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12/11/2008

Na França, os primeiros efeitos sociais da crise começam a ser percebidos

Le Monde
Claire Guélaud
Os sinais de deterioração da situação econômica e social vão se multiplicando, quando faltam quatro dias para a publicação pelo Instituto Nacional da Estatística e dos Estudos Econômicos (cuja sigla em francês é Insee) da primeira estimativa, muito esperada, do desempenho do crescimento francês no terceiro trimestre. Com efeito, se uma nova contração do produto interno bruto (PIB) ocorresse depois daquela registrada no segundo trimestre (- 0,3%), isso significaria que a França entrou em recessão.

Em meio a um ambiente econômico que desponta como bastante crítico, agravado pela chegada das primeiras ondas de frio, as associações de luta contra a pobreza garantem que elas já começaram a constatar, no terreno, os primeiros efeitos da crise. A organização Secours catholique (Socorro católico) divulgará nesta quinta-feira, 13 de novembro, o seu tradicional relatório anual, intitulado neste ano "Famílias, infância e pobrezas. Esta associação, que prestou auxílio para 1,4 milhão de pessoas em 2007, sublinha no documento a parte cada vez mais importante tomada pelas pessoas de mais de 50 anos nos seus centros de atendimento. "Muitas famílias que se encontram em situação precária comparecem para alimentar-se ou vestir-se em nossos centros, de maneira a conseguirem pagar seu aluguel", comenta também uma militante permanente da associação.

A análise da evolução da crise elaborada pela Cruz Vermelha francesa não é muito diferente: "A situação segue se deteriorando. Os pobres estão se tornando mais pobres, enquanto outras camadas da população vão se fragilizando", explica Didier Pillard, o diretor do serviço de ação social desta organização. "Pessoas de outros setores da sociedade, que nós não víamos até então, andaram se apresentando desde o começo do ano nos nossos 650 pontos de distribuição de alimentos e nas nossas quitandas sociais: um número cada vez maior de aposentados; muitos trabalhadores pobres em tempo integral, por exemplo, funcionários municipais; além de estudantes". A representação local de Toulouse (sudoeste) constatou um aumento de 100% da população que freqüenta as quitandas sociais. Em Redon (no departamento de Ille-et-Vilaine, na Bretanha), esta mesma população teria aumentado em 26% no espaço de um mês.

Enquanto elas seguem aguardando a duplicação, pelo governo, dos créditos do Plano nacional de ajuda alimentícia, que deveriam passar de 10 milhões para 20 milhões de euros (de R$ 27,55 milhões para R$ 55,1 milhões) em 2009, certas organizações caritativas se vêem obrigadas a diminuírem pela metade as suas remessas, de maneira a poderem ajudar todo mundo. Sensíveis ao desespero crescente das populações que elas tentam amparar, quatorze grandes associações de luta contra a pobreza, todas as quais são filiadas à rede Uniopss (uma associação sem fins lucrativos), estão programando uma manifestação a ser realizada em 28 de novembro, que se destinará a chamar as atenções dos poderes públicos e da opinião para a gravidade da situação.

Os mais recentes dados que foram divulgados pelo Insee, pelos serviços alfandegários e pelo ministério da economia não dão margem para o otimismo. Eles confirmam que o mês de setembro foi particularmente ruim, um fato que já havia sido apontado por todas as pesquisas sobre a conjuntura. O Insee anunciou, na segunda-feira, 10 de novembro, uma redução de 0,5% da produção industrial como um todo, no período de um mês. Quanto descartados os setores da energia e agro-alimentício, esta redução revela-se ainda mais pronunciada, uma vez que ela alcança - 0,8%. O déficit comercial francês aprofundou-se em 6,250 bilhões de euros (R$ 17,22 bilhões) em setembro, o que nunca havia acontecido até então. Se considerado no período de um ano, o déficit aproxima-se dos 55 bilhões de euros, o que constitui um recorde!

Uma vez que os principais parceiros comerciais europeus da França - Reino Unido, Espanha, Alemanha e Itália - também enfrentam situações difíceis, a sua demanda diminuiu consideravelmente. Com isso, as exportações francesas registraram uma queda, estabilizando-se em 34,3 bilhões de euros (R$ 94,5 bilhões). Esta situação deveria perdurar: na Alemanha, a produção industrial conheceu no mês de setembro a sua mais forte queda dos últimos treze anos, enquanto os industriais europeus antecipam um forte desaquecimento da sua produção no decorrer dos próximos meses. Quanto às importações francesas, elas também apresentam sinais de estarem diminuindo, mesmo se o consumo das famílias parece ter resistido até mesmo melhor do que se previa.

A deterioração das finanças públicas é evidente. Nesse sentido, Eric Woerth, o ministro do orçamento, e Christine Lagarde, a ministra da economia, revisaram para cima as suas previsões de déficit e de endividamento públicos, e para baixo as suas hipóteses de crescimento. Em 30 de setembro, o saldo geral da execução do orçamento era negativo em 56,6 bilhões de euros (R$ 155,92 bilhões), ou seja, um déficit de 4,4 bilhões a mais do que aquele registrado no final de setembro de 2007. Além disso, as receitas com o imposto sobre as sociedades (IS) e com a taxa sobre o valor agregada (TVA) estão diminuindo.

O mercado do trabalho também está sofrendo com as conseqüências da crise. Segundo os dados da Agência Central dos Organismos de Seguridade Social (Acoss), o ritmo de progressão das intenções de contratações, fora as admissões provisórias de empregados interinos, está perdendo fôlego: ele caiu para + 1,5% no terceiro trimestre, ao passo que ele era de +7,9% no segundo trimestre. As contratações de funcionários interinos diminuíram de 4,7% entre agosto de 2007 e agosto de 2008. Após ter regredido ao longo de mais de 18 meses, o número de beneficiários das alocações da renda mínima de inserção (RMI) permaneceu estável no segundo trimestre, ficando em 1,14 milhão de pessoas. Quanto ao número dos desempregados à procura de um emprego que receberam uma indenização, ele aumentou em 1% em setembro.

O número das falências de empresas aumentou em 8,9% no espaço de um ano. O número das faturas não pagas em função da inadimplência, no quadro do comércio internacional, aumentou em 125% no terceiro trimestre, segundo dados da Coface (Companhia Francesa de Seguro para o Comércio Exterior). Por fim, as estatísticas que o Banque de France (equivalente ao Banco do Brasil) publicou em 7 de novembro comprovam o endurecimento das condições de atribuição de empréstimos aos particulares e às empresas, apesar dos esforços que o governo andou empenhando junto aos bancos para impedir a rarefação do crédito. Jean-Yves de Neufville

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