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07/11/2008

América Latina aguarda um restabelecimento do diálogo entre os EUA, Cuba e Venezuela

Le Monde
Paulo A. Paranaguá e Joëlle Stolz
Em Cidade do México
"Mal consigo acreditar no que está acontecendo no mundo: a Bolívia tem um índio como presidente. E agora, nos Estados Unidos, um negro acaba de ser eleito", exclamou na quarta-feira, 5 de novembro, Evo Morales. O presidente boliviano não foi o único que comparou a eleição de Barack Obama com aquelas de personalidades representativas das minorias ou dos setores em fase de crescimento na América Latina. O presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, um antigo operário torneiro mecânico, também arriscou fazer uma comparação similar, como se a onda de renovação que conduziu a esquerda ao poder em vários países latino-americanos tivesse arrebentado nos Estados Unidos.

"Obama pratica um discurso de centro-esquerda e isso produzirá efeitos indiretos na América Latina, contribuindo para legitimar as idéias da esquerda, em detrimento daquelas da direita conservadora", analisa o historiador mexicano Lorenzo Meyer. "Obama será recebido como o papa quando ele viajar para a América Latina, tanto no Brasil como no México", confirma Jorge Castañeda, um antigo ministro mexicano das relações exteriores.

Uma pesquisa que foi realizada em 18 países da América Latina, às vésperas do pleito de 4 de novembro, mostrou que este entusiasmo é na verdade mais comedido. Um número três vezes superior de latino-americanos manifestou sua preferência por Barack Obama em relação àqueles que apoiaram John McCain, mas apenas uma minoria dentre eles mostrou ter uma opinião clara a respeito do assunto. "A identificação maciça dos mais depauperados" com o candidato democrata acabou não se confirmando, sublinharam os autores da pesquisa do instituto Latinobarometro, num comentário conclusivo.

Entre as pessoas que foram consultadas, uma maioria ignorava tudo das eleições norte-americanas, enquanto os dois terços disseram acreditar que o resultado não fazia diferença alguma. O que pode ser interpretado como o sinal de que a distância existente entre os Estados Unidos e o subcontinente continuou se ampliando.

Por sua vez, os dirigentes latino-americanos, que há muito se acomodaram ao desengajamento de Washington em relação à região, manifestaram expectativas modestas. "A nossa esperança é de que o presidente eleito abandonará o unilateralismo que caracterizou a administração Bush e nos permitirá imprimir um novo dinamismo ao multilateralismo", confidenciou o conselheiro diplomático do presidente Lula, Marco Aurélio Garcia, após ter participado do fórum Europa-América Latina de Biarritz (sudoeste da França).

"Uma janela de oportunidade"

O Brasil aposta numa melhora das relações entre os Estados Unidos, a Venezuela e Cuba. O presidente Lula foi um dos primeiros chefes de Estado, junto com os seus homólogos venezuelano e boliviano, a pedir, logo na quarta-feira, 5 de novembro, a suspensão do embargo norte-americano contra Cuba.

Durante a sua campanha eleitoral, Barack Obama havia declarado estar disposto ao diálogo com o sucessor de Fidel Castro, o seu irmão Raul, assim como com o presidente da Venezuela, Hugo Chávez. "Eu quero me encontrar com o homem negro", havia disparado o presidente venezuelano, líder da esquerda radical latino-americana, antes do pleito. "Eu gostaria de conversar com ele a respeito da miséria no mundo, que vai aumentando enquanto os americanos seguem investindo tanto dinheiro em bombas atômicas, em aviões invisíveis e em conspirações contra os povos e contra os governos", acrescentou, depois da eleição.

"Nós dispomos agora de uma janela de oportunidade da qual nós precisamos aproveitar" para fazer com que nós sejamos ouvidos em Washington, analisa Jorge Castañeda. Em sua opinião, é preciso obter em prioridade a suspensão das medidas draconianas que foram tomadas pelas autoridades norte-americanas contra os imigrantes ilegais, e, numa segunda etapa, será preciso convencer ainda Barack Obama a conseguir a aprovação pelo Congresso de uma reforma radical sobre a imigração.

Contudo, a maioria democrata neste mesmo Congresso continuará a mostrar-se reticente para ratificar o tratado de livre comércio que foi assinado com a Colômbia, acusada de perpetrar violações dos direitos humanos.

A possível suavização do embargo contra Cuba, que chegou a ser mencionada durante a campanha eleitoral americana, poderia paradoxalmente deixar as autoridades da Havana constrangidas. Com efeito, segundo explica o opositor social-democrata cubano Manuel Cuesta Morua, esta medida "derrubaria os pretextos que têm sido utilizados nos últimos cinqüenta anos pelo governo" para justificar as restrições das liberdades em Cuba. Jean-Yves de Neufville

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