UOL Notícias Internacional
 

23/12/2008

Engenharia climática, um remédio polêmico

Le Monde
Stéphane Foucart
Em San Francisco (Califórnia)
A geoengenharia está na moda. Em 2006, em duas publicações diferentes, dois famosos especialistas da atmosfera, Paul Crutzen e Thomas Wigley, colocaram novamente no gosto do dia esse fantasma nascido durante a guerra fria: manipular o clima. Desta vez sem o objetivo de dar a um país uma vantagem estratégica contra seus adversários, mas com o de resfriar artificialmente a Terra para enfrentar o aquecimento...

Essa suspensão do tabu, há dois anos, iniciou uma multiplicação de pesquisas sobre o tema. O congresso da União Geofísica Americana (AGU na sigla em inglês), que terminou na última sexta-feira (19) em San Francisco (Califórnia), recebeu este ano duas vezes mais contribuições sobre a geoengenharia do que em 2007. Esse ímpeto não significa, entretanto, um entusiasmo dos pesquisadores. Ao contrário: a maioria dos trabalhos apresentados tinha por objetivo explorar os perigos e as incógnitas de um princípio que, no entanto, às vezes é apresentado como um remédio milagroso, simples e barato, para a mudança climática.

Vários processos, dos mais rudimentares aos mais sofisticados, são imaginados. Envio de sondas guarda-sóis entre o Sol e a Terra, movimentação artificial dos oceanos para favorecer sua atividade biológica, e portanto o bombeamento de dióxido de carbono (CO2) atmosférico, dispersão em certas regiões oceânicas de imensas plataformas flutuantes brancas para refletir a radiação solar...

Mas o dispositivo mais estudado é o proposto pelo holandês Paul Crutzen em 2006. "Tratar-se-ia de despejar pelo menos um milhão de toneladas de enxofre ... na estratosfera, a camada atmosférica situada entre 10 e 50 quilômetros de altitude, com a ajuda de balões lançados dos trópicos", explicou então o cientista em uma entrevista à revista "La Recherche". "Uma vez nesse nível, essas substâncias são queimadas de maneira a obter dióxido de enxofre, o qual é depois convertido em partículas de sulfato com menos de um micrômetro de diâmetro."

Essas partículas, ao refletir uma parte da radiação solar, fariam baixar rapidamente a temperatura média da Terra. O efeito seria uma queda de temperatura da ordem de 1 grau centígrado, durante um ou dois anos. Depois disso a operação teria de ser refeita. Alguns inconvenientes são conhecidos: multiplicação de chuvas ácidas, possível redução da camada de ozônio estratosférica...

Outros procedimentos estão menos documentados. Alan Robock, da Universidade Rutgers (Nova Jersey) e sua equipe simularam em um modelo digital a injeção de quantidades variáveis de dióxido de enxofre (SO2) em diversas latitudes, especialmente nas mais altas. A idéia é que uma geoengenharia limitada no Ártico poderia desacelerar a redução das geleiras polares e teria poucas conseqüências no resto do planeta.

"Cálculos anteriores sugeriam que se a injeção fosse feita acima do Ártico, os sulfatos mais ou menos permaneceriam lá", ele explica. "Mas não é o que observamos." O deslocamento progressivo dos sulfatos para as latitudes mais baixas faria cair a insolação nos trópicos. Resultado: "Isso perturbaria as monções da Ásia e da África, essenciais para a agricultura nessas regiões", admite Robock. "Isso apresentaria o risco de reduzir os recursos alimentares de bilhões de pessoas."

Outra simulação de geoengenharia atmosférica, apresentada no congresso da AGU e conduzida por pesquisadores do Met Office britânico, também conclui com reduções de precipitações pluviais da ordem de 15% em média na América do Sul, com uma redução máxima de 30% das chuvas na bacia amazônica.

"É uma questão de gestão de riscos", estima David Keith, da Universidade de Calgary, no Canadá. "O problema vem a ser trocar um risco por outro." O aumento certeiro do nível dos mares é mais "arriscado" do que a provável redução das chuvas? Principalmente, interroga-se Alan Robock, "quem controlaria o termostato? Quem decidiria qual seria o clima supostamente ideal?" A criação de um organismo internacional para responder a essas questões não seria fácil.

"No melhor dos casos, a geoengenharia poderia nos dar um pouco de tempo para diminuir as emissões, mas não é de modo algum um remédio", explica Keith. "Por exemplo, isso não resolve a questão crucial da acidificação dos oceanos." Estes, na verdade, tendem a se tornar ácidos ao absorver uma parte do CO2 atmosférico excedente, processo que poderia ameaçar a sobrevivência de certos moluscos e plânctons.

À questão dos enormes riscos que representaria uma manipulação do clima em escala mundial acrescenta-se a de sua exeqüibilidade, mais simples. Em sua proposta de 2006, Paul Cruitzen apostou na utilização de balões enviados para a alta atmosfera. A equipe de Robock se baseou nas tecnologias hoje disponíveis para estimar o custo de tal operação. Para injetar na baixa estratosfera um milhão de toneladas de enxofre em forma de sulfito de hidrogênio (H2S) seria preciso lançar mais de 30 mil balões por dia, cada um levando uma carga de 100 quilos e custando cerca de US$ 1.700. Ou seja, um orçamento de mais de US$ 20 bilhões por ano. Esse custo poderia, no entanto, ser consideravelmente revisto se as frotas de aviões militares pudessem ser destinadas a essa missão.

Richard Tusco, professor na Universidade da Califórnia em Los Angeles, que apresentou no congresso da AGU um estudo de exeqüibilidade das técnicas de geoengenharia atmosférica, não acredita nessa última solução. Ao imaginar um cenário que consiste em difundir partículas refletoras - feitas de um material pouco suscetível de perturbar a química atmosférica, ao contrário do enxofre -, "seriam necessários diversos aeroportos, frotas de aviões e uma rede de previsões meteorológicas especialmente dedicadas ao projeto", estima o cientista. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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