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07/11/2008

As relações entre a Europa e a Nicarágua vão de mal a pior

Le Monde
Jean-Michel Caroit
Em Manágua
Diz o provérbio que "não se deve morder a mão de quem nos fornece sustento", opina José Perez, um motorista de profissão, a respeito da crise entre a Nicarágua e a União Européia. Este pequeno país situado no coração da América Central, que foi um dos objetos de disputas e um dos campos de batalha da Guerra Fria durante os anos 1980, foi o único, junto com a Rússia, a reconhecer recentemente a soberania da Ossétia do Sul e da Abkházia.

O presidente Daniel Ortega deverá viajar em breve para Moscou, conforme acaba de anunciar o ministro nicaragüense das relações exteriores, Samuel Santos, que se encontra atualmente em visita na Rússia. Este flerte com Moscou também está provocando uma rápida deterioração das relações com os países europeus, que, contudo, figuram, junto com a Venezuela e os Estados Unidos, entre os que mais fornecem ajuda e fundos a este país, que é um dos mais pobres do continente americano.

"Com a União Européia, nós cultivamos relações de amor e ódio", conforme diz a letra da música. "Isso porque os europeus por vezes se deixam enganar por certos grupos que se opõem ao nosso governo e pintam o nosso país com as cores do demônio", confidenciou o ministro Santos, pouco antes da sua partida para uma viagem que o conduziria a Belarus, à Rússia e a Bruxelas. Nesta última capital, ele deveria reunir-se com a comissária européia encarregada das relações exteriores, Benita Ferrero-Waldner.

Por ocasião da cúpula ibero-americana, em 30 de outubro, em San Salvador (El Salvador), a Nicarágua denunciou a participação de embaixadores europeus numa campanha que, segundo ele, tem por objetivo de "desestabilizar e a derrubar o governo legitimamente constituído e presidido pelo 'compañero comandante' Daniel Ortega". Na véspera deste anúncio, Moscou havia intimado os Estados Unidos e a União Européia a "não tentarem influenciar os resultados das próximas eleições municipais em favor das forças de oposição ao governo do presidente Daniel Ortega".

No decorrer das últimas semanas, as autoridades de Bruxelas e de Washington, além de vários antigos presidentes americanos, entre os quais Jimmy Carter, manifestaram a sua preocupação em decorrência da proibição pelo governo nicaragüense de dois partidos políticos; da sua recusa a credenciar os observadores eleitorais independentes; e do ambiente de intimidação e de violência que predomina no país neste período que antecede o pleito municipal de 9 de novembro.

"Daniel Ortega vem dando mostras de que ele perdeu todo contato com a realidade. Ele dilapidou rapidamente o capital de simpatia que ele possuía. Está havendo uma acumulação de eventos que de maneira alguma apontam para o rumo certo, e que dão razão àqueles que denunciam a implantação na Nicarágua de um regime autoritário", observa um diplomata europeu.

As acusações que foram proferidas contra diversas organizações não-governamentais (ONGs) que atuam no país e que recebem e administram financiamentos europeus, entre as quais a britânica Oxfam, envenenaram mais ainda as relações com o governo sandinista.

Depois da onda de protestos que havia sido provocada pela exclusão do Movimento de Renovação Sandinista (MRS, integrado por dissidentes do sandinismo) e do Partido conservador, o presidente Ortega havia qualificado os governos europeus de "moscas que pululam sobre as imundícies", e a ajuda que eles fornecem ao seu país de "migalhas". Tratava-se de um péssimo trocadilho inspirado no nome da responsável européia para a América Central, a italiana Francesca Mosca ("mosca", em espanhol). A embaixadora da Suécia, Eva Zetterberg, por sua vez, havia sido chamada de "diáboa" por um vice-ministro do governo sandinista.

A celebração de três acordos de cooperação, cuja assinatura vinha sendo adiada havia vários meses, conduziu a pensar que as relações evoluiriam rumo a um apaziguamento. O ministro Santos explicou aos embaixadores europeus que se tratava de um "problema de percepção", que eles haviam sido mal informados por uma imprensa controlada pela oposição e que eles foram manipulados por alguns dirigentes de ONG, entre os quais, e principalmente, pelo jornalista Carlos Fernando Chamorro.

Contudo, dois países europeus já tomaram a decisão de suspender a ajuda que eles vinham proporcionando ao orçamento da Nicarágua. Outros ainda se mostram hesitantes, mas eles poderiam seguir o exemplo, a tal ponto que a ajuda orçamentária direta dos países europeus poderia desmoronar de US$ 120 milhões em 2008 para menos de US$ 90 milhões em 2009 (de R$ 255 milhões para R$ 190 milhões). "Os novos países-membros do Leste europeu estão muito atentos para o respeito pelo processo democrático", sublinha um diplomata europeu.

A União Européia e os seus países-membros fornecem mais de 40% do total da ajuda externa que a Nicarágua recebe, calculada em US$ 550 milhões (R$ 1,166 trilhão), ou seja, cerca de 10% do PIB - produto interno bruto - do país. Esta avaliação leva em conta apenas uma parte da ajuda que a Nicarágua recebe da Venezuela. Neste país, a oposição denuncia a falta de transparência e a utilização discricionária da ajuda por parte da Frente Sandinista de Liberação Nacional (FSLN) e pelo presidente Ortega em benefício de programas sociais "clientelistas".

"Contudo, em decorrência da redução dos preços do petróleo, as benesses do presidente Chávez deverão sem dúvida diminuir", antecipa Carlos Fernando Chamorro. Jean-Yves de Neufville

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