UOL Notícias Internacional
 

12/11/2008

Economia americana instala-se na depressão

Le Monde
Sylvain Cypel
Em Nova York
Quem acompanha a aceleração da crise fica com vertigem. Na sexta-feira, 7 de novembro, Rick Wagoner, o CEO da General Motors (GM), pronunciou pela primeira vez as seguintes palavras, até então impensáveis: "risco de falência". Vale reconhecer que ele pretendia pressionar o governo americano a desbloquear, em regime de emergência, uma ajuda financeira destinada a evitar que o gigante do automóvel americano se tornasse insolvente dentro de cinco a seis meses. Contudo, no espaço de um fim de semana, a situação evoluiu aceleradamente e mudou da água para o vinho. Na segunda-feira (10), a GM anunciou 5.500 reduções de postos de trabalho, em vez das 3.600 que haviam sido anunciadas na sexta-feira. Acima de tudo, a cotação da ação da GM desmoronou de 22,9%, alcançando seu mais baixo nível nos últimos sessenta anos.

O motivo desta derrocada é simples: segundo o Deutsche Bank (o mais importante dos bancos alemães), a companhia poderia ver as suas reservas de liquidez se esgotarem de vez a partir de janeiro de 2009. Com isso, o banco revisou o seu objetivo de notação para... zero, considerando que uma operação de salvamento por meio de fundos públicos não iria beneficiar aos acionistas.

Um desmoronamento da GM ou do outro gigante do setor, a Ford (que segundo as previsões se tornará potencialmente insolvente dentro de oito a doze meses), seria um "cataclismo" que provocaria a destruição de 2,5 milhões de empregos nos Estados Unidos, segundo um estudo que foi publicado na segunda-feira pelo Centro de Pesquisas do Setor Automobilístico (CAR) de Ann Arbor, no Michigan. Excetuando-se a firmas terceirizadas, os serviços financeiros e as redes de concessionárias, o estudou recenseou 1,4 milhão de "vítimas colaterais" desta derrocada, nos setores do imobiliário, dos restaurantes, da saúde e da educação.

O Partido democrata vem pressionando a administração Bush para que esta desbloqueie o quanto antes em favor da indústria automobilística o empréstimo preferencial de US$ 25 bilhões (cerca de R$ 55 bilhões); uma liberação de verba que foi objeto de um acordo assinado por ambas as partes e cujo pagamento vem esbarrando em dificuldades legais (esses empréstimos podem ser alocados apenas a companhias cuja "viabilidade seja garantida"). Os representantes democratas também consideram como urgente a adoção de um "plano de salvaguarda" do setor do automóvel, seja por meio de uma intervenção capitalista direta do Estado, seja, mais provavelmente, por meio da liberação de novos créditos públicos - o que acaba resultando na mesma coisa.

A quantia mínima que está sendo solicitada pelos executivos financeiros e pelos dirigentes sindicais das três montadoras americanas é de US$ 25 bilhões suplementares. Na manhã de segunda-feira, em matéria publicada no "Wall Street Journal", um ex-dirigente da Dow Jones (a empresa de informação financeira que controla este jornal) resumiu a situação nos seguintes termos: "Se o único meio para se manter a GM em condições de funcionar for uma injeção de dólares a ser efetuada pelo governo, então o preço a ser pago por isso será uma reestruturação completa das companhias sob o controle do setor público, ou ainda sob o controle de conselho de vigilância externo".

Atualmente, o Tesouro tem se mostrado reticente a aprovar esta solução, pois ele teme ver a sua ajuda partir em fumaça, uma vez que o setor automobilístico americano se tornou inadaptado a uma demanda que, por sua vez, se encontra conjunturalmente em queda livre.

Ameaça sobre o emprego

A eventual intervenção do governo revela ser tanto mais difícil que, por trás do setor do automóvel, um outro setor que enfrenta grandes dificuldades poderia em breve recorrer à sua ajuda: a maior parte das companhias aéreas americanas está à beira do precipício. Além disso, com a queda do consumo, sociedades de serviços também começaram a padecer. A segunda maior empresa de comercialização de material informático e eletrônico para o grande público nos Estados Unidos, a Circuit City (que conta 43 mil assalariados no país, entre os seus empregados e aqueles das 700 empresas de franquia) declarou-se em situação de falência na segunda-feira. No mesmo dia, a companhia de serviços de correios rápidos DHL, que é de propriedade da Deutsche Post, anunciou que ela encerrará até o final de janeiro as suas atividades em território americano: naquele momento, 9.500 empregos se acrescentarão aos 5.400 que já foram suprimidos recentemente.

A ameaça sobre o emprego se inscreve no contexto de um verdadeiro tsunami que, daqui para frente, vai adquirindo uma dimensão muito maior do que a crise que andou atingindo os setores do imobiliário, das finanças, do automóvel ou das companhias aéreas. Uma leitura fina dos números publicados pelo ministério do trabalho, que foi realizada pelo Centro de Pesquisas em Política Econômica (CEPR), um núcleo de reflexão ("think tank") mantido pelo Partido democrata, oferece uma imagem muito alarmante da situação. Não só 524 mil empregos foram perdidos entre setembro e outubro, como a categoria dos "empregos de período parcial, não-voluntários" também registrou um aumento de 844 mil pessoas no decorrer do mesmo período.

A preservação do emprego, que é a chave para a manutenção de um nível de consumo suficiente, vai se tornando a maior preocupação entre todas nos meios econômicos. Segundo Dean Baker, um co-diretor do CEPR, a taxa de desemprego (6,5%) alcançará 7% logo no começo de 2009. "Os investimentos privados estão caindo, e aqueles dos Estados americanos também", diz. "Apenas um plano de intervenção pública de grande dimensão" poderá debelar a derrocada rumo à depressão. Um plano com esta característica, que ainda deverá se somar àquele que já foi adotado para o salvamento do setor bancário (que foi de US$ 700 bilhões - cerca de R$ 1,5 trilhão), deveria alcançar um montante equivalente a "2% a 3% do PIB" americano; ou seja, entre US$ 300 bilhões e US$ 450 bilhões (entre R$ 640 bilhões e R$ 960 bilhões).

Ainda segundo Dean Baker, este plano deverá estar dividido em duas partes: um capítulo estritamente social, destinado a preservar o consumo (aumento da duração das alocações de desemprego, além das 26 semanas legais atualmente em vigor, aumento dos vales de ajuda alimentícios, ajuda para o financiamento da cobertura dos planos de saúde...); e um capítulo de despesas com infra-estruturas (transportes, energia...) destinado a criar empregos.

Caso ela mantiver o ritmo de crescimento médio de 0,3 ponto suplementar por mês, a taxa de desemprego alcançará rapidamente os 9%, avalia Dean Baker. Inicialmente, este eventual plano de grande vulto apenas poderá reduzir o ritmo da sua progressão. Contudo, "sem ele, a barra dos 10% será rapidamente ultrapassada". A depressão parece estar mesmo instalada a valer. Jean-Yves de Neufville

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