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19/12/2008

Em Bogotá, frágil reconciliação entre guerrilheiros e paramilitares que receberam baixa

Le Monde
Marie Delcas
Em Bogotá
De blusão preto e botas pontudas, Carlos toca o acordeão diante de um público de crianças maravilhadas. Seus dedos musculosos, que ontem manuseavam um fuzil-metralhadora, deslizam alegremente sobre o teclado. Em abril de 2007, Carlos desertou da guerrilha colombiana. Hoje ele dirige com um colega uma modesta escola de música para os jovens dos bairros pobres de Bogotá. "Meu colega é um ex-paramilitar", explica Carlos.

Paramilitares e guerrilheiros, que se enfrentavam armados, se reencontram para encerar juntos os bancos do programa presidencial de reintegração. "No começo, com os 'paras', a gente se olhava de lado, se lembra Juan Martinez, um outro desertor da guerrilha. E depois a gente entendeu que vinha tudo do mesmo mundo, o da 'pobreza filha da mãe' Hoje, todos recebemos baixa, e as pessoas não gostam de nós, isso cria laços". "Aqui em Bogotá é fácil de se dar bem uns com os outros, mas não posso voltar para minha casa, acrescenta um de seus camaradas. Os "paras" ainda estão lá, eles roubaram todas nossas terras e nunca vão devolver".

"A paz na Colômbia passa pelo sucesso da reinserção dos ex-combatentes", afirma Frank Pearl, alto-conselheiro presidencial pela reintegração. Esse economista de modos refinados sabe que o desafio é imenso. "A Colômbia apostou na reconciliação, mesmo com o conflito. Precisamos negociar a paz com cada um dos dispensados", lamenta.

Entre 2003 e 2006, por volta de 32 mil paramilitares se renderam no quadro das negociações feitas entre o governo do presidente Álvaro Uribe e os chefes das Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC, extrema direita). Outros preferiram desertar individualmente. É o caso de 11 mil guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC, extrema esquerda) que, sob pressão do exército, decidiram se render.

Interrogado sobre as dificuldades do retorno à vida normal, Freddy Cadavid, um "ex-AUC", ironiza: "Quando tínhamos armas, nunca ficávamos na fila". Frank Pearl confirma que os que receberam baixa devem primeiramente reaprender "as regras e os valores da cidadania". É apenas um dos aspectos de sua reeducação. Paramilitares e guerrilheiros acalmados devem também ver um psicólogo, voltar à escola e seguir uma formação profissional, elaborar um projeto de vida e se fazer aceitar pela sociedade.

Se eles jogam o jogo, os que receberam baixa recebem do Estado uma ajuda financeira. Aquele que freqüenta todos os cursos e todas as reuniões recebe 510 mil pesos (170 euros, ou seja, pouco mais que um salário mínimo), além da Previdência Social e a educação gratuita para ele e sua família. Inicialmente, o programa previa que a ajuda seria dada durante dois anos. "Mas foi preciso admitir que a reinserção se dá a longo prazo, explica Pearl. A idéia não é fixar um limite, a idéia é ter sucesso, mesmo que isso leve vinte anos. É preciso que o sistema funcione para todos os que receberam baixa e todos os que virão a receber".

Um quarto dos dispensados eram analfabetos no momento em que voltaram à vida civil. A escolaridade média dos ex-combatentes é de quatro anos. Um ex-guerrilheiro conta, rindo, as decepções do seu início em Bogotá: todo feliz por receber um cartão de banco, ele o plastificou para não estragá-lo.

O sucesso da reintegração não depende unicamente dos dispensados. "A sociedade deve fazer a outra metade do trabalho, garante Pearl. É por isso que trabalhamos também com as comunidades que acolhem esses ex-combatentes. Seu meio de origem é o da miséria. Eles devem reviver com as vítimas da violência. O ódio ainda está vivo, a desconfiança é geral. É preciso reconstruir pouco a pouco o tecido social."

Nos municípios que mais sofreram com a violência, as atividades misturam perdão simbólico e projetos coletivos. Aqui, os ex-paramilitares construíram um centro esportivo, ali uma escola. Para cumprir bem sua tarefa, o programa pela reintegração dos dispensados dispôs, este ano, de um orçamento de 460 bilhões de pesos (153 milhões de euros).

De qualquer forma, o dinheiro não faz tudo. "A paz deve resolver muitos outros problemas: o da pobreza, do desemprego, da propriedade de terra", revela o alto comissário pela reinserção.

Para mobilizar o setor privado e convencer seus amigos patrões de empregar os dispensados, Frank Pearl tenta lhes explicar que "a paz é um bom investimento: se você não a faz por convicção, faça-a por interesse".

Impedir a reincidência é o grande desafio. "E o narcotráfico constitui a principal ameaça", resume Pearl. Na Colômbia, principal produtora de cocaína, a máfia tenta recrutar os ex-combatentes, especialistas em armas e em tráfico de todo tipo. Quando a isca do ganho não é o suficiente, os traficantes não hesitam em acionar o gatilho. "Na minha vila, Saragosa, dois colegas foram assassinados porque não quiseram retomar o serviço. Então vim para Bogotá", explica Freddy. Segundo fonte oficial, 1061 dispensados foram assassinados em 5 anos, 90% dos quais eram ex-paramilitares".

Estes são mais expostos do que seus antigos inimigos guerrilheiros ao risco de "recaída". "Os combatentes de base da AUC receberam baixa sob ordem de seu chefe, não por convicção, relembra Peal. Em compensação, os guerrilheiros que desertaram tomaram uma decisão individual, refletida e muito arriscada. É fora de cogitação para eles voltar atrás." Filhos de camponeses, acostumados a trabalhar duro sem receber um centavo, os ex-guerrilheiros foram formados por uma organização disciplinada. Não era o caso da AUC, onde reinava a cultura mafiosa do dinheiro fácil.

A polícia avalia em 2 mil o número de homens a serviço dos "bandos criminosos emergentes". Segundo os defensores dos direitos humanos, o número é subestimado e o termo esconde o ressurgimento dos paramilitares, ainda mais ligados do que antes ao narcotráfico.

Quanto à guerrilha, enfraquecida do ponto de vista militar, ela parece mais teimosa do que nunca nas negociações de paz. "É fácil entrar em acordo entre guerrilheiros e 'paras' dispensados em Bogotá. Mas aqui, no departamento de Meta, a guerra continua", resume Cesar Flores, ex-AUC. Veremos se o programa de reinserção tem um belo futuro. Lana Lim

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