pista dos culpados de falcatruas".

A partir de setembro, os investidores angustiados estavam inclinados a acreditarem em toda e qualquer balela que estivesse sendo veiculada. Certos rumores devastadores parecem ter sido criados pelos softwares robôs que administram os sites de informação. No domingo, 7 de setembro, na primeira hora do dia, um internauta se conectou com o site na Internet do "Sun-Sentinel", um diário da Flórida. A sua intenção era de procurar nos arquivos um artigo com data de 2002, a respeito da decretação da falência da companhia aérea United Airlines - desde então, esta companhia se recuperou e a sua situação foi resolvida por completo.

Uma vez que o artigo foi extraído dos arquivos, o sistema de atualização automática do site o exibiu na página de abertura. A matéria chamou as atenções de alguns internautas e acabou sendo classificada na lista intitulada "Artigos mais lidos". Ela foi detectada então pelo robô que produz as "newsletters" do Google News, que a repassou para os seus inúmeros sites clientes. Ora, no decorrer do processo, a data de publicação do artigo extraviou-se, e os leitores pensaram que se tratava de um artigo recente. Na manhã de segunda-feira (8/09), ele chamou a atenção de uma sociedade de investimentos, que o publicou em sua newsletter, além de enviar uma versão resumida para o serviço de informações da Bloomberg, que é lido pelo conjunto da comunidade financeira.

No espaço de alguns minutos, a ação da United Airlines perdeu os três quartos do seu valor, e a Bolsa de Nova York teve de interromper a sua cotação. A United Airlines publicou imediatamente um desmentido, a ação voltou a subir, mas, nesse meio-tempo, muitos foram os traders que conseguiram tirar vantagem da situação.

Em 18 de setembro, em conseqüência da falência do banco de investimentos Lehman Brothers, a SEC proibiu provisoriamente as operações de "short-selling" com as ações das instituições financeiras. Mas o problema já havia passado para uma escala superior. A partir daquele momento, pequenos especuladores, e em certos casos, até mesmo internautas que não possuem ação alguma, começaram por sua vez a fomentar falsos rumores na Internet. Uma nova forma de fraude nasceu: o "outsider trading", ou seja, o "delito de não-iniciado".

Na manhã de 3 de outubro, o site i-Report publicou uma notícia intitulada: "Steve Jobs (o patrão da Apple) é transportado para o serviço de urgências em conseqüência de uma grave crise cardíaca". O autor da nota, que assinou como "Johntw", afirmou ter recebido a informação de um empregado da Apple. O i-Report é um site participativo, classificado como de "jornalismo cidadão", que se vangloria de ser "não editado e não filtrado". Basta ao usuário inscrever-se como "i-reporter" para nele publicar vídeos, fotos ou textos a respeito de qualquer assunto. Da mesma forma que "Johntw", a maioria dos seus 13 mil contribuintes se inscreve sob um pseudônimo que garante o seu anonimato. Ora, o i-Report pertence ao grupo CNN, cujo logotipo esta presente no site, o que contribui para manter a confusão na mente dos internautas. Os vídeos mais interessantes e mais espetaculares são selecionados pela redação da CNN, que verifica a validade do seu conteúdo, e então os difunde na sua programação televisiva.

Steve Jobs, que desempenha um papel essencial na vida da sua companhia, foi operado de um câncer do pâncreas em 2004, e, por ocasião dos seus mais recentes discursos em público, ele pareceu estar muito enfraquecido. Ora, a Apple recusa-se sistematicamente a divulgar qualquer informação a respeito da saúde do seu patrão. Os leitores que acessaram naquela manhã o site do i-Report clicaram neste artigo prioritariamente. Então, eles o repassaram para os sites que agregam informações, tais como o Digg.com, que o repercutiram no mundo inteiro. Outros internautas o mencionaram na página do serviço de mensagens curtas instantâneas Twitter, muito utilizado pela comunidade financeira.

Quinze minutos depois da sua aparição no i-Report, a informação foi publicada pela revista on-line high-tech "Silicon Alley Insider". Esta explicou que a informação não havia sido verificada, mas o impacto foi imediato: a ação da Apple caiu, e então voltou a subir imediatamente, uma vez que os dirigentes da companhia conseguiram, no espaço de 45 minutos, divulgar a espalhar um desmentido.

John Polise, o diretor-assistente do serviço de repressão da SEC, não esconde a sua preocupação diante do inédito "poder de fogo" de sites como o i-Report: "Há três anos apenas, um internauta anônimo jamais poderia ter publicado uma informação, fosse ela verdadeira ou falsa, abrigando-se por trás da marca da CNN".

Desde então, os especuladores, sejam eles amadores ou profissionais, procuram formas de dar livre curso às suas impulsões na Internet. No site Dealbreakers.com, um fórum intitulado "Aventuras no país dos rumores absurdamente infundados e altamente suspeitos" viu a luz do dia. Em 7 de outubro, um contribuidor anônimo afirmou que o banco Mitsubishi UFJ, que havia anunciado a sua intenção de investir no banco Morgan Stanley, estava prestes a mudar de idéia. Ao longo de vários dias os usuários atiçaram o debate: "O Morgan Stanley vai desabar ainda mais rapidamente do que o Lehman Brothers! Vendam as ações deste salafrário o quanto antes!" A ação do Morgan Stanley caiu de 58% no espaço de uma semana. Finalmente, o Mitsubishi entrou no capital do Morgan Stanley, mas, considerando a depreciação do banco, ele obteve condições mais favoráveis do que aquelas previstas inicialmente.

Em 24 de outubro, a SEC anunciou que ela havia identificado a verdadeira identidade de "Johntw", o autor do rumor a respeito de Steve Jobs: tratava-se de um rapaz de 18 anos, que, aparentemente, não se dedicava à especulação financeira. Na véspera, John Polise havia declarado que a SEC se reservava o direito de processar os autores de falsos rumores, mesmo se ela nada ganha com isso em termos financeiros. Mas, nesse meio-tempo, a SEC suspendeu a sua proibição que pesava sobre todas as formas de operação de "short-selling". Jean-Yves de Neufville

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