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19/11/2008

Missouri, o espelho dos Estados Unidos

Le Monde
Patrick Jarreau
Em Saint Louis
A Anheuser-Busch, que é o maior fabricante de cerveja dos Estados Unidos, fabricante da lendária Budweiser, vai passar a ser controlada pela InBev, um grupo belga cuja diretoria é brasileira. Este notícia foi anunciada no início do verão e, desde então, ninguém em Saint Louis se conforma com isso. "Ainda é preciso que os compradores consigam viabilizar seu empréstimo no mercado...", comentam em voz baixa na cidade, torcendo para que o contrário aconteça. Enquanto isso, uma assembléia geral dos acionistas está prevista para 12 de novembro.

"Seria uma vergonha que a Bud se torne propriedade de estrangeiros", havia declarado Barack Obama, quando estivera na cidade em julho, vindo da vizinha Chicago. Na ocasião, John McCain se mantivera em silêncio, porque a sua mulher, herdeira de uma companhia de distribuição de cervejas e detentora de uma parcela do capital da Anheuser-Busch, estava interessada naquela venda.

Desenvolvida por um imigrante alemão no século 19, a fábrica de cerveja sobreviveu à Proibição, durante os anos 1920. Além disso, ela sempre teve como presidente um Busch, August Busch IV. Carro-chefe do terceiro maior grupo mundial, ela emprega cerca de trinta mil pessoas em Saint Louis e na sua região. Por muito tempo, ela foi proprietária dos Cardinals, o time de baseball da cidade, que atua em domicílio no Busch Stadium, o qual não pertence mais à companhia, mas conserva seu nome.

A sociedade e a família Busch declararam ter efetuado doações no montante de US$ 10 milhões (R$ 23 milhões), para as mais diversas instituições. Estas incluem desde a Washington University até a Orquestra Sinfônica da cidade, passando pelas organizações sociais e médicas vinculadas ao United Way of Greater Saint Louis.

Além do mais, o orçamento publicitário da Anheuser-Busch é vital para diversas competições esportivas nacionais. Os compradores belga-brasileiros têm a reputação de não se deixarem levar pelos sentimentos e de serem propensos a "eliminar as gorduras" de maneira implacável, quer se trate de empregos ou de mecenato.

Até uma época recente, a região de Saint Louis só era superada em termos econômicos por aquela de Detroit, por conta da importância da indústria automobilística. A General Motors e a Ford desapareceram há muito tempo de Saint Louis; enquanto isso, a Chrysler está no processo de reduzir pela metade a atividade de uma usina que produz caminhões, e de fechar a outra, de onde saíam mini-vans. "Uma fábrica para a qual eles haviam consentido ainda assim investimentos no montante de US$ 500 milhões (cerca de 1,150 bilhão) em 2007", lamenta Richard Fleming, o presidente da Câmara regional de comércio. Enquanto isso, as firmas terceirizadas e as que fabricam e distribuem equipamentos e peças de reposição padecem.

O marasmo do setor do automóvel atinge também as concessionárias, que são importantes provedoras de empregos, além das empresas que alugam veículos. A Enterprise Rent a Car, que é a mais importante companhia de locação nos Estados Unidos, e cuja sede fica em Saint Louis, está demitindo muita gente, o que nunca havia acontecido até então. Assim como os Busch, os Taylor, proprietários da Enterprise, se incluem entre essas famílias ricas que, no contexto da fiscalidade americana das associações de caridade e das fundações, vêm sustentando um bom número de instituições científicas, culturais e sociais.

Situado exatamente no centro geográfico dos Estados Unidos, o Estado do Missouri "votou 25 vezes da mesma forma que o restante do país nas últimas 26 eleições presidenciais", precisa David Robertson, um professor de ciências políticas na universidade do Missouri. Os republicanos dominam a maior parte do território - que é rural, pouco povoado e evangélico -, enquanto as aglomerações de Saint Louis (2,8 milhões de habitantes) e de Kansas City (2 milhões) apresentam uma maioria esmagadora de democratas. "O Estado que paga para ver" - "Show Me State", um apelido que lhe foi dado pelos seus próprios habitantes - é um bom revelador da situação em meio à qual o novo presidente foi eleito e que ele deverá enfrentar a partir de 20 de janeiro de 2009.

O Missouri nunca cresce nas alturas em tempos de prosperidade, e nunca afunda em demasia em tempos de crise, insistem muitos habitantes, repetindo este bordão como que para conjurar o mau olhado. A derrocada dos créditos hipotecários revela ser menos violenta aqui do que na Flórida ou na Califórnia, onde os preços do setor imobiliário chegaram a disparar de maneira alucinante. Mas os casos de não-pagamento existem, com os despejos que eles provocam, sobretudo na região norte de Saint Louis, onde está concentrada a população africano-americana.

Além dos tomadores de empréstimo sufocados por taxas de juros de créditos imobiliários que seguem aumentando em velocidade acelerada (chamadas de "ballooning interest rates"), muitos inquilinos modestos vêm sendo obrigados a deixarem seu alojamento porque o proprietário parou de reembolsar o banco, que penhora o bem e dele expulsa os seus ocupantes. Assim, duas mil e quinhentas habitações foram penhoradas, em Saint Louis, em 2007, segundo explicou recentemente o prefeito democrata, Francis Slay. Ele reuniu diversas associações com o intuito de ajudar os tomadores de empréstimo que ainda tenham condições para tanto a renegociarem o financiamento do seu crédito, enquanto os outros foram de fato abandonados à sua própria sorte.

A derrubada dos mercados, que foi provocada pela crise dos créditos hipotecários conhecidos como "subprimes", vem reduzindo o valor das aplicações que os americanos fazem para a sua aposentadoria, como complemento para a Seguridade Social, que é o sistema de previdência coletivo. "Eu nem sequer confiro mais os relatórios de prestação de contas a respeito das minhas economias e do meu plano 401 (k)", diz Nancy Cross, uma dirigente da união local do sindicato de empregados, cuja sigla é SEIU. Os 401 (k), assim chamados em função do número do artigo do código dos impostos que os regulamenta, são planos de poupança e de aposentadoria cujas prestações são abonadas pelos empregadores à altura das quantias aplicadas pelos assalariados. Depois da decisão da General Motors, outras empresas já estudam suspender suas contribuições para esses planos.

É possível prever que no médio prazo, a Bolsa acabará se recuperando. Já, a diminuição das reservas de petróleo, por sua vez, é irreversível. O custo da gasolina tem um peso considerável sobre o poder aquisitivo dos assalariados. "As pessoas utilizam seu carro para irem trabalhar", explica Nancy Cross. "Entre os filiados do nosso sindicato, muitos têm dois empregos porque, caso contrário, eles não conseguiriam sobreviver. Ora, na maioria dos casos, eles não conseguiriam se deslocar de outra forma de um até o outro, a não ser de carro". O sindicato apoiou a criação, que foi submetida a um referendo em 4 de novembro, de uma taxa adicional sobre as vendas no varejo destinada a financiar o desenvolvimento do metrô, que está limitado por enquanto a uma única linha. "É verdade que a vida é mais em conta aqui do que em Nova York ou em Boston, porque paga-se menos impostos em Saint Louis", diz Nancy Cross, "mas, por uma parte, isso se deve ao fato de que aqui existem menos serviços públicos".

A situação econômica andou ofuscando os outros assuntos de preocupação, mas todos eles estão vinculados a ela. A imigração, por exemplo, constitui um problema que George W. Bush e o Congresso não conseguiram solucionar. "A idéia de se proceder a uma reforma de conjunto era um erro enorme, porque ela promoveu a união das oposições", avalia Anna Crosslin, que dirige o Instituto Internacional, um organismo cuja função é de prestar auxílio para os imigrantes legais e também, de fato, para os ilegais.

Mesmo se o Missouri conta apenas 3% de habitantes nascidos fora dos Estados Unidos (a média nacional é de 12%, um nível sem precedente desde a grande onda de imigração que ocorreu há um século), uma tensão crescente é palpável no mercado do trabalho. No setor da construção civil, a atividade dos "coiotes", como são chamados os passadores que trazem para os canteiros de obra, escondidos dentro de camionetes, operários mexicanos remunerados ilegalmente, provoca a cólera dos sindicatos. Dana Spitzer, a chefe de redação do "Labor Tribune", o jornal regional da confederação sindical AFL-CIO, também denuncia a existência de um tráfico de números de Seguridade Social, que faz com que muitos empregadores possam escapar dos processos por recrutarem trabalhadores em situação irregular.

Os ânimos estão em baixa, em Saint Louis, mas não a ponto de viverem uma tragédia. "O que está acontecendo em Wall Street mostra os excesso de um sistema. Aqui, nós atuamos em função de um modelo de gestão mais conservador, possivelmente por causa das nossas raízes rurais", diz Richard Fleming. O Meio-oeste, que sempre alimentou certa inveja em relação à luz que as estrelas econômicas das costas Leste e Oeste atraem, sonha com o advento de um novo equilíbrio em seu favor. Em Saint Louis, o setor financeiro - no qual operam companhias como a Edward Jones, a AG Edwards, a Scottrade e a Stifel Nicolaus - está resistindo melhor do que o setor do automóvel. A montadora de aviões Boeing, que é um outro importante empregador da região, está agüentando firme. Os meios dos negócios apostaram alto no desenvolvimento de um poderoso setor de biotecnologia, voltado para os serviços hospitalares e para a pesquisa médica, de um lado e, do outro, para firmas agronômicas tais como a Monsanto, cuja sede fica nesta cidade.

Cem mil pessoas compareceram para ouvir Barack Obama, em Saint Louis, em 18 de outubro. John McCain, por sua vez, promoveu um comício num condado vizinho, dois dias mais tarde. A corrida estava extremamente disputada neste Estado, no qual os eleitores chamados de independentes não raro revelam ser republicanos decepcionados. "Nós precisamos apagar a lousa e partir para outra", afirma a sindicalista Nancy Cross. Philippe de Lapérouse, um descendente do famoso navegador, que é consultor no setor agro-alimentício, e que, até uma data recente, era um eleitor republicano, confirma esta avaliação: "As pessoas pensam que as coisas precisam mudar". Ele se inclui entre esses republicanos típicos que, segundo o professor Robertson, têm o sentimento de que o seu partido se afastou deles desde que o presidente Bush e a direita religiosa e populista assumiram o seu controle.

A guerra no Iraque, as mentiras que permitiram que ela fosse travada, e as mortes que ela provocou (mais de 4 mil entre os soldados americanos, além de dezenas de milhares de iraquianos) formaram o pano de fundo desta eleição. "Hoje, os americanos não se sentem tão bem com si mesmos, diferentemente do que ocorria antes", analisa Nancy Cross. Embora eles nem sempre consigam dar-se conta da dimensão das mudanças que estão ocorrendo na sua economia, na sua sociedade e no seu meio-ambiente, os habitantes de Saint Louis percebem que essas mudanças tornam indispensável a adoção de princípios, de métodos e de um estilo de governo que sejam totalmente novos. Jean-Yves de Neufville

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