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16/11/2008

Igualdade dos sexos desde a escola

Le Monde
Anne Chemin
Enviada especial a Estocolmo
Elas escorregam em um tobogã, rindo, sobem com energia nos bancos, se apoderam dos carros de rolimã que as animadoras colocaram a sua disposição. Emma, Ida e Alice, que acabam de comemorar seus 3 anos, aproveitam um dos tempos não-mistos instaurados em 2005 pela escola de Järfälla, na periferia de Estocolmo: uma vez por semana, as meninas dessa escola piloto em termos de igualdade de sexos são convidadas, durante a manhã, a fazer ginástica "só entre elas".

Esse ligeiro desvio no princípio de convivência foi introduzido em nome da igualdade entre meninas e meninos. "Quando as crianças faziam ginástica juntas, os meninos ocupavam o maior espaço", conta Ingrid Stenman, uma das responsáveis pela escola. "Eles se apoderavam dos jogos, ocupavam o lugar, e as meninas acabavam se apagando: elas se reuniam nos cantos. Desde que as meninas ficam sozinhas, elas retomaram a confiança. Brincam livremente e descobrem que fazer tobogã, saltar ou correr é realmente divertido!"

Lições da vida doméstica
Desde 2005, os 24 educadores dessa escola sueca que recebe cerca de cem crianças de 1 a 5 anos também tentaram modificar seu comportamento. "Não tínhamos consciência, mas antes nós encorajávamos os meninos a assumir riscos, a saltar, a se divertir, enquanto dizíamos constantemente às meninas para tomar cuidado", prossegue Ingrid. "Ficávamos ao redor delas, a segurá-la as como se fossem cair ou ajudá-las como se não tivessem capacidade. Sem saber, nós as impedíamos de desfrutar das brincadeiras!"

Alguns anos atrás Ingrid teria sorrido diante da idéia de que em sua escola as meninas e os meninos não eram tratados da mesma maneira. Mas em 2004 uma pesquisadora especializada em questões de "gênero" veio trabalhar em Järfälla no âmbito de um programa governamental sobre a igualdade dos sexos. Durante vários meses ela filmou as atividades, observou a recepção das crianças de manhã, assistiu às refeições ao meio-dia. E suas conclusões deixaram os educadores estupefatos: sem ter consciência, eles reservavam tratamentos bem diferentes para as meninas e os meninos.

Os adultos deixavam muito mais lugar para os meninos, que utilizavam em média dois terços do tempo de palavra. Durante a comunicação com as crianças, os educadores aceitavam sem dificuldade que os meninos interrompessem as meninas, enquanto pediam que elas esperassem pacientemente sua vez. Enfim, tinham dois registros de discurso: frases curtas e diretas para os meninos, discursos mais longos e detalhados para as meninas.

Durante as refeições, essas diferenças se tornavam caricatas: os filmes feitos em 2004 mostram meninas de 3 ou 4 anos servindo docilmente copos de leite ou pratos de batatas para meninos impacientes. Uma distribuição de papéis encorajada, involuntariamente, pelos educadores. "Sem percebermos, pedíamos que as meninas nos ajudassem a levar os pratos e a participar do serviço", sorri Barbro Hagström, uma das educadoras. "Nunca pedíamos isso aos meninos."

Em um país onde não se brinca com a igualdade dos sexos, o estudo deixou os educadores consternados. "Descobrimos que tínhamos preconceitos sobre a maneira como as crianças devem se comportar", constata Hagström. "Esperávamos que as meninas fossem calmas, educadas e serviçais, enquanto aceitávamos sem dificuldades que os meninos fizessem barulho e pedissem aos gritos o que queriam. Isso provocou muitas discussões na escola, mas também na minha família, que tem três meninos."

Em 2004, o governo sueco, que dedicou cerca de 500 mil euros a projetos escolares sobre a igualdade dos sexos, alocou 7.525 euros para a escola de Järfälla. Durante um ano, Ingrid Stenman freqüentou em meio período um curso universitário sobre o gênero, que lhe permitiu descobrir que os educadores de Järfälla agiam na verdade como a maioria dos adultos. "Nas escolas, assim como nas famílias, os estereótipos continuam muito presentes, embora os parentes ou os professores não tenham consciência disso", resume Lars Jalmert, professor na Universidade de Estocolmo.

Ao final desse trabalho, a equipe educativa de Järfälla decidiu instaurar dois tempos não-mistos de uma hora e meia por semana. Segundo os educadores, esses momentos permitem que as crianças aproveitem tranqüilamente jogos associados ao "outro sexo".

Assim, as meninas podem dirigir carros ou saltar nos bancos sem que os meninos as ponham em perigo. Reunidos em outra sala de jogos, eles se divertem com cozinhas de brinquedo, bichos de pelúcia e bonecas, sem que as meninas venham se apropriar do lugar e lhes dar lições de vida doméstica.

A convivência também é suspensa às vezes durante as refeições: para evitar que as meninas ajam como auxiliares de serviço, alguns almoços transcorrem ao redor de mesas separadas.

Mas o estudo de 2004 conduziu os educadores principalmente a prestar uma nova atenção a seus gestos cotidianos. "Esse trabalho nos abriu os olhos", resume Ingrid. "Hoje tentamos mexer as fronteiras: um menino que quer brincar jogos 'de menina' não deve se sentir fraco ou ridículo; uma menina que se afirma e toma a palavra não deve sentir reprovação. É um jogo de 'ganhar e ganhar' que abre novos espaços para as meninas assim como os meninos: se eles desejarem, podem sair dos esquemas tradicionais."

O programa sobre a igualdade dos sexos lançado em 2004 pelo governo afetou 28 escolas que recebem crianças de 1 a 5 anos. "As desordens escolares estão muitas vezes ligadas às desigualdades entre os sexos e à falta de respeito pelos outros seres humanos", afirma Nyamko Sabuni, ministra da Integração e da Paridade do governo de centro-direita. "O combate pela igualdade dos sexos deve começar o mais cedo possível." Um orçamento de cerca de 11 milhões de euros deverá permitir que esse programa seja estendido às escolas elementares nos próximos anos.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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