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19/12/2008

A esquerda latino-americana está fragilizada

Le Monde
Paulo A. Paranaguá
A esquerda latino-americana entrou em uma zona de turbulência, ainda que esteja no poder em uma quinzena de países e em situação favorável alternadamente em três nações. O desafio atinge as diversas esquerdas, sejam elas radicais ou moderadas, partidos "puros e duros" ou coalizões com formações centristas.

Para aqueles que governam há muito tempo, o desgaste do poder não explica tudo. No Chile, a coalizão de centro-esquerda entre socialistas e democratas-cristãos, na ativa há dezoito anos, sofre para renovar sua liderança. O fracasso da reforma do transporte público em Santiago, a frustração das expectativas dos jovens e a incapacidade de integrar o PC no jogo político enfraqueceram a coalizão governamental frente a uma direita modernizada.

Na Venezuela, o presidente Hugo Chávez acaba de comemorar dez anos no poder. Campeão da democracia plebiscitária, ele conheceu seus primeiros reversos nas urnas. Após sua derrota no referendo constitucional de 2007, os candidatos "chavistas" perderam as eleições de novembro nos principais estados venezuelanos. Ao apostar na tensão permanente e na polarização ideológica, o líder da "revolução bolivariana" se alienou da classe média, mas também do eleitorado urbano de maneira geral, incluindo setores modestos.

Em sua fuga adiante, Chávez quer organizar um referendo em fevereiro de 2009, para trazer novamente à tona a reeleição ilimitada do presidente da República, rejeitada pelos eleitores em 2007. A aposta é arriscada, visto que ela promete um eterno papel secundário para as personalidades "chavistas" que podem pretender à sua sucessão.

Apesar de ter uma popularidade de 80%, o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, não está seguro de impor seu sucessor. Seu Partido dos Trabalhadores (PT), abalado por escândalos de corrupção, não conseguiu renovar seu direcionamento durante as eleições internas de 2007. Em outubro, as municipais revigoraram a maioria presidencial, mas elas também favoreceram o governador do Estado de São Paulo, José Serra, do Partido Social-Democrata Brasileiro (PSDB, oposição), em vista da presidencial de 2010. A "convergência" entre o PT e o PSDB, as duas grandes formações reformistas, testada na ocasião da eleição em Belo Horizonte, capital de Minas Gerais, foi bem recebida pelos eleitores, seguida com boa vontade pelo presidente Lula, mas rejeitada pela maioria de seu partido. O PT governa em aliança com... doze partidos, sobre a base de uma frágil confluência de interesses eleitorais, suscetíveis de se voltarem em direção do que oferece mais.

No Uruguai, o presidente Tabaré Vazquez acaba de deixar o Partido Socialista. Seu desacordo é a respeito do aborto. A coalizão governamental de centro-esquerda se dividiu pelas ambições presidenciais de José Mujica, antigo guerrilheiro Tupamaru e ex-ministro da agricultura, e Daniel Astori, ex-ministro da economia.

Aversão dos eleitores, divergências, fragmentação: uma rápida leitura mostra que não se tratam de exemplos isolados, mas de uma tendência quase geral. Na Argentina, a presidente peronista Cristina Kirchner esgotou em um ano seu crédito junto à opinião pública, à sombra de seu invasivo marido e predecessor, Néstor Kirchner. No Peru, os bons resultados econômicos não reduzem a impopularidade do presidente Alan García. Na Nicarágua, o sandinista Daniel Ortega enveredou por uma via perigosa, em novembro, durante uma questionada votação municipal. No Paraguai, o ex-bispo Fernando Lugo sofre para conciliar as diversas expectativas da coalizão heteróclita que o levou à presidência.

No Panamá, as pesquisas de opinião apontam a derrota na eleição presidencial da candidata do Partido Revolucionário Democrático (PRD), a formação do chefe de Estado, Martin Torrijos. Na Bolívia, seu homólogo Evo Morales conta com uma aprovação maciça da nova Constituição, no referendo de 25 de janeiro de 2009. Mas a erosão de seu eleitorado urbano deverá ser perceptível durante as eleições previstas para o final de 2009.

Redistribuição e desenvolvimento sustentável
A oposição de esquerda varia em alternância entre El Salvador, Colômbia e México. Somente o Front Farabundo Marti da Liberação Nacional (FMLN), a antiga guerrilha salvadorenha, parece pronto para o prazo de 2009, pois escolheu como candidato à presidência uma figura independente, Mauricio Funes, jornalista respeitado.

Na Colômbia, a esquerda conquistou a prefeitura de Bogotá e as responsabilidades nos departamentos. O escândalo provocado pelas revelações nos laços entre as milícias paramilitares e a maioria presidencial, como extorsões do exército, pode favorecer uma alternância. O presidente Álvaro Uribe é popular, mas não pode se representar. No entanto, as eleições no seio do Pólo Democrático Alternativo (PDA) não renderam uma maioria aceitável. Ao contrário do senador Gustavo Petro ou do ex-prefeito da capital, Lucho Garzon, os comunistas e os antigos maoístas não aumentaram as ambigüidades sobre suas relações com a guerrilha, o que pode arruinar as chances de sucesso da oposição.

No México, as ambições se amontoam no Partido da Revolução Democrática (PRD). O candidato de 2006, Andres Manuel Lopez Obrador, havia perdido por pouco. Mas o PRD acaba de dar o espetáculo lamentável das eleições internas cujo regulamento judiciário se estendeu por vários meses. Durante o debate sobre a reforma da empresa petroleira do Estado, o PRD se agarrou a posições nacionalistas que comprometem a segurança energética. Esses erros beneficiam o velho Partido Revolucionário Institucional, que esteve no poder durante 71 anos.

Os problemas da esquerda, no poder como oposição, voltam à sua dificuldade de responder a dois desafios: a redistribuição da renda nacional e o desenvolvimento sustentável. Em termos de gestão pública, a esquerda consegue facilmente colocar em prática programas em favor dos mais pobres, sem para isso deixar de lado a classe média, desejosa de ascensão social. Na América Latina, onde a taxa de urbanização é de 80%, a esquerda representa no máximo um terço do eleitorado. A complexidade latino-americana não é redutível aos velhos esquemas ideológicos. Lana Lim

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