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20/12/2008

Degelo do Ártico parece estar a caminho

Le Monde
Stéphane Foucart
Enviado especial para San Francisco (EUA)
As altas latitudes do hemisfério norte se aquecem e se transformam, em ritmo de marcha. As últimas observações sobre o Ártico, tornadas públicas em San Francisco (Califórnia) no congresso de outono da American Geophysical Union (AGU), sugerem que os efeitos do que os cientistas chamam de "amplificação ártica" agora são tangíveis. Própria das regiões polares, essa "amplificação" do aquecimento é caracterizada pela engrenagem de um círculo vicioso - uma cascata de acontecimentos que favorecem o degelo da banquisa, e desencadeados por ela.

O sinal mais evidente da rápida mudança em curso é a diminuição da superfície da banquisa. Esta se retrai de forma sazonal, todo verão, antes de se estender novamente ao longo do inverno. Mas em setembro de 2007, e depois em setembro de 2008, o gelo do mar ártico conheceu dois mínimos jamais atingidos desde o início das observações. "Em setembro de 2007, ele foi 26% inferior ao do ano anterior, explica Julienne Stroeve (National Show and Ice Data Center). E 2008 foi quase tão ruim quanto".

Essa perda de gelo no verão tem repercussões em cascata. Ao analisar novamente os dados de satélites obtidos entre 1979 e 2007, Stroeve observou que as temperaturas da baixa atmosfera tenderam a ser cada vez mais elevadas no outono. Por quê? A ausência de gelo expõe o oceano, mais escuro, aos raios do Sol: o mar absorve assim uma energia que antes era refletida. "E no outono, enquanto o gelo volta a se formar, uma grande parte do calor absorvido pelo oceano no verão é devolvido à atmosfera, o que impede a formação de gelo novo", explica Stroeve. Assim, apesar de 2008 ter sido um ano mais fresco, as anomalias no Ártico continuaram consideráveis.

Essa amplificação local do aquecimento não surpreende. Ela é prevista por todos os modelos numéricos utilizados pelo Grupo intergovernamental de especialistas sobre a evolução do clima (GIEC): para um aquecimento médio de 3ºC no fim do século, os modelos prevêem um aumento nas temperaturas de 7ºC na zona ártica. "O que está acontecendo era previsto, mas não esperávamos que fosse ser tão cedo", resume a pesquisadora.

Elemento desencadeador da amplificação ártica, a redução da banquisa no verão afeta igualmente as terras emersas da região. E em particular a Groenlândia, cuja redução das geleiras parece estar relacionada à da banquisa. Nas regiões mais setentrionais dos mantos de gelo, o período de degelo no verão das geleiras, normalmente entre dez e quinze dias, se estendeu para quase 35 dias este verão. "Em uma zona situada no extremo norte da Groenlândia, é algo que não esperávamos", explica Marco Tedesco (City College of New York), co-autor dessas observações por satélite. Algumas observações sustentadas por outros resultados, revelados por Jason Box (Universidade de Ohio), e obtidos por outros instrumentos satélites: segundo eles, a perda de gelo dos mantos groenlandeses foi três vezes maior no decorrer do verão de 2008 do que no verão anterior.

Outra conseqüência das mudanças aceleradas da região: a fragilização do permafrost e a possível desestabilização dos hidratos de metano (ou clatratos) que ficam sobre o piso oceânico. Ou são as reservas consideráveis de carbono orgânico - da ordem de um trilhão de toneladas para a zona ártica - cuja liberação teria graves conseqüências climáticas.

Fortes concentrações de metano
Essa liberação está acontecendo? Uma expedição oceanográfica russo-americana-sueca contornou, ao longo do verão, a costa russa, desde o mar de Barents até os confins do mar da Sibéria oriental e do mar de Chukchi. Mais de 1000 amostras das águas de superfície foram coletadas pelos oceanógrafos que notaram concentrações muito grandes de metano, um potente gás do efeito estufa.

"Talvez até 100 ou 200 vezes os valores do fundo", ressalta Igor Semitelov (International Artic Research Center, Universidade do Alasca). Isso sugere que está cada vez menor o papel que a região exerce na captura do carbono que ela armazena há dezenas de milhares de anos. Mas não há, no entanto, uma vigilância contínua do metano na zona e é difícil avaliar a importância dessas medidas.

Publicado durante um congresso da AGU, um relatório americano levantando o estado dos conhecimentos sobre as mudanças climáticas abruptas - sendo que uma das causas possíveis é justamente a liberação desses famosos hidratos de metano - estima, de sua parte, como "muito improvável" uma eventualidade dessas no decorrer do século. Lana Lim

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