UOL Notícias Internacional
 

21/11/2008

A longa marcha dos índios da Colômbia rumo a Bogotá

Le Monde
Marie Delcas
Em Soacha (Colômbia)
Por que os índios colombianos resolveram marchar rumo a Bogotá? Edilfredo Rivera não responde de imediato, tomando seu tempo para refletir. "Para reivindicarem a dignidade e o respeito", responde, com voz grave e calma. Uma braçadeira verde e o bastão que ele carrega a tiracolo indicam que ele é membro da "guarda indígena". Esta polícia comunitária garante o serviço de segurança do cortejo.

Os manifestantes - 10 mil segundo as autoridades, 20 mil segundo as organizações indígenas - deverão alcançar seu objetivo e se reunirem na sexta-feira, 21 de novembro, na Praça Bolívar, em pleno centro de Bogotá. "Nós queremos que o governo cumpra as promessas que ele fez aos índios", prossegue Edilfredo Rivera. "Nós queremos terras, nós queremos a erradicação da violência e dos assassinatos em nossas reservas. Nós queremos que o exército pare com essa história de lidar conosco como se fôssemos guerrilheiros. Nós queremos viver dignamente e em paz".

Aos 28 anos, Edilfredo Rivera acaba de ser eleito governador da pequena reserva de Toez, no departamento do Cauca (sudoeste). Foi nesta região que o movimento de protesto dos índios teve início, em 12 de outubro, no dia da comemoração da descoberta das Américas por Cristóvão Colombo (1492).

Naquela ocasião, a repressão policial provocou a morte de três manifestantes. Uma primeira reunião com o presidente Álvaro Uribe não resultou em nenhum acordo concreto. Foi então que os "indígenas" tomaram a decisão de se unirem nesta grande romaria, para fazer com que as suas reivindicações sejam ouvidas em Bogotá. Viajando a pé, em ônibus multicolores e a bordo de caminhões andando aos trancos e barrancos, eles percorreram os 450 quilômetros que separam a cidade de Cali da capital.

Muito minoritários na Colômbia (eles não passam de 1,3 milhão, contra uma população de 44 milhões), os índios exigem a devolução de terras ancestrais - que há muito tempo lhes foram prometidas pelo Estado -, além do fim dos atos de violência que alvejam suas comunidades.

Segundo dados divulgados pela Organização Nacional dos Indígenas da Colômbia, 1.253 índios foram assassinados nos últimos seis anos, enquanto 54 mil foram forçados a deixarem sua moradia. Cobiçadas por colonos e por narcotraficantes, as suas reservas vêm sendo o palco privilegiado do conflito armado colombiano.

Na quarta-feira (19), os manifestantes acamparam em Soacha, uma cidade da periferia pobre da capital que foi a última etapa da marcha antes da chegada a Bogotá. As autoridades locais colocaram à sua disposição o ginásio municipal. Grandes lonas de plástico preto foram utilizadas como barracas, instaladas no gramado em volta do edifício.

Dezenas de fogareiros a gás, de sacos de batatas e de pencas de bananas foram descarregadas de caminhões. Aqui, as mulheres da etnia Guambiano, trajando seu inseparável chapéu de feltro preto, se prontificaram as descascar as batatas. Ali, outros índios da etnia dos Embera Katio, com o rosto pintado, cozinharam sua refeição por meio de uma fogueira de lenha.

Quem organizou a logística do imenso cortejo? "Cada uma das comunidades indígenas tomou as suas providências, de maneira a provir às necessidades materiais dos seus membros", explicou Auxiliadora Franco, 58 anos, ela também uma governadora. Apenas 47 habitantes da sua aldeia participaram da viagem. "Todos eles queriam tomar parte do protesto, mas a viagem custa dinheiro e era necessário que alguns dentre nós permanecessem no local para cuidar dos animais de criação e das culturas", confidenciou.

"Nós demonstramos para o país e para o mundo inteiro que nós não somos nem terroristas, nem uma população manipulada pela guerrilha, ao contrário do que afirmou o governo", declarou Daniel Pinacué, do Conselho Regional Indígena do Cauca (CRIC), que esteve na origem da manifestação.

"Os índios estão nos proporcionando, mais uma vez, uma lição de disciplina e de organização", sublinhou Alberto Ruiz, um sindicalista. Dezenas de organizações sociais se juntaram ao movimento e convocaram seus filiados para participarem da manifestação na sexta-feira, junto com eles. "A sua extraordinária mobilização está abrindo para as forças da oposição um espaço político que extrapola amplamente as reivindicações indígenas", acrescentou Jesus Maria Zapata, do comitê de defesa dos prisioneiros políticos.

Ayda Quilcue, a primeira conselheira do Conselho Regional Indígena de Cauca, comemorou este apoio das organizações sociais, lembrando que "a questão da terra na Colômbia não constitui exclusivamente um problema indígena, e que a questão das violações dos direitos humanos também diz respeito aos índios". Ela espera que o governo, que não ratificou a declaração dos direitos das populações indígenas que foi adotada pelas Nações Unidas em setembro de 2007, acabe cedendo, "ao menos em relação a este ponto".

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