UOL Notícias Internacional
 

15/12/2008

Jornalista, uma profissão perigosa para os mexicanos

Le Monde
Joëlle Stolz
Na Cidade do México
O México é o lugar mais perigoso da América Latina para se praticar o jornalismo, sobretudo quando se trata de cobrir a "guerra" entre as autoridades e os narcotraficantes.

O Comitê de Proteção aos Jornalistas (CPJ), uma organização não-governamental baseada em Nova York, contabiliza 24 assassinatos ligados ao exercício da profissão desde 2000, mais sete desaparecimentos nos últimos três anos. A Federação Internacional dos Jornalistas lembra que dos 300 profissionais de mídia mortos no mundo nos últimos dez anos, 25% são mexicanos.

"Com o Iraque, o Afeganistão e o Paquistão, o México é um dos países mais arriscados para um jornalista crítico", declarou o célebre jornalista alemão Günter Wallraff, em uma mesa-redonda organizada no final de novembro na Feira Internacional do Livro de Guadalajara.

A mexicana Alma Guillermoprieto, que cobriu as guerras civis da América Central para mídias britânicas e americanas, deu em Guadalajara uma conferência intitulada "Como ser jornalista e não morrer", salientando os perigos próprios à situação do México: "Um jornalista que trata do tráfico de drogas se atira em um túnel escuro, onde os tiros podem vir a qualquer momento e de qualquer lugar".

Esse balanço é contestado pelo procurador federal encarregado dos crimes contra jornalistas, Octavio Orellana. Na última terça-feira (9) ele garantiu que só três vítimas foram mortas por causa de sua profissão. Segundo ele, as outras encontraram a morte por motivos semelhantes "aos que afetam todos os mexicanos" - acidente, bala perdida durante um confronto entre bandidos ou suicídio. E com freqüência não eram verdadeiros jornalistas, ele acrescenta.

Orellana recebeu uma réplica ferina por parte do responsável da CPJ para as Américas, Carlos Lauria: "Esses números evocam mais uma zona de conflito do que um país democrático", ele afirmou, lembrando que dos 24 assassinatos registrados pela CPJ somente um foi solucionado pela justiça.

A polêmica ocorre após o assassinato a tiros de Armando Rodríguez em 13 de novembro em Ciudad Juárez: ele era o especialista em assuntos criminais no "El Diario", principal jornal dessa cidade fronteiriça com o Texas, onde se lamentam desde janeiro mais de 1.300 mortes violentas causadas pelos cartéis da droga. Em 6 de novembro, uma cabeça humana cortada foi depositada em Ciudad Juárez na "praça dos Jornalistas", ao pé de um monumento dedicado à "liberdade de expressão", onde estão inscritos os nomes de profissionais da mídia assassinados.

O assassinato de Armando Rodríguez, seguido de um atentado contra um jornal de Culiacan, capital do estado de Sinaloa (noroeste) e outro campo de batalha dos cartéis, causou um choque no seio de uma profissão já habituada ao pior. "É sem dúvida exagero colocar o México no mesmo plano que o Iraque", admite Adriana Valasis, jornalista da rede de TV Azteca. "Mas esse novo crime provocou um debate na Internet entre colegas dos grandes jornais mexicanos, para tentar definir uma posição comum."

Com dezenas de outros jornalistas, a jovem assinou uma petição lançada pelo grupo "Periodistas de a pie" (Jornalistas em campo): "As autoridades devem mostrar seu envolvimento pela liberdade de expressão e o direito à informação".

Em várias regiões, sobretudo no norte, essa liberdade fundamental é constantemente sufocada. Em Tijuana, às portas da Califórnia, alguns repórteres não saem mais sem colete à prova de balas e se contentam em dar uma informação mínima. Em Nuevo Laredo, a mesma reserva depois que o jornal "El Mañana" foi atacado a metralhadora e a granada em 2006.

No nordeste, feudo do cartel do Golfo, os "narcos" telefonam sem medo para as redações: "As 'pessoas' da organização criminosa não querem que vocês publiquem tal nome ou tal foto". Em Ciudad Juárez, nove jornalistas receberam ameaças do crime organizado, contra eles ou suas famílias. Dois preferiram recentemente exilar-se nos EUA.

"O pior é a indiferença institucional a tudo isso", diz ao "Monde" Gerardo Priego, deputado do Partido da Ação Nacional (PAN, de direita), a formação presidencial. "O assassinato de Rodríguez poderia ter sido evitado com medidas de proteção aos jornalistas mais expostos", ele afirma. "Não compreendem que o jornalista cria um bem de interesse público, que é a informação." Presidente da comissão parlamentar que acompanha as agressões contra jornalistas, Priego, quer aprovar uma lei que qualifica os ataques contra veículos de mídia de delito federal. Segundo ele, ocorrem cerca de dez ataques por mês contra a imprensa no México, que vão da escuta telefônica ilegal ao ataque físico.

"E em quatro casos sobre dez eles vêm de autoridades locais ou do governo, sem falar na utilização da publicidade oficial para recompensar as mídias dóceis ou, ao contrário, castigar as outras", ele salienta. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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