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17/12/2008

Aulas de desenho atenuam o inferno cotidiano de Guantánamo

Le Monde
Corine Lesnes
Enviada especial a Guantánamo (Cuba)
A cinco semanas da posse de Barack Obama, o exército faz como se não houvesse nada de mais em Guantánamo. "Continuamos com as operações do dia-a-dia. Não temos nenhum plano, esperamos para ver", diz o número 2 do centro de detenção, o oficial da marinha Jeff Hayhurst. Os militares estão conscientes de que o presidente eleito, que assumirá o cargo em 20 de janeiro, prometeu fechar a prisão. Mas não escondem que a empreitada levará tempo.

Antes de poder esvaziar o campo, que ainda tem 250 prisioneiros, será necessário "resolver questões importantes e difíceis", salientou o contra-almirante David Thomas, que dirige o centro de detenção: para onde transferir os detidos e que justiça lhes aplicar. "Colocar os detidos no avião é a parte mais fácil", ele acrescenta. O comandante Hayhurst espera um "debate vigoroso", que provavelmente terá lugar no Congresso, se, como deseja o secretário da Defesa, Robert Gates, o fechamento do campo passar pela via legislativa e não por um decreto presidencial, como reclamam as associações.

Enquanto isso, nada mudou em Guantánamo. Mas de todo modo sente-se uma ligeira descontração. Os jornalistas podem dar alguns passos sem escolta militar. As novas construções são raras. O tribunal que foi construído para o processo de Khaled Cheikh Mohammed, que reivindica a organização dos atentados de 11 de setembro de 2001, é pré-fabricado, totalmente desmontável. Está claro que o Pentágono não pensa mais em expansão.

A visita guiada organizada pelo exército dá as explicações habituais sobre a vida cotidiana em Guantánamo. Os advogados se queixam de não ter acesso aos dossiês médicos - pelo fato de que eles mencionam os tratamentos aplicados durante os interrogatórios -, mas os jornalistas podem ver exemplares de todos os acessórios fornecidos aos prisioneiros: óculos de plástico mole e até cuecas. O xampu é de "alta segurança", em um saquinho plástico. A caneta esferográfica possui um tubo mole para impedir que sirva de instrumento. Os cobertores são feitos de fibras reforçadas para evitar que os detidos possam se enforcar com eles.

Na entrada da prisão nesta quinta-feira, 11 de dezembro, um cartaz indica: a "palavra da semana" é "respeito". O subdiretor das operações de detenção se orgulha de apresentar as novas salas de aula que o exército americano inaugurou no Campo 4. É o bloco mais calmo, onde os detidos, que usam uniforme branco e não laranja, vivem em grupo e podem ficar do lado de fora durante todo o dia. Para ter acesso a ele é preciso mostrar-se "dócil" durante semanas. Mohammed, o bibliotecário, pode passear tranqüilamente por ele com os livros que leva em um carrinho. Os prisioneiros têm direito a quatro livros e três revistas por semana. Um americano de origem árabe faz o papel de "conselheiro cultural": ele recomenda os trechos que devem ser censurados.

O comandante Hayhurst se esforça para apresentar a imagem de detidos que jogam bola, que fazem exercícios e assistem a vídeos duas vezes por semana em uma TV de tela plana - eles adoram os programas de pesca e ultimamente o filme "A Era do Gelo", ele afirma. Tudo vai tão bem no Campo 4 que foi autorizada uma dezena de canteiros para plantas. Agora os detidos mantêm sua horta.

Mas o Campo 4 reúne apenas 30% dos detidos. A maioria dos outros continua "não cooperativa" ou é considerada perigosa e está abrigada nos Campos 5 e 6 - o Campo 7 contém os acusados do 11 de Setembro, mas ninguém sabe onde se encontra e eles são guardados por uma unidade especial, a Task Force Platinum. Cerca de 20 prisioneiros continuam em greve de fome. Os que são suspeitos de delatores ficam no Campo Eco. Eles têm direito, segundo se diz, a consoles de jogos Game Boy.

O Campo 5 é um campo de segurança máxima. O ambiente é claramente menos cordial. Nas celas, ao lado da flecha que indica a direção de Meca, os guardas pintaram no chão uma marca preta. É o limite que não deve ser ultrapassado quando se abre a portinhola para passar o prato de comida. Os guardas tentam evitar os jatos do que eles designam com o vocábulo de "fluidos corporais".

Oito celas são vigiadas por três policiais militares: dois que marcham ao longo do corredor, um que fica de pé no fim do mesmo. Antes a temperatura aqui era glacial. Hoje é mantida a pelo menos 20 grais, salienta o oficial.

As autoridades não param de refinar suas inovações. Aulas de artes plásticas começaram em 12 de dezembro. O comandante Hayhurst se orgulha muito ao citar o "estímulo intelectual" dado aos detidos pelo desenho. Na sala ainda se encontra uma tulipa desenhada sobre um cavalete pelo militar que serve de professor. Os detidos se inscreveram "em grande número" para esse curso, segundo o oficial, embora esteja prevista uma duração de três meses. Os guardas notaram um aluno, de fala árabe, que parece especialmente dotado. O que ele desenha? "Relógios", indica o comandante. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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