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11/12/2008

Espanhóis retornam ao trabalho agrícola

Le Monde
Jean-Jacques Bozonnet
Enviado especial a Ubeda, Andaluzia
Toda noite, nas ruas estreitas de Ubeda, ouve-se o ronco característico de centenas de malas com rodinhas arrastadas por um exército de sombras. Em grupos calados, esses viajantes voltam ao seu lugar de abrigo. A maioria vai na direção do Palácio dos Esportes. Lá, em colchões colocados sobre o assoalho da quadra, às vezes sobre simples papelões ou encolhidos nas arquibancadas, eles tentarão descansar durante algumas horas. Chegam de toda a Espanha, não pelos atrativos turísticos dessa cidade de 35 mil habitantes, classificada como patrimônio mundial da Unesco, mas para ganhar um pouco de dinheiro.

No início de dezembro, quando começa a temporada de colheita das azeitonas na província de Jaen, região que fornece um terço da produção mundial de azeite de oliva, os habitantes de Ubeda estão habituados a ver a chegada dos "sazonais". Depois da colheita de maçãs do lado de Lérida (Catalunha), e da de laranjas em Valência, a "aceituna" - a colheita de azeitonas - constitui uma etapa invernal na rota do sul, antes de concluir o périplo em Huelva em fevereiro, quando começa a campanha dos morangos.

Mas Ubeda nunca viu semelhante afluxo. As estruturas de acolhimento habituais, previstas para 145 pessoas, estão transbordando. "Algumas noites tivemos de servir até 700 refeições", explica o presidente da Caritas, Francisco Moreno, enquanto uma fila de espera obstrui a ruela diante do pequeno local da associação. A situação é a mesma nas 20 comunas da província de Jaen: os 800 lugares normalmente oferecidos aos sazonais que vêm do exterior são pouca coisa quando mais de 2 mil imigrantes surgem há mais de uma semana nas diferentes aldeias em busca de emprego.

Todos os países do Magreb estão representados, mas principalmente os da África subsaariana. Argelinos, marfinenses ou senegaleses, eles vieram na esperança de alguns dias de trabalho. Sabem agora que terão de voltar de mãos vazias. "Há dez anos muitos estrangeiros participavam da campanha da 'aceituna', mas este ano, com a crise, os desempregados da construção voltaram aos campos", explica Marcelino Sánchez, prefeito de Ubeda. Em 2007, Alassam, um malinês de 45 anos, trabalhou um mês em um olival: "Eu voltei para ver meu patrão e ele me disse que este ano os espanhóis querem o trabalho, por isso não pode me pegar".

Na cooperativa L'Union, a mais importante de Ubeda, com 1.500 agricultores associados, o diretor comercial, Antonio Guzmán, confirma "o retorno dos trabalhadores nacionais nas 'cuadrillas'". Ele explica que essas equipes de colheita foram constituídas desde setembro-outubro, na maioria por trabalhadores do lugar e por marroquinos ou romenos no quadro de contratos fechados com os países de origem. Em vão as autoridades andaluzas informaram neste outono em toda a Espanha que não haveria recrutamento no local para a campanha 2008-2009.

Para essas centenas de imigrantes que se acotovelam desde o fim de novembro na estação rodoviária de Ubeda, ponto de encontro habitual com os capatazes em busca de mão-de-obra, a recepção é clara. Cartazes explicam em francês, espanhol e árabe que "a campanha de colheita não precisa mais de empregados", "que os serviços humanitários implementados nos últimos dias não podem mais continuar" e que passagens gratuitas de ônibus estão à disposição "para ajudá-los a voltar para seus lugares de residência habituais".

Entre duas reuniões de crise, o prefeito socialista de Ubeda justifica: "Não vale a pena alimentar falsas esperanças. Nós advertimos o governo provincial de que não podíamos mais manter por muito tempo tal situação de urgência humanitária". Por causa da chuva, que não pára de inundar os olivais, o fim da temporada é atrasado a cada dia.

Por isso, apesar das difíceis condições de vida, os imigrantes esperam. Nunca se sabe. "Como eles podem dizer que não há trabalho se a campanha não começou?", surpreende-se Ahmed, 28 anos, um marfinense que veio de Valência "para pagar o aluguel".

Os vereadores de Ubeda sentiram a amplidão da dificuldade no dia em que viram chegar "cinco ônibus lotados" da região de Valência. Lá, as empresas agrícolas suspenderam a colheita das laranjas e limões devido ao mau tempo, mas sobretudo por causa dos preços muito baixos no mercado, que tornam a colheita não-rentável.

Com a concorrência da mão-de-obra local, as pessoas na rodoviária se sentem em um impasse: "Nós vamos de cidade em cidade, mas em todo lugar é a crise, é a pobreza", sopra Babacar, um jovem senegalês sentado sobre a mala que contém todo o seu patrimônio.

Menos resignado, Abdellaziz, um argelino que mora há seis anos em Tarragona (Catalunha), mostra sua carteira de residente e a licença de trabalho: "Onde está o trabalho? É a crise para os estrangeiros, não para os espanhóis". Ainda não são as azeitonas da cólera, mas há rancor nas confidências trocadas. "Um cachorro é tratado melhor que eu neste país", irrita-se o camaronês Nicolas, 29 anos, demitido há oito meses de uma fábrica em Madri. Os rumores menos verificáveis circulam entre os grupos: os romenos teriam aceitado trabalhar por € 2,40 a hora, anúncios classificados procurariam "espanhóis com boa saúde", etc.

Dois terços dos imigrantes bloqueados em Ubeda não têm documentos. "É um motivo suplementar para que não encontrem trabalho", afirma Sánchez. "O controle do trabalho negro aumentou consideravelmente nos últimos anos, tanto pelo número de inspetores nos campos como pelo valor das multas". Às vezes, junto os degraus da estação rodoviária, um automóvel pára. Então iniciam-se conversas pelo vidro abaixado. "Ontem eles pegaram quatro", diz alguém. Em que condições? O prefeito reconhece que alguns empresários tendem a se aproveitar da situação, "mas são muito minoritários". Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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