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06/11/2008

Companhias aéreas agravam seu déficit

Le Monde
François Bostnavaron
O transporte aéreo deverá certamente recuperar-se desse baque, mas, por enquanto, faltam-lhe pernas: os resultados da Lufthansa estão desabando, enquanto a pequena companhia dinamarquesa Sterling Airways, cujos capitais são islandeses, acaba de ter a sua falência decretada. Até mesmo a Air France, que se orgulha de nunca ter registrado qualquer exercício deficitário no decorrer dos dez últimos anos, já avisou que para ela "vai ser muito difícil alcançar seu objetivo inicial, que era de conseguir um resultado de 1 bilhão de euros (R$ 2,73 bilhões) em termos de faturamento para o exercício de 2008-2009". Já, nos Estados Unidos, a emblemática Southwest Airlines, uma pioneira entre as companhias que oferecem vôos econômicos, acaba de registrar sua primeira perda trimestral em 17 anos.

Estes poucos exemplos entre outros, ilustram o mais recente relatório sobre a conjuntura, que foi tornado público no final de outubro pela Associação Internacional do Transporte Aéreo (IATA) - uma entidade que agrupa 230 companhias transportadoras - e que, para dizer o menos, revela-se alarmante. Pela primeira vez desde 2003, o volume do tráfego aéreo diminuiu tanto no plano da freqüência dos passageiros quanto em relação ao frete. No mês de setembro, o tráfego dos aviões de passageiros registrou uma redução de 2,9% em relação ao mesmo período em 2007, enquanto o tráfego de frete, no decorrer do mesmo período, apresentou uma queda de 7,7%.

O aviso de Giovanni Bisignani, o diretor-geral da IATA, não dá margem para dúvidas: "A rapidez e a extensão da deterioração do tráfego são alarmantes. Nós não havíamos conhecido tamanho declínio do tráfego de passageiros desde a crise do 'SRAS' (a síndrome respiratória aguda severa), em 2003".

Nem mesmo a redução das cotações do petróleo poderá amainar a gravidade da situação: "A boa notícia envolvendo a diminuição dos preços do petróleo, cuja cotação foi dividida por dois desde o pico registrado no mês de julho, não é suficiente para compensar a queda da demanda. A essa altura dos acontecimentos, as perdas a serem registradas neste ano deveriam ser ainda mais importantes do que a previsão de US$ 5,2 bilhões (cerca de R$ 11 bilhões) que nós havíamos feito anteriormente", alerta o patrão da IATA.

Segundo o estudo elaborado pela associação, os programas de reduções de capacidades que foram implementados pelas companhias, dos dois lados do Atlântico, não conseguiram proporcionar uma resposta efetiva para a redução da demanda: de um ponto de vista geral, os coeficientes de ocupação nas rotas internacionais diminuíram em média de 4,4 pontos, passando para 74,8% em setembro. Esta evolução comporta diferenças muito contrastadas em função das regiões. Na América do Norte, a taxa de ocupação média diminuiu de 4,6%, ao passo que ela caiu de 11,1% no Oriente Médio.

Queda na Ásia e no Pacífico também

Até o mês de agosto, a redução do tráfego internacional de passageiros constituía um fenômeno isolado que atingia, sobretudo, as companhias das regiões da Ásia e do Pacífico. As economias dos dois principais mercados em crescimento nestas duas regiões - a China e a Índia - sofreram um desaquecimento. O crescimento da economia chinesa retrocedeu até ficar aquém da barra simbólica dos 10%, enquanto a economia da Índia deverá registrar uma queda de 7% neste ano. O crescimento do tráfego de passageiros nas regiões da Ásia e do Pacífico, que era de 33% no primeiro semestre de 2007, passou para 7,5% no primeiro semestre de 2008, antes de registrar resultados negativos no verão.

A Índia, que foi o palco no decorrer dos últimos anos do surgimento de um grande número de companhias transportadoras privadas, começou até mesmo a desenvolver um movimento de consolidação (reunião de várias empresas numa única) que ainda não se declara como tal: em meados de outubro, as duas principais companhias aéreas privadas indianas, a Jet Airways e a Kingfisher, celebraram uma aliança comercial por meio da qual elas colocam em comum suas despesas com combustível e suas atividades no solo, e ainda compartilham as suas tripulações.

O tráfego internacional de frete, por sua vez, sofreu uma queda muito mais nítida que a do tráfego de passageiros. A redução de 7,7% que foi registrada no mês de setembro é a pior derrocada que o frete já tenha conhecido desde 2001, ou seja, depois dos atentados de 11 de setembro e depois do estouro da bolha da Internet. Trata-se do quarto mês consecutivo de baixa para o frete aéreo, que representa um pouco mais do terço do valor do frete total em todo o mundo, um setor que envolve bens particularmente caros e investimentos em alta tecnologia. Neste caso, mais uma vez, são as regiões da Ásia e do Pacífico que mais vêm sofrendo deste fenômeno. Em setembro, a queda nestas regiões alcança 10,6% em relação a setembro de 2007.

Estas duas regiões, que anteriormente apresentavam um desempenho particularmente dinâmico, representam mais ou menos a metade das partes de mercado do frete aéreo. Movidas pelas duas grandes oficinas do mundo, a China e a Índia, "elas deixaram de exportar porque os grandes consumidores, a Europa e os Estados Unidos, deixaram de comprar", deplora Giovanni Bisignani.

Num discurso que ele pronunciou na semana passada, por ocasião do 10º World Air Transport Forum (WAF - Fórum do transporte aéreo mundial), em Paris, Robert Crandall, um antigo presidente da American Airlines, fez uma advertência em relação à gravidade da situação. Segundo ele, "a correlação entre o tráfego e o crescimento econômico está condenada a desaparecer, ao menos momentaneamente". Este especialista insistiu no fato de que o setor vai ter que se preparar para uma longa crise, prevendo ainda que "as dificuldades financeiras mundiais vão ser muito piores do que a maioria dentre nós está disposta a acreditar".

Dificuldades essas que já provocaram a falência de trinta companhias aéreas desde o começo do ano, segundo as estatísticas da IATA, e que colocaram cerca de vinte outras numa situação crítica. As companhias transportadoras vão ser obrigadas mais uma vez a reduzirem seus custos e a fusionarem, caso elas não quiserem desaparecer. Jean-Yves de Neufville

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