UOL Notícias Internacional
 

09/11/2008

Família de Jesse Jackson vive uma transmissão de poderes

Le Monde
Por Corine Lesnes
Enviada especial a Chicago (Illinois)
Em Chicago, o pai e o filho são personalidades que não passam despercebidas. O reverendo Jesse Jackson, 67 anos, foi um dos companheiros de Martin Luther King. Ele dirige nos bairros desfavorecidos do South Side uma coalizão de associações que lutam contra as desigualdades raciais. O seu filho, Jesse Jackson Junior, 43 anos, representa no Congresso a segunda circunscrição do Illinois. Por conta das diferenças existentes entre eles, os dois ilustram a ruptura entre gerações que a candidatura de Barack Obama fez aparecer em meio à comunidade negra.

Durante o discurso da vitória que Obama pronunciou na terça-feira, 4 de novembro, as câmeras mostraram para o mundo inteiro as lágrimas de Jesse Jackson. "Barack Obama estava lá, de pé, tão majestoso", explicou o reverendo no dia seguinte, em entrevista à rádio pública. "Eu sabia que muita gente nas aldeias do Quênia, no Haiti ou nos palácios na China ou na Europa estava vendo este jovem afro-americano assumir a posição de líder". No mesmo momento, ele não conseguiu evitar que a sua mente fosse tomada pelas recordações dos ausentes. Martin Luther King, assassinado em 1968; Medgar Evers*... "Aquele era um sentimento duplo. A emoção diante da ascensão de Barack Obama; e a consciência do preço que havia sido pago para que ele pudesse estar naquele palco".

EFE/Shawn Thew 
Jesse Jackson se emociona ao ouvir o anúncio da vitória de Barack Obama

Jesse Jackson, que havia sido pré-candidato democrata para as eleições presidenciais de 1984 e de 1988, recebera o apelido de "presidente da América negra". Ele foi mantido afastado da campanha deste ano, algo que para ele foi difícil de aceitar. Ele criticou Barack Obama por este não dar a devida atenção para as desigualdades raciais que persistem, "para tranqüilizar os brancos". Algumas semanas antes da eleição, ele havia sido flagrado por um microfone que permanecera ligado, criticando Obama por este "lidar com os negros com condescendência". Na ocasião, o candidato democrata acabava de lembrar enfaticamente aos pais de família afro-americanos, inclinados a abandonarem seus lares, que eles tinham obrigação de assumirem suas responsabilidades.

As atitudes do reverendo refletem a reserva daqueles que não querem se deixar dominar pelo acontecimento e que sublinham que a discriminação não chegou ao fim em 4 de novembro. Ou ainda, daqueles que temem "baixar a guarda", escreveu Courtland Milloy, no "Washington Post", e se perguntam como interpretar o voto dos brancos em favor de Barack Obama. "De duas uma: ou as minhas opiniões a respeito dos brancos estão equivocadas, ou foram os brancos que mudaram. Eu não consigo me acostumar com a idéia de que eu esteja enganado em relação aos brancos. Então, talvez seja a situação do país que, por ser tão assustadora, alcançou um patamar muito acima da questão da raça".

Desconfiança da "velha guarda"
Jesse Jackson Junior, por sua vez, está confortavelmente instalado nas instituições políticas. Nascido depois do combate histórico de Martin Luther King, ele conseguiu ser eleito num distrito que conta 40% de brancos. Ele co-dirigiu a campanha nacional de Barack Obama e reagiu rapidamente às declarações do seu pai, optando por distanciar-se dele. Ele pleiteia daqui para frente o assento de Barack Obama no Senado. Conforme mandam os procedimentos em caso de demissão de um senador, é o governador do Estado quem escolhe arbitrariamente um substituto. Jesse Jackson figura entre os favoritos: ele já deu a entender que em sua opinião seria desejável que o assento continue sendo atribuído a um afro-americano (Barack Obama é o único representante negro no Senado).

Quando se lançou na corrida à presidência, Barack Obama contava apenas com um número limitado de apoios entre os membros da "velha guarda". A geração histórica acabou se aliando a ele, mas Jesse Jackson está decidido a manter-se numa posição de crítico. "Em 1960, Martin Luther King havia apoiado John F. Kennedy contra Nixon. E mesmo assim, nós tivemos que organizar manifestações para obter uma lei sobre as moradias públicas. Em 1964, ele havia apoiado Lyndon Johnson contra Goldwater. E mesmo assim foi preciso manifestar para obter o direito de voto. Quando Obama estiver na Casa Branca, todo mundo vai querer monopolizar sua atenção. O movimento dos direitos cívicos deverá então lembrar-lhe de que ele existe".

* Nota do tradutor: Medgar Wiley Evers (1925-1963) foi um negro americano do Mississipi, defensor dos direitos humanos e membro da NAACP (a associação nacional para a defesa das pessoas de cor). Foi assassinado por um membro da Klu Klux Klan por sua luta contra as discriminações das quais os negros eram vítimas, e em particular por seu papel no inquérito sobre o assassinato de Emmett Till. Jean-Yves de Neufville

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