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20/12/2008

Brasil quer se tornar a potência militar regional

Le Monde
Jean-Pierre Langellier
Correspondente no Rio de Janeiro
Gigante e líder natural da América do Sul, o Brasil ainda não possui um exército moderno à altura de suas ambições regionais. O país, decidido a se recuperar rapidamente de seu atraso militar, decidiu travar uma parceria com a França que, por sua vez, viu seus interesses comerciais e geopolíticos serem contemplados.

É esse o pano de fundo da cooperação estratégica franco-brasileira, que será consagrada com a visita oficial do presidente Nicolas Sarkozy, nos dias 22 e 23 de dezembro, ao Rio de Janeiro.

Ao reencontrar a democracia após mais de vinte anos de ditadura militar (1964-1985), o Brasil não tinha mais vontade de paparicar seu exército. Teve lugar um longo período de relativo desinteresse pela defesa nacional, cujo orçamento não era prioritário. Há alguns anos, a emergência econômica e política do Brasil o obrigam a se munir de equipamentos militares adequados.

Ele precisa ao mesmo tempo defender seu imenso território - dezesseis vezes o tamanho da França - contra as ameaças terroristas e os tráficos de todo tipo, vigiar 8500 km de costas e 4,5 milhões de km2 de águas territoriais, proteger suas riquezas naturais, especialmente as jazidas em águas profundas - 22 mil pessoas trabalham permanentemente sobre 109 plataformas petroleiras, às vezes muito longe em alto-mar - , e de forma mais geral se armar de um instrumento de dissuasão digno de um grande ator mundial.

A França diz querer ajudar o Brasil nesta busca por meios de poder. Ela só tem a ganhar: contratos suculentos de armamentos, um acesso consolidado ao principal mercado da região, uma terra amiga onde desenvolver seus investimentos, a satisfação de contribuir para reforçar um país democrático com o qual ela divide, na Guiana, sua mais longa fronteira terrestre, incluindo a própria França. Como diz um diplomata, "é uma situação onde todos ganham".

Em setembro, Brasília publicou um plano de modernização da defesa, onde a França terá um papel crucial ao permitir que a marinha brasileira se arme, até 2020, de um submarino de ataque movido à propulsão nuclear. Será o primeiro do gênero na América Latina.

O acordo para a construção desse e de quatro outros submarinos de nova geração à propulsão clássica (diesel) do tipo Scorpène - que substituirão os cinco existentes de fabricação alemã - será concluído durante a visita de Sarkozy ao Rio de Janeiro.

A França ganhou esse mercado por uma razão principal: ela aceitou transferir à marinha brasileira a tecnologia indispensável ao projeto. A longo prazo, o Brasil quer dominar sua indústria de defesa, construindo ele mesmo seus materiais mais sofisticados e reduzindo ao máximo sua dependência dos fornecedores estrangeiros. A vontade política francesa de atender às exigências brasileiras, "sem tabus", retomando a expressão de Sarkozy, convenceu os brasileiros de que a França, com sua experiência nuclear, era o parceiro certo.

A França fornecerá a carapaça e a informática de um Scorpène à propulsão convencional fabricado pelo grupo DCNS-Thales. A partir dessa tecnologia, o Brasil construirá o protótipo de um submarino nuclear.

Brasília detém a tecnologia nuclear, mas não a uma escala industrial. O programa nuclear da marinha, lançado em 1979 e colocado em dormência por muito tempo por razões orçamentárias, finalmente se concretizará, para a satisfação dos militares.

O outro domínio de cooperação militar tem a ver com os helicópteros. A França ajudará o Brasil a fabricar 51 Super Cougar em Itajubá, em Minas Gerais, onde a construtora brasileira Helibras está instalada há trinta anos. A Eurocopter, filial do gigante europeu EADS, detém 45% da Helibras. O montante total do mercado ultrapassaria um bilhão de dólares. Os aparelhos equiparão os exércitos da terra, do ar e da marinha.

O Brasil quer também ter o destino em suas mãos. Primeiramente, adquirindo ao longo dos anos um máximo de tecnologia francesa.
Em seguida, tornando-se um exportador. A Helibras é a única construtora de helicópteros no subcontinente. Como ressaltava o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, em junho, a associação com a Eurocopter permite ao seu país visar "o mercado extraordinário" da América Latina. A Colômbia e o Peru já manifestaram seu interesse por esse material.

Um terceiro mercado, ainda mais atraente, interessa à França. O Brasil deve renovar de hoje até 2023 sua frota aérea militar (entre 120 e 150 aviões). Uma primeira licitação pública é para 36 aparelhos de combate polivalentes. No dia 1º de outubro, a aeronáutica anunciou o trio de "finalistas", sobre os seis construtores inicialmente na disputa: o F-18 Super Hornet da Boeing, o Gripen de Saab e o Rafale da Dassault.

O contrato se aproximaria dos 2,5 bilhões de dólares. O Brasil anunciará sua escolha durante o ano de 2009. Além da qualidade comercial da oferta, o vencedor será aquele que consentir em dividir com o comprador o máximo de conhecimentos técnicos. A eventual vitória do Rafale no Brasil teria um grande significado simbólico para os dois países, uma vez que a Dassault até hoje nunca conseguiu vender um único de seus aparelhos no exterior. Lana Lim

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