UOL Notícias Internacional
 

20/11/2008

Indústria automobilística: as razões da crise

Le Monde
Stéphane Lauer
A indústria automobilística, tanto a européia quanto a americana, é a primeira grande vítima da crise financeira. A velocidade com a qual o setor vem sofrendo as conseqüências do desaquecimento econômico tem algo espantoso. As vendas vêm desmoronando dos dois lados do Atlântico. Os anúncios de fechamentos de usinas vêm se multiplicando. Nenhuma montadora escapa de uma revisão drástica das suas perspectivas de faturamento. Diversas razões explicam o caráter repentino e a rapidez avassaladora do desastre.

Em primeiro lugar, a indústria automobilística apresenta uma extrema sensibilidade às variações de consumo. Não há nada mais fácil para as famílias ou as empresas do que postergarem em seis meses, e até mais, a compra de um veículo, uma vez que se trata de uma aquisição pesada para todo e qualquer orçamento. Além disso, a indústria automobilística vem sendo atingida em cheio pela crise do crédito. Nos países desenvolvidos, os três quartos dos carros são comprados a crédito. Quando o acesso a este último torna-se mais difícil, o impacto sobre as vendas é imediato.

A terceira razão diz respeito à organização do setor, no qual todas as atividades são concatenadas e interdependentes. Basta que os consumidores compareçam em menor número nos centros de vendas das concessionárias para que as usinas sejam obrigadas a reduzirem suas cadências de produção, e até mesmo a fecharem parcialmente. Além disso, a estocagem de veículos produzidos, mas que não foram vendidos, revela ser muito mais custosa do que a colocação em regime de desemprego parcial de uma parte dos assalariados.

Administração deficiente

Uma vez definido este contexto, a situação da indústria automobilística nos Estados Unidos e na Europa tem de fato poucas coisas em comum. Com efeito, nos Estados Unidos, esses problemas conjunturais vêm se somar a uma pesada crise estrutural.

Assim, é evidente que os atuais problemas das montadoras americanas já estavam amplamente configurados, muito antes da crise dos "subprimes" (créditos hipotecários de taxas variáveis). Em primeiro lugar, há muitos anos que os erros estratégicos manifestos das montadoras vêm produzindo seus efeitos: no decorrer dos anos 1980, a General Motors (GM), a Ford e a Chrysler se precipitaram para tirar proveito do lucrativo mercado das vans 4X4, deixando amplas avenidas para os japoneses no segmento dos carros pequenos. Agora que, por conta da disparada dos preços da gasolina, os consumidores americanos não querem mais comprar as 4X4, as "Big Three" (as Três Grandes) se encontram presas numa armadilha, uma vez que elas nunca conseguirão recuperar o terreno que elas perderam nos últimos 15 anos.

Além do mais, a sua administração revelou ser deficiente. Apesar de amargar perdas no valor de US$ 50 bilhões (cerca de R$ 116 bilhões) e uma redução drástica das suas partes de mercado, nunca o conselho de administração da GM chegou a questionar as decisões estratégicas do seu CEO, Rick Wagoner. Enquanto isso, na Ford, as hesitações tiveram um preço alto, a ser pago à vista. Bill Ford, o herdeiro da família não era o homem certo para enfrentar a situação e foi obrigado a ceder seu lugar depois de alguns meses para Allan Mulally. A Chrysler, por sua vez, vem pagando pelas conseqüências dramáticas da sua fusão fracassada com a montadora alemã Daimler.

Por fim, há muitos anos que a GM, a Ford e a Chrysler vêm padecendo de uma estrutura de custos não adaptada às novas realidades. Obrigadas a assumirem as aposentadorias e as despesas com saúde dos seus assalariados, as montadoras americanas se vêem forçadas a arcar com um custo adicional médio por carro de US$ 1.400 (cerca de R$ 3.220) em relação às suas principais concorrentes japonesas. Um acordo com os sindicatos ainda chegou a ser firmado no ano passado, o que fez com que elas pudessem se livrar destes encargos, mas, a novidade sem dúvida aconteceu tarde demais: os seus efeitos só começarão a ser sentidos a partir de 2010. Daqui até lá, as Big Three terão todo o tempo do mundo para morrerem dez vezes.

Em meio a este contexto, a crise atual nada mais é do que o catalisador de uma multidão de problemas, que, caso eles tivessem sido enfrentados em tempo hábil não teriam conduzido as Big Three à beira da falência. Jean-Yves de Neufville

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