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11/11/2008

A Grande Guerra de 1914-1918: uma memória em canteiros de obras

Le Monde
Nicolas Offenstadt
No dia 11 de novembro de 1964, na frente do Monumento aos Mortos [da Primeira Guerra Mundial] da aldeia, no momento em que todos observam o tradicional minuto de silêncio, o pai de Claude Duneton, um antigo combatente da guerra de 1914-1918, expressa a sua indignação: "Ah, com os diabos! Sim, aquela foi uma guerra e tanto! Alguma coisa tomou conta dele, aconteceu de repente: ele fazia gestos confusos, sem nexo, e estava ruborizado; eu achei que ele estava tendo um chilique para o seu aniversário". Assim se inicia o romance de Duneton, "Le Monument" (O monumento), lançado em 2004 (editora Balland), que conta a história dos soldados da sua aldeia da região de Corrèze (centro-sudoeste). Esta obra se inclui entre a dezena de romances que foi publicada naquele ano, pelas mais importantes editoras, os quais tiveram como pano de fundo a Grande Guerra, contando na maioria dos casos histórias de "poilus" ("peludos", um apelido carinhoso dado àqueles combatentes). Em sua maioria, os seus autores são da geração dos netos ou dos bisnetos.

No mesmo ano, o filme de Jean-Pierre Jeunet, "Un long dimanche de fiançailles" ("Eterno Amor", deste cineasta mais conhecido por "A Fabulosa História de Amélie Poulain"), uma história de repressão disciplinar ambientado durante a Primeira Guerra, adaptada de um romance de Sébastien Japrisot (editora Denoël, 1991), atraiu mais de 4 milhões de espectadores! Com isso, hoje, na França, a Grande Guerra é muito mais do que um episódio da história. Ela suscita um interesse que se manifesta através de múltiplas produções culturais. Além dos filmes, dos livros, dos álbuns de HQ ou das peças de teatro, as músicas do pop ou do rock contemporâneos também se referem a locais de combates - este é o caso de "Le Chemin des Dames" (O Caminho das Damas, título recente de um sucesso do grupo Soldat Louis); à morte nas trincheiras (o cantor Sanseverino em "Le Dormeur du val vivant" - O adormecido do vale vivente); aos motins (Prisca, "Soldats de plomb" - Soldados de chumbo) ou "La Femme du soldat inconnu" (A mulher do soldado desconhecido, por les Femmouzes T).

Patrimônio e genealogia

Inúmeras atividades associativas vêm agitando as regiões do antigo front. Essas associações, geralmente compostas por benévolos, tomam conta do patrimônio, organizam visitas (ao morro de Vauquois, que foi o palco de importantes feitos na guerra das minas, por exemplo), conferências, e substituem as instituições públicas, que não raro se mostram inoperantes em matéria de preservação dos vestígios da Grande Guerra. Muitos são os amadores e os genealogistas que se apoderam da história do seu ascendente durante o conflito, e que não raro resolvem até mesmo editar seu diário, em livro ou na Internet. Existe até mesmo um guia intitulado "Votre ancêtre dans la Grande Guerre" - O seu ancestral durante a Grande Guerra -, Editora Ysec, 2007.

Resumindo, a guerra de 1914-1918, longe de ser simplesmente um assunto para especialistas, tornou-se de uns vinte anos para cá uma verdadeira prática social e cultural de grande vulto.

Esta enorme empolgação participa do desenvolvimento das associações patrimoniais e da vitalidade da história local, um movimento estimulado pela massificação do ensino superior que fornece indivíduos cada vez mais bem formados. Este interesse na guerra de 1914-1918 se deve também a uma dupla série de fatores.

A primeira diz respeito a especificidades da Grande Guerra, que mexeu com a vida de todas as famílias francesas (8 milhões de mobilizados). Toda e qualquer pessoa pode inscrever sua "história própria" na "grande história": os destinos individuais se inserem na luta coletiva (a defesa de Verdun em 1916, por exemplo), e vão muito além dos horizontes ordinários do meio-ambiente regional (a expedição na Turquia; a guerra dos Bálcãs; a ocupação na Alemanha durante o pós-guerra...). Esta inscrição familiar na história coletiva é facilitada pelas imagens hoje dominantes da guerra de 1914-1918: o "poilu" desponta em primeiro lugar como uma vítima das condições terríveis da guerra, ou como um herói dos combates, e até mesmo os dois. Existem pouquíssimas experiências coletivas além desta, a partir das quais as memórias podem construir tantas figuras positivas: com certeza não serão as memórias das guerras coloniais, e, numa proporção bastante menor, nem aquelas da Segunda Guerra Mundial, com os resistentes ou os "justos".

A segunda série de explicações para entender a revitalização das atenções pela história da Grande Guerra está muito acima do conflito em si. O interesse pelo passado se alimenta das confusões que foram geradas em torno dos horizontes coletivos na França, com o enfraquecimento dos grandes projetos, entre os quais se incluem a queda do comunismo de Estado, a guinada liberal da social-democracia, a perda de influência dos sindicatos... Ou seja, as nossas sociedades sem dúvida cultivam um novo tipo de relação com o tempo que consome passado e eventos. Entre estes últimos, os dramas de outrora têm evidentemente uma forte ressonância e, nesse sentido, certos discursos a respeito dos horrores da Grande Guerra se inscrevem dentro das lógicas do arrependimento.

Lógicas do arrependimento

Esta presença da guerra de 1914-1918, ainda viva atualmente, é surpreendente porque este nem sempre foi o caso. As memórias têm uma história, uma cronologia. Cada vetor de memória (livros, monumentos...) possui igualmente a sua própria temporalidade. Seria impossível retraçar todos os meandros da recordação. Por isso, lembraremos simplesmente que durante os anos 1950, depois de um novo conflito, a Grande Guerra apagou-se do quadro do espaço público. François Mauriac (romancista, 1885-1970) escreveu no "Le Figaro littéraire", em 1957: "[...] a Grande Guerra deixou de pertencer a um passado próximo. Quase todos os protagonistas do drama já saíram de cena, [?] aquilo que nós ainda chamamos de a grande guerra desapareceu sob a maré lamacenta de 1940". Um editor, apesar de ter sido um antigo combatente militante, lembrou ainda no início dos anos 1960 que ele não queria mais receber manuscritos referentes a recordações da guerra de 1914-1918 porque eles se vendiam muito mal. Ele ficaria, sem dúvida, bastante espantado ao ver o seu sucesso atualmente... Depois de 1945, os antigos combatentes de 1914-1918 começaram então a amargar a concorrência de novos heróis, os resistentes ou os libertadores.

Em plena guerra da Argélia (1954-1962), em meio aos debates sobre a tortura, o alto magistrado Maurice Patin escreveu o seguinte comentário para o advogado Jacques Vergès: "De modo algum pretendo contestar o fato de que o senhor contraiu o costume de assumir as suas responsabilidades a partir de janeiro de 1943, data na qual o senhor alistou-se nas FFL [Forças Francesas Livres]. Ainda assim, por ter contraído, por minha vez, o mesmo hábito numa idade vizinha da sua, só que cerca de trinta anos mais cedo, nas trincheiras do Artois, ocorre que eu tenho mais experiência do que o senhor e, em decorrência deste fato, encontro-me na situação de desaprovar o caminho que o senhor escolheu...".

Interesses de poder em disputa

Com isso, a concorrência entre si das memórias da Guerra refletem disputas por interesses entre gerações. Ela viu também os antigos combatentes se enfrentarem com as instituições públicas. Diferentemente da imagem que muitos têm de uma nação comungando no quadro do culto dos "poilus", a recordação de 1914-1918 construiu-se imediatamente em meio às rivalidades, às relações de força e a interesses de poder em disputa. Foram os antigos combatentes que impuseram a data de 11 de novembro como um dia feriado, uma festa nacional (1922), ao passo que o governo pretendia adiar a cerimônia para o domingo seguinte mais próximo desta data.

Da mesma forma, a "fabricação" do Soldado Desconhecido se deve à militância de vários antigos combatentes, enquanto a da cerimônia de inumação, assim como as modalidades do seu culto, foram objetos de numerosos debates e conflitos. Jornalistas e militantes de direita e de extrema-direita não aceitaram o fato de que Panthéon de Paris (monumento de estilo neoclássico situado no 5º distrito da capital) fosse escolhido como a residência permanente do Soldado Desconhecido, por ser um edifício republicano demais aos seus olhos. Nos mesmos termos, eles rejeitaram a fusão da comemoração do Soldado Desconhecido com a do cinqüentenário da República (1920).

Os antigos combatentes não obtiveram, aliás, tudo o que eles esperavam em matéria de culto da memória, conforme comprova o destino que foi reservado à lei de 1919 "relativa à comemoração e à glorificação dos que morreram pela França no decorrer da Grande Guerra". Ela compreendia cinco disposições principais: a inscrição do nome dos mortos pela França e das vítimas civis em registros a serem colocados no Panthéon; o estabelecimento, por parte de cada comuna, de um livro oficial contendo o nome dos combatentes da comuna que morreram pela França; a construção de um monumento nacional comemorativo" dos heróis da Grande Guerra" em Paris ou nos arredores; a outorga de subvenções para as comunas destinadas à "glorificação" dos mortos; a instauração de uma cerimônia para cada comuna, a ser realizada em 1º ou 2 de novembro. Esta última medida, conforme já dissemos, foi transformada pelos antigos combatentes. Mas, em relação às outras... Nunca foi erigido nenhum grande monumento nacional - o dramaturgo, poeta e diplomata Paul Claudel (1868-1955) lançou novamente o projeto, a ser implantado na Praça circular de la Défense em 1955, pouco antes de morrer -, nunca foi criado nenhum livro oficial em todo o território, e nenhum registro tampouco foi colocado no Panthéon...

No "Almanaque do combatente", em 1951, Georges Pineau, um importante expoente do movimento, voltou a analisar uma lei tão pouco interessada em sua própria aplicação: "O Estado deixou na mão os heróis de 1914-1918. A lei que pretendia glorificá-los morreu, ela também [...]. Ah! Se o assunto tivesse sido uma lei fiscal!"

Memória seletiva

A construção da memória da Grande Guerra, portanto, é menos natural do que poderia parecer, e ela é igualmente seletiva. A batalha de Verdun, por exemplo, tornou-se emblemática da "resistência" francesa aos alemães, a tal ponto que ela acabou despontando como o combate por excelência da Grande Guerra. Aquela do Caminho das Damas (1917), que, contudo, foi tão importante quanto, conheceu, no sentido oposto, uma carência de celebrações comemorativas da qual os antigos combatentes ainda se queixavam durante os anos 1960, porque ela fora uma hecatombe provocada pelas decisões estratégicas do estado-maior. Foi preciso esperar até o início dos anos 1950 para ver um edifício comemorativo coberto ser construído no Caminho das Damas, e ainda assim, trata-se de uma capela relativamente modesta. Nada que seja comparável ao Ossuário de Douaumont (Verdun), à igreja Nossa Senhora de Lorette (Artois, 1915), ou ao Memorial de Dormans (batalha da Marne).

Muito além de todos esses locais bastante conhecidos, os vestígios de 1914-1918 no espaço público contemporâneo ainda apresentam uma imensa riqueza. Muitos são os cemitérios comunais que comportam túmulos de "poilus", em muitos casos dotados de inscrições que mereceriam uma maior atenção. Nas ruas, nas estações de trens, nos parques, placas e monumentos relembram a quem quiser vê-los o grande combate de 1914-1918 e os sofrimentos que esta guerra causou. Numa rua de Marselha, pode se ver, simplesmente colocada numa fachada de um prédio, uma placa que se refere ao "Tenente-coronel Charles Roux, morto no campo de honra em 26 de outubro de 1918, com a idade de 42 anos". Em Boulogne-Billancourt (região parisiense), na frente da casa do coronel Raynal, uma grande placa (1967) lembra o herói de "Verdun-1916" que defendeu o forte de Vaux, uma personalidade conhecida de todos durante o período entre as duas guerras.

Na parede de uma plataforma da Estação de trens de Lyon-Perrache, o viajante curioso pode reparar um medalhão esculpido com os dizeres: "À Senhora Bizolon. Mãe dos poilus. Em memória aos serviços prestados aos nossos soldados". E além de tudo, restam lugares esquecidos, como aquele verdadeiro "cemitério" de pedra construído no jardim de agronomia tropical em Nogent-sur-Marne (região parisiense), repleto de monumentos dedicados às diferentes tropas coloniais, entre os quais vários apresentam um arquitetura que simboliza as colônias em questão. Sem esquecer dos monumentos e dos túmulos erigidos nos antigos campos de batalha, nem das pichações, inscrições e esculturas de soldados que existem nos subsolos das regiões do front.

Será que alguém já se deu conta da importância desse patrimônio? Sem dúvida, sim, ao menos em parte: associações e grupos de apaixonados preservam porções desta herança, localmente ou tematicamente. Certas coletividades mostram-se também preocupadas com a sua conservação. Contudo, faltam programas de maior vulto destinados a salvar este patrimônio, ou, pelo menos, a recenseá-lo. Quantas placas, nos cemitérios, desapareceram por ocasião da renovação dos túmulos? Contudo, algumas delas são muito reveladoras em relação à recordação do soldado defunto, tal como aquela comemorativa de um cego de guerra, que desapareceu de um cemitério do Beaujolais.

Quantos monumentos foram destruídos ou danificados durante obras de reforma, e até mesmo transferidos para outros locais pelos proprietários incomodados pela sua presença? Basta comparar mapas do IGN (Instituto Geográfico Nacional) recentes, que indicam precisamente os monumentos de memória, com outros mais antigos, para constatar os desaparecimentos de ano em ano. A Grande Guerra está mesmo presente atualmente, e ela parece ser eloqüente aos olhos de muitos dos nossos contemporâneos. Contudo, ainda resta salvar parcelas consideráveis da sua memória. Jean-Yves de Neufville

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