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26/11/2008

Fotógrafo a contragosto

Le Monde
Michel Guerrin
"Não pretendo ser fotógrafo, nem mesmo amador (ou talvez o tenha sido somente no Brasil: depois o gosto passou)." Em duas linhas escritas em seu álbum de imagens "Saudades do Brasil" (ed. Plon, 1994), que acaba de ser reeditado, Claude Lévi-Strauss minimiza sua relação com a fotografia. Mas basta olhar as imagens em preto e branco que ele fez no Brasil nos anos 1930 - elas serão projetadas no Museu do Cais Branly em Paris em 28 de novembro - para constatar que a imagem fixa tem em sua obra um lugar mais importante do que ele admite.

Lévi-Strauss teria feito 3 mil fotos com os índios do Brasil. O essencial está lá, embora ele também tenha fotografado no Paquistão oriental (atual Bangladesh) na década de 1950. O etnólogo publicou e expôs imagens que ele julgava um precioso instrumento de estudo. O restante, 250 fotos, na maioria em preto e branco, estão depositadas no Museu do Homem em Paris. "Mas eu também vi cores maravilhosas, embora Lévi-Strauss me tenha confiado que as achava ruins", explica o sociólogo Emmanuel Garrigues, mestre de conferências na Universidade de Paris-VII e presidente da associação Antropologia e Fotografia. "Ele conservou clichês que considerava menores, sem dúvida por uma razão sentimental. Acredito sobretudo que a foto foi para ele uma ferramenta que lhe permitia recuperar suas lembranças."

Claude Lévi-Strauss foi iniciado na imagem fixa desde a infância, por seu pai. Adolescente, tentou copiar o expressionismo alemão fotografando objetos. Encontra seu pai em São Paulo, Brasil, em 1935. Juntos realizam retratos e participam de concursos com câmera Leica. Garrigues acrescenta: "Ele quase perdeu um navio tentando fotografar um menino".

O público descobre que existe um Lévi-Strauss fotógrafo com a publicação de "Tristes Tropiques" (ed. Plon, 1955). Seguindo a fórmula da coleção "Terre Humaine", esse livro contém 64 fotos reunidas em encarte que foram tiradas entre 1935 e 1939 no Brasil. Elas não são nem ilustrações nem suvenires. Fazem parte do trabalho do etnólogo: retratos de índios, gestos cotidianos. A dimensão da informação é fundamental.

"Poderíamos escrever cinco páginas sobre cada imagem, descrevendo-a: as roupas, os adornos, a pintura facial... O olho de Lévi-Strauss é especialmente aberto", explica Garrigues. "Ele centra o sujeito em detrimento da composição. Depois há o testemunho e a troca. Uma boa-fé passa nas imagens, porque o autor vive com os índios há um ano. Ele identifica personalidades principalmente por meio do retrato."

Essa mistura de informação com testemunho se dá pela relação entre a realidade e o imaginário de Lévi-Strauss. A foto é apaixonante porque é tão poética quanto a escrita. É preciso evocar aqui o surrealismo e o freudismo, que alimentaram o escritor, lembra Garrigues. "Ele fugiu da França em 1941 e encontrou André Breton, que criticou sobre a diferença entre o documento e a obra de arte", ele conta.

Essa tensão está no centro de "Tristes Trópicos", "que também é um 'romance fotográfico' próximo de 'Nadja' de Breton", continua Garrigues. "Isso fica claro nas fotos em que os índios fazem amor. Existe uma dimensão erótica, extática, uma relação afetiva entre Lévi-Strauss e os índios, um dos quais olha o fotógrafo nos olhos. Lacan cita essas imagens em um seminário sobre a nudez."

"Parte de coquetismo"
Se a fotografia é central, por que Lévi-Strauss praticamente não a cita em seus escritos? Em "Tristes Trópicos" ele se contenta em assassinar os belos clichês turísticos, que são o contrário de sua escrita e de suas imagens. "Existe uma parte de coquetismo em sua prática e sua rejeição da fotografia", afirma Garrigues. "Mas podemos adiantar outros motivos. Ele é filho de um pintor, para quem a foto é basicamente uma arte menor. Ele não pára, sobretudo, de mostrar sua desconfiança, por causa da dimensão autobiográfica do processo e de sua parte de imaginação e subjetividade. Ele lamenta não saber o que acontece antes e depois da foto."

Na introdução a "Saudades do Brasil", ele escreve que suas imagens lhe dão a impressão de um "vazio", de uma "falta do que a lente é fundamentalmente impotente para captar". Dizia que uma foto não pode mostrar o que o olho não pode ver. "Ele era na verdade mais olfativo que visual, lamentava que a imagem não pudesse dar conta das sensações", explica Garrigues. "Ele também parou de realizar filmes etnológicos, por estimar que a câmera o impedia de ver. Mas essa desconfiança é lógica, pois ele desconfiava da escrita..." Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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