UOL Notícias Internacional
 

19/12/2008

Em Gaza, os milicianos da Jihad islâmica não acreditam em operações maciças de Tsahal

Le Monde
Michel Bôle-Richard
Enviado especial a Gaza
Eles são em vinte, impecáveis em suas vestes camufladas, coturnos engraxados, capuz preto na cabeça, a kalashnikov transversal ao peito, a granada na cintura. "Eles são determinados, prontos para tudo. Eles podem fazer milagres", afirma seu chefe, que desfila com seu fuzil M16. Esse chefe, que chamaremos de "Abou Abed", tem orgulho de seus homens. Ele explica que eles estão lá "para proteger a fronteira", "para que nossos filhos possam dormir tranqüilamente".

Estamos a dois quilômetros da barreira que separa a faixa de Gaza de Israel. Dentro de alguns instantes, essa unidade vai assumir posição a menos de quinhentos metros do "inimigo". Em seus capuzes, uma inscrição em letras douradas que diz Saraya Al-Qods ("Brigada Jerusalém"), braço armado da Jihad islâmica, movimento radical que privilegia a luta armada. Esses combatentes têm por missão detectar todos os movimentos do exército israelense e intervir em caso de incursão. "Abou Abed" enumera suas idades. Todos têm por volta de 20 anos. São estudantes, empregados, operários e se reúnem assim que são chamados pelo walkie-talkie. Nem podem pensar em usar telefones celulares, muito fáceis de serem detectados pelo exército israelense e seus aviões não-tripulados que sobrevoam permanentemente a faixa de Gaza. Eles possuem alguns lança-mísseis e encapsulamentos para comandar à distância as minas enterradas no solo.

Para Abou Abed, é a vanguarda de um braço armado que, segundo ele, contaria com mais de 10 mil homens. Esse comando, que encontrou refúgio em uma mesquita na periferia da faixa de Gaza, seria só uma seção entre outras. Por que uma mesquita? "Porque é nossa vida. Ali nós aprendemos tudo, inclusive a nos defender, a lutar pela libertação de nosso país. É nosso destino. Não o escolhemos. Isso nos foi imposto", responde Abou Abed. Eles vão atirar mísseis ou projéteis sobre Israel? "Não necessariamente", ele explica. E ele mesmo, participa de operações como essas que se seguiram, na terça-feira 16 de dezembro, ao assassinato de um responsável pela Jihad islâmica em Jenine na Cisjordânia?

Ele prefere não responder, mas ele justifica essa réplica: "Não somos terroristas. É uma reação legítima. Por que os israelenses mataram nosso líder? A resistência à ocupação é um dever. Vocês, os franceses, combateram bem o ocupante alemão. Vocês também eram terroristas, nesse sentido!"

"Nós temos mísseis Stinger"

Com 30 anos de idade, pai de família, Abou Abed entrou na luta armada aos 16 anos. Ele faz parte dos alvos potenciais de Tsahal, mas ele afirma não ter medo. "Não temos nada a perder. A trégua (com Israel) não permitiu melhorar a situação dos habitantes de Gaza. Pelo contrário, ela piorou. Então por que fazer de novo?", ele se pergunta. Se os pontos de passagem se abrirem novamente, se as provisões se fizerem normalmente, se houver gás e eletricidade, ele se dispõe imediatamente a fazer cessar fogo sobre Israel. Abou Abed estima que o Estado judeu rompeu essa trégua no dia 4 de novembro, procedendo em uma incursão para destruir um túnel cavado perto da fronteira e destinado, segundo os militares, a uma operação armada palestina. Seis milicianos haviam sido mortos. Desde então houve outros ataques, outras mortes e nessas condições, o cessar-fogo resistiu.

Camisa azul, jaqueta de couro, barba, esse professor de inglês com jeito de aluno atrasado é um administrador importante da Saraya. Ele reconhece que os cinco meses de trégua permitiram à sua organização reforçar sua capacidade operacional. É fora de questão entrar em detalhes. Aos seus olhos, a apresentação de sua seção é suficientemente reveladora. Abou Abed afirma não temer uma grande operação de Tsahal na faixa de Gaza, muitas vezes evocada, jamais lançada três anos e meio depois da retirada desse território por Israel. "A invasão só pode ser limitada e custará muito caro. Será um massacre. Temos os meios de nos defender. Não é à toa que os helicópteros não se aventuram mais no céu, pois eles sabem que nós temos mísseis Stinger. Desta vez, não serão mais projéteis artesanais que vão cair sobre Israel, e a conta para os civis israelenses será pesada. Não queremos matar crianças e civis, mas se eles o fizerem aqui, e eles o farão, então não hesitaremos. Nunca mais o inimigo poderá ocupar Gaza!"

"É preciso, a partir de agora, que Israel pague o preço de seus crimes. Não estamos mais dispostos a nos deixar assassinar sem reagir" e para Abou Abed, o bloqueio de Gaza que se seguiu à vitória eleitoral do Hamas em janeiro de 2006 é justamente "um crime contra a democracia". Então ele não está pronto para cessar o combate mesmo que ele sonhe poder um dia ir a Paris, talvez mesmo à Eurodisney para ver como se parece um parque de diversões. E sobretudo sair da faixa de Gaza. O que ele nunca conseguiu fazer. Lana Lim

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