UOL Notícias Internacional
 

20/11/2008

Na Venezuela, o líder da oposição é novamente candidato à prefeitura da capital do petróleo

Le Monde
Jean-Pierre Langellier
Enviado especial a Maracaibo (Venezuela)
Os seus habitantes dizem que Maracaibo é "uma terra amada pelo sol". Amada demais, com toda certeza. E mesmo assim, Manuel Rosales escolheu um horário próximo do meio-dia, a "hora do burro", quando o calor é acachapante, para realizar um comício debaixo do teto de chapa de ferro do terreno de basquete de Tia Juana, situado a uma hora de estrada da segunda maior cidade da Venezuela. Trajando uma camisa listrada e uma calça jeans de marca, ele interrompe de vez em quando seu discurso para enxugar o rosto, enquanto o equipamento de som segue martelando um sucesso de salsa.

Aos 55 anos, Manuel Rosales é um homem político da velha escola, aquela que predominava antes da chegada ao poder, em 1998, do presidente Hugo Chávez. Ele que já foi prefeito de Maracaibo de 1996 a 2000, e que é o atual governador em final de mandato do Estado do Zulia após dois mandatos, volta a candidatar-se à prefeitura da capital, nas próximas eleições municipais e regionais que serão realizadas no domingo, 23 de novembro. Ao seu lado no estrado está Pablo Pérez, um advogado de 39 anos para quem ele gostaria de transmitir seu assento de governador. Os dois candidatos, membros do partido Un Nuevo Tiempo (Um Novo Tempo, da oposição social-democrata), são claramente favoritos. Em 2004, o Zulia havia sido um dos dois únicos Estados dou país - de um total de 24 - a serem conquistados pelos adversários do "chavismo".

Manuel Rosales é uma figura de projeção nacional. Em 2006, ele foi o principal candidato da oposição à eleição presidencial contra Hugo Chávez, que o superou amplamente com 63% dos votos. Os dois homens se detestam. O chefe do Estado nunca o perdoou desde que ele assinou a sua destituição, por ocasião do golpe de Estado fracassado de abril de 2002.

Ao longo dos últimos anos, este homem, que pode ser descrito como rígido e pouco comunicativo, vinha perdendo força política, mesmo se ele permanecia o líder, por falta de concorrentes, de uma oposição minada por ambições rivais e perpetuamente à procura de uma autêntica unidade. Ele deve a sua recente recuperação ao próprio Chávez. "Hugo Chávez escolheu Rosales para ser o seu saco de pancadas", explica o cientista político Luis Vicente Leon, diretor associado do instituto de opinião privado Datanalisis. "Ele é o boda expiatório ideal. E um golpista potencial desde 2002. Além disso, é governador e, portanto, suspeito de corrupção. Por fim, ele tem pouco carisma".

Hugo Chávez acusa Rosales de querer assassiná-lo. "Um porco da sua espécie deveria estar na prisão. Ele é pior do que o Don Corleone do 'Poderoso Chefão' [o filme de Francis Ford Coppola]", garante o presidente, que já estuda implementar "um plano militar" em Maracaibo, caso o seu adversário seja eleito.

"Eles sonham colocar-me fora de circulação", constata Manuel Rosales. "Mas eles nunca alcançarão este objetivo pelas urnas. Com certeza eles tentarão algum golpe sujo". A justiça, que é controlada pelo poder, acaba oportunamente de abrir contra ele um inquérito para apurar acusações de "enriquecimento ilícito", e o convocou para apresentar-se em Caracas. Mas Rosales recusou-se a comparecer antes do pleito, por temer uma "emboscada" política.

O Estado mais rico do país

O risco de amargar uma dupla derrota, em Maracaibo e na região, incomoda Hugo Chávez acima de tudo. O Zulia é um Estado símbolo, o mais rico e o mais povoado da Venezuela. Ele abriga mais de 2 milhões de eleitores, de um total de 16 milhões. À beira do seu lago, Maracaibo permanece a capital petroleira do país. Chávez multiplicou os pretextos para acirrar sua campanha na região, organizando cinco comícios no espaço de um mês.

Paralelamente, Manuel Rosales explora o quanto pode o forte sentimento de identidade regional. Naquele dia, ele declarou para a multidão: "No Zulia, nós somos os melhores!", antes de acrescentar: "No próximo domingo, levantem cedo e votem sem medo!" O comício foi concluído com a entrega, para uma centena de sortudos que haviam sido sorteados, de um envelope dentro do qual havia um vale dando direito a um microcrédito, dentro da melhor tradição clientelista. Ao desceram do estrado, os dois candidatos asseguraram a esta reportagem, um depois do outro, que eles vencerão com uma margem folgada.

No final da tarde, os "chavistas", todos eles trajando roupas vermelhas, organizaram seu comício no centro de Maracaibo, na frente do prédio da companhia petroleira de Estado, PDVSA. Uma orquestra tocava músicas no ritmo da "gaita", o canto tradicional do Natal. "É necessário vencer", proclamavam as inscrições nas camisetas dos militantes, aqueles que Hugo Chávez chama de "os soldados de Bolívar". Necessário, é verdade, aqui mais do que em qualquer outro lugar. Jean-Yves de Neufville

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