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08/11/2008

A "segunda chance" dos Estados Unidos

Le Monde
Por Sylvie Kauffmann
O povo dos Estados Unidos expressou sua vontade e, na terça-feira, 4 de novembro, "a nova alvorada da liderança americana" amanheceu sobre o mundo, se acreditarmos na promessa feita por Barack Obama em seu primeiro discurso de presidente eleito.

Já não era sem tempo. A onda de entusiasmo que está arrebentando por todo o território dos Estados Unidos, e fora dele, tem um tamanho proporcional ao ressentimento que foi provocado pelos dois mandatos de George W. Bush; um ressentimento que predominava tanto entre os inimigos dos Estados Unidos quanto entre seus amigos, e tanto mais intenso entre estes últimos que uma primeira onda de simpatia vinda do mundo inteiro no momento dos atentados de 11 de setembro de 2001, havia sido amplamente ignorada pelos americanos. Uma das características do famoso sonho americano, do qual o presidente democrata é considerado como uma nova encarnação é "a segunda chance". No contexto da cultura americana, um fracasso nunca é definitivo. Quando uma pessoa fracassa, ela levanta, junta os pedaços quebrados e recomeça, dando a volta por cima.

É esta segunda chance que proporciona a eleição de Barack Obama à Casa Branca, no contexto da relação do seu país com o resto do mundo, isso porque, enquanto os Estados Unidos continuam despontando como a maior potência militar e econômica mundial, a "liderança americana" encontra-se seriamente abalada. A liderança não é um dado estatístico. Ele não se mede nem em bilhões de dólares de PIB, nem em quantidade de mísseis nucleares. A liderança mundial é constituída obviamente pela potência econômica e militar, mas é também composta pela legitimidade política, a autoridade moral, a irradiação do brilho intelectual, e a capacidade de inovação. Ela é formada por uma sofisticada combinação de "hard power" e de "soft power". Pela capacidade de projetar a luz. Pelo poder das idéias.

Desde a sua fundação, os Estados Unidos fundamentaram todas as suas ações na idéia democrática, que eles colocaram acima de tudo. Em relação a esta idéia, o presidente eleito Obama situa-se na mesmíssima linha dos seus predecessores. "Esta noite, nós provamos mais uma vez que a verdadeira força da nossa nação não provém da potência das nossas armas nem do tamanho das nossas riquezas, mas sim do poder das nossas idéias: a democracia, a liberdade, as mesmas chances para todos e a esperança inabalável", declarou Obama em 4 de novembro em Chicago. "Lá está a verdadeira genialidade da América: a América é capaz de mudar".

E a mudança nunca foi tão urgente. Porque tudo o que aconteceu no decorrer dos últimos oito anos nos Estados Unidos - e até mesmo nos últimos dez anos, segundo afirmam certos comentaristas que fazem remontar o começo desta "década negra" à gestão desastrosa do escândalo Lewinsky, em 1998, ainda durante o mandato de Bill Clinton - não foi o fruto de uma sucessão de calamidades naturais. George W. Bush foi eleito uma primeira vez em 2000, em decorrência de um pleito que foi muito contestado, antes que os atentados de 11 de setembro alterassem de vez a configuração do país, mas ele foi reeleito democraticamente e por um povo que tinha pleno conhecimento de causa, em 2004.

Em novembro de 2004, o fiasco da operação iraquiana já era evidente; o campo de Guantánamo já estava lotado de "inquilinos"; a infâmia de Abu Ghraib já havia dado a volta ao mundo; o quarto poder (os meios de comunicação) estava desacreditado; os aliados europeus eram apontados como indesejáveis e a democratização do Oriente Médio, um projeto "dos sonhos" acalentado pelos neoconservadores, era considerada como uma panacéia. Considerados do lado de fora do território americano, e, em particular, por países aos quais os seus expoentes pretendiam ensiná-los, os mecanismos da democracia estavam em pane.

Quatro anos mais tarde, o duelo das primárias democratas entre dois pioneiros, uma mulher e um negro; a impressionante disciplina que caracterizou a campanha de Obama; a amplidão da sua vitória final; a taxa de participação sem precedente desde 1908; a elegância mostrada por John McCain na derrota e a escolha que os americanos fizeram muito além dos preconceitos étnicos, tudo isso faz com que os americanos possam legitimar novamente a sua democracia aos olhos do resto do mundo e permite ao presidente eleito saudar "a verdadeira genialidade da América".

Mas será tudo isso suficiente? Quais serão mesmo as reais características desta "nova alvorada da liderança" a respeito da qual Barack Obama garante que ela esta daqui para frente "ao alcance da mão"? O mundo que o presidente encontrará ao instalar-se na Casa Branca em 20 de janeiro de 2009 é muito diferente daquele com o qual se deparara George W. Bush, e ainda mais diferente daquele que existia imediatamente depois da Guerra Fria, que havia sido deixado como herança para Bill Clinton em 1993. O mundo de Obama não está mais lidando apenas com a única dicotomia entre a democracia e o totalitarismo, e nem se acomoda mais com a grade de leitura simplista da "guerra mundial contra o terror". No mundo de Obama existem outros atores, outras potências que são reagrupadas pudicamente sob a expressão de "emergentes".

A Ásia em busca de um modelo alternativo
Existem, na China e também na Índia, centenas de milhões de pessoas das classes médias que, da mesma forma que no Ocidente, consomem, estudam e pensam, só que não necessariamente da mesma maneira. Uma idéia está ganhando força, principalmente na Ásia, segundo a qual é preferível pegar emprestado do Ocidente tudo o que é eficiente, como a economia de mercado, e deixar de lado tudo aquilo que ainda se encontra em estado de rascunho e revela-se complicado, como a democracia. Esta idéia originou-se na Ásia, foi implementada em grande escala pela China, e vem seduzindo um número crescente de países do Oriente Médio. Na Ásia, não faltam os intelectuais que estão convencidos de que com ela nasceu um verdadeiro modelo alternativo.

Em plena efervescência econômica, a Ásia está à procura de idéias novas. Ao revitalizar a democracia americana por meio da diversidade, Barack Obama, o primeiro presidente pós-étnico do país do "melting pot", oferece um modelo positivo para os países multi-étnicos da Ásia do Sul e do Sudeste, assim como para os países de população muçulmana como a Indonésia, onde ele passou uma parte da sua infância. Isso tudo já é considerável, sendo muito mais do que aquilo que oferecem a Europa ou a Austrália.

Contudo, se deixarmos de lado a mudança de imagem e o provável advento de um estado de graça, nada permite afirmar com precisão de qual maneira a "revolução Obama" relançará a liderança americana. A eleição de Barack Obama se limitaria a uma rejeição maciça de oito anos desastrosos ou terá ela a dimensão de um mandato claro e sem ressalvas em favor de um grande movimento político progressista e inovador? Quais soluções a administração Obama irá propor para a reforma do sistema financeiro internacional? Qual será o espaço que ela oferecerá às potências emergentes? Será que o custo econômico da crise que é suportado pelos eleitores americanos, para os quais esta constitui a preocupação essencial, lhe permitirá evitar as medidas protecionistas que a Ásia tanto teme?

O último governador britânico de Hong Kong, Chris Patten, está convencido de que os Estados Unidos irão superar "a humilhação" da crise de Wall Street, que eles se recuperarão mais rapidamente do que os outros e que eles permanecerão como a única superpotência. Para tanto, e para provar que a idéia democrática continua sendo a melhor, Barack Obama deverá ser o presidente "transformacional" que a sua campanha promoveu. Jean-Yves de Neufville

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