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25/12/2008

A Índia no espelho de Bollywood

Le Monde
Julien Bouissou
Enviado especial a Mumbai
Bijula, de 12 anos, espera para ser seqüestrada, descalça e vestindo um sári bordado. Seus atacantes, armados de bastões, tomam seu tempo. Eles aguardam, bebendo chá, as instruções do diretor, perdido nas páginas de seu roteiro. A noite cai, a filmagem do drama já toma 12 horas, muito além da duração legal de trabalho, e poderá se prolongar até tarde da noite. Os técnicos estão furiosos. Eles não são os únicos a trabalhar até 20 ou 25 horas sem parar. Ao longe, na vasta planície que os rodeia, outros refletores continuarão acesos por muito tempo. O ruído surdo dos geradores vibra às vezes até de madrugada, como um eco sem-fim da atividade trepidante da "Film City", terra sagrada do cinema indiano. Todos os dias, fortalezas, templos e cidades são destruídas e reconstruídas. Somente alguns heliportos e mansões com piscina são conservados. As paisagens bucólicas dão a ilusão de estar em pleno campo. Mas por trás dos muros forrados de cartazes publicitários, nos quais se pode ler "Aprenda a falar inglês como James Bond", surge o caos de Mumbai.

Apenas alguns dias depois dos atentados que deixaram 171 mortos Film City continua imperturbável. Com o roteiro entre as mãos, o diretor pega finalmente o microfone: "Vamos filmar de novo. Energia!" A novela conta a história de duas crianças cujo casamento foi decidido por suas famílias antes mesmo de seu nascimento. No episódio que está sendo filmado, as crianças têm cerca de 10 anos. A seqüência será escrita em função do sucesso da série. Algumas estão em seu 1.500º episódio, e todo mundo aqui já sabe o final - sem surpresa. "Um dos dois vai se apaixonar por outra pessoa e vai querer escapar do casamento, depois renunciará. Tudo acabará como os pais queriam", diz com um ar cansado Parmesh, o diretor. Serão necessários 50 cavalos, 40 dançarinos, 200 figurantes, dois coreógrafos e três dias para rodar esse episódio de 20 minutos. É a corrida contra o relógio, mesmo que, como reconhece o assistente de direção: "Ganhamos alguns minutos graças às câmeras-lentas e aos vários zooms nos rostos".

Punit Paranjpe/Reuters -28.fev.2004 
Pedestre passa diante de cartaz de um filme de Bollywood, em Mumbai

Bijula, a jovem atriz, tem 30 segundos para exprimir "amor, angústia, depois cólera" dançando ao redor de uma fogueira, tendo ao lado um coreógrafo que grita: "Tik tak, tik tak, crescendo!" Os atacantes podem finalmente atacar.

Bollywood em greve
A equipe de filmagem precisa trabalhar rápido porque a novela deve ser entregue dois dias depois a uma rede de televisão, e pelo menos um dia deve ser dedicado à montagem e à dublagem. "Não sei como vamos fazer. É assim todos os dias", queixa-se a produtora, com os cabelos tingidos de louro, os olhos marcados por olheiras. "Nos últimos anos, o sonho de Bollywood se tornou um pesadelo", afirma um técnico que não quer ser identificado. De tal maneira que pela primeira vez em 50 anos Bollywood entrou em greve, no início de outubro, por três dias.

Os ataques terroristas que sacudiram Mumbai no final de novembro tiveram pouca repercussão na indústria de cinema local. A deserção momentânea das salas de espetáculo obrigou os produtores a adiar o lançamento de alguns filmes, em um período que constitui normalmente um pico de freqüência. Os hotéis Taj Mahal e Oberoi eram freqüentados por atores que hoje se sentem ameaçados. O ator Amitabh Bhachchan admitiu que dormiu com uma arma sob o travesseiro durante o drama e não a abandonou desde então. Raramente Bollywood foi tão violenta como em suas críticas à omissão dos políticos antes dos ataques. O diretor Karan Johar escreveu em seu blog que alguns políticos deveriam ser "surrados" por sua inépcia. "Está na hora de os políticos corruptos acordarem. Parem de pensar sempre em sua reeleição e atuem por seu país", empolgou-se a atriz Hema Malini. Bollywood terá assim contribuído para a demissão do chefe do governo de Maharashtra. Vilasrao Deshmukh esteve no Hotel Taj Mahal algumas horas depois da evacuação dos cadáveres do edifício, na companhia de seu filho, um ator, e do diretor Ram Gopal Varma. A visita escandalizou Sonia Gandhi, presidente do Partido do Congresso. O ministro-chefe teve de apresentar sua demissão alguns dias depois.
BOLLYWOOD FOI POUCO AFETADA PELOS ATENTADOS
"Bastou um telefonema para interromper as filmagens em Mumbai, Londres, Bangcoc e na Suíça", comemora o secretário-geral da Federação dos Funcionários do Cinema do oeste da Índia, Dinesh Chaturvedi. Os 150 mil técnicos e atores não suportavam mais as condições de trabalho. Os salários eram depositados com seis meses de atraso e os dias de filmagem duravam na verdade 40 horas, a ponto de que alguns deles desmaiavam de cansaço no platô. Os produtores finalmente concordaram com uma jornada de trabalho legal, um parâmetro de remuneração para cada profissão e finalmente um prazo de pagamento dos salários que não deve superar um mês. Em seu impecável conjunto safári branco, óculos de lentes violeta, Dinesh Chaturvedi se considera satisfeito, enquanto lamenta a mudança de época: "Antigamente éramos tratados como numa família. Hoje Bollywood se tornou uma indústria que pode esmagar seus trabalhadores".

Uma indústria onde o antigo convívio não pesou diante da nova ambição demonstrada: conquistar o mundo. Três produtoras lançaram uma parte de seu capital na Bolsa de Londres no início deste ano, e assim conseguiram levantar 150 milhões de euros. O príncipe indiano da mídia, Raghav Bahl, diretor do grupo Network 18, criou uma empresa com a americana Viacom para produzir na Índia séries de televisão e dez a 12 filmes por ano. O magnata indiano da comunicação, Anil Ambani, tornou-se acionista em setembro de 2008 da produtora fundada pelo americano Steven Spielberg, a Dreamworks.

Graças ao aumento das receitas no mercado doméstico e ao crescimento das exportações com destino aos 20 milhões de indianos emigrados, Bollywood tornou-se a segunda indústria cinematográfica do mundo, atrás de... Hollywood. Ela realiza apenas 10% do faturamento da última, mas registra um crescimento mais forte. Segundo um estudo publicado em julho de 2008 pela Federação das Câmaras de Comércio Indianas e a consultora PriceWaterhouseCoopers, seu faturamento avaliado este ano em € 1,85 bilhão, deverá duplicar nos próximos cinco anos. Os investimentos chegam do mundo inteiro e a Film City se moderniza.

Um edifício surgiu recentemente no meio dos figurantes de torso nu e das aldeias tradicionais reconstituídas. Por trás da fachada de vidro do prédio moderno se escondem jovens engenheiros que passam o dia nos computadores. Graças a eles, as nuvens não são mais fabricadas com algodão, mas desenhadas com efeitos especiais. A informática substituiu o artesanato. Bollywood se profissionaliza. Não há mais empregados polivalentes que passam camisas, pintam bigodes nos atores e servem o chá. É a hora da especialização. Há poucos anos, o "dresswallah" imaginava os figurinos e os produzia no local. Hoje há uma figurinista para a escolha do vestuário, alfaiates encarregados da fabricação e até lavanderias especializadas que podem limpar e passar um figurino manchado em quatro horas no máximo.

Isha Ahluwalia, uma figurinista de 35 anos, formada em um instituto de moda, corre de uma filmagem para outra: "Tudo anda depressa. Os contratos não são redigidos legalmente e não são aceitos pelos tribunais. Às vezes os produtores simplesmente anunciam que não vão me pagar. Apesar disso, não podemos parar, senão perdemos o lugar".

Bollywood atrai multidões, e a concorrência é dura. "Há pouco tempo uma profissão nessa indústria não tinha boa reputação. Hoje vemos jovens diplomados chegarem", comenta Dinesh Chaturvedi. "Eu emprego assistentes cujo único objetivo é ver as estrelas de perto, o que permite negociar melhor seus salários", não esconde Isha Ahluwalia. Um jovem paquistanês de 15 anos foi preso em 14 de outubro passado pela polícia indiana quando acabava de atravessar a fronteira ilegalmente. O adolescente desejava ir a Mumbai para ter a mesma carreira que Shahrukh Khan, uma das lendas vivas do cinema indiano.

Abandonar tudo pela televisão
Mas Bollywood não se resume mais à magia da grande tela. Desde que os televisores apareceram até nas aldeias mais distantes as redes se multiplicam. Havia apenas uma 20 anos atrás, contra mais de 150 hoje. Sinal de que a telinha ganhou título de nobreza, os astros do cinema, como Akshay Kumar, hoje aceitam gravar novelas por € 300 mil por episódio. Prem Sagar, diretor da prestigiosa produtora Sagar Arts, resume assim o sucesso da televisão: "Os espectadores não precisam mais se deslocar, fazer fila e pagar para ver um filme". Três gerações se sucederam na Sagar Arts, criada nos anos 1950 por seu pai. Ramanand Sagar primeiro se lançou no cinema, mas abandonou tudo pela televisão, quando descobriu pela primeira vez nos anos 1970, em uma pequena cidade francesa, um televisor em cores. A cada nova geração acrescentaram-se novas atividades - e mais um andar em sua mansão com piscina, situada nos bairros chiques de Mumbai. O mais jovem, Shiv Sagar, está projetando um parque de diversões dedicado a Bollywood. Em seu vasto e fresco salão, com centenas de versões do "Ramayana", o mais famoso texto sagrado do hinduísmo, Prem Sagar corrige as canções de sua próxima série televisiva, com os pés sobre a mesa baixa. Diante dele, um sacerdote, Pandit Kiran Mishra, canta os versos que ele compôs para a próxima novela dedicada ao deus Satan. De repente, Sagar o interrompe: "Veja o corvo que acaba de pousar na beirada da janela. É a reencarnação de Satan que vem nos escutar. O que um ocidental pode compreender disso? Como um financista pode compreender nossa indústria?" Mishra concorda com um balanço de cabeça. "Queimariam minha casa se um dia o deus Shiva não estiver vestido da maneira correta", preocupa-se Sagar.

Em 20 de setembro de 2008, o maior conglomerado de entretenimento indiano, Reliance Big Entertainment, investiu US$ 550 milhões na produtora Dreamworks, co-fundada por Steven Spielberg. Alguns meses antes, durante o Festival de Cannes, o mesmo grupo anunciou sua intenção de investir US$ 1 bilhão em diversas produtoras americanas.

"Logo vocês nos verão como um dos líderes mundiais, com uma presença em cada setor do entretenimento e da mídia", advertiu seu diretor-geral, Rajesh Sawhney. A Reliance Big Entertainment é a filial do grupo Anil Dhirubhai Ambani Group (ADAG), que detém pólos de "telecomunicações" e "serviços financeiros", assim como 250 cinemas, nos EUA.

A gigante indiana poderia utilizar o ícone de Spielberg para apoiar na Índia a comercialização de suas redes de televisão por satélite. O potencial é enorme. Das cerca de 125 milhões de residências equipadas com televisores, somente 9 milhões são assinantes de pacotes via satélite.

A Reliance não é a única a ampliar progressivamente suas atividades de produção fora de Bollywood. O estúdio Yash Raj Films co-produziu em 2008 com a Walt Disney Company o primeiro desenho animado indiano em imagem sintetizadas: "Roadside Romeo" narra a história de um cachorro abandonado nas ruas de Mumbai.
BOLLYWOOD INVADE HOLLYWOOD
A Sagar Arts deve seu sucesso à adaptação do "Ramayana" no início dos anos 1980. Na telinha os deuses eram capazes de voar e de levantar montanhas - a prova pela imagem de que os textos diziam a verdade, para os 650 milhões de telespectadores indianos. A série teve um sucesso retumbante. "Todo domingo de manhã, os trens paravam no caminho para que os passageiros pudessem acompanhar os episódios, enquanto rezavam diante do televisor na estação. Os convites de casamento organizados no domingo deviam explicar que o seriado seria projetado durante a cerimônia. Todo mundo temia as desistências", lembra-se Sagar. Aproveitando sua popularidade, os atores que encarnaram a deusa Sita e o deus Ravana conseguiram se eleger deputados. Mas os tempos mudam: a última adaptação do "Ramayana", transmitida este ano, não teve o mesmo sucesso, apesar de um "elenco glamouroso nos papéis das divindades". Este ano nenhum trem parou na hora da novela.

Os heróis mitológicos sofrem a concorrência dos seriados cômicos filmados em língua regional. Não é mais em um estúdio construído com todas as peças, mas em uma casa alugada para esse fim que Rakesh Charan filma uma série em marata, a língua regional do Maharashtra, cuja capital é Mumbai. A equipe reduzida deve se contentar com ventiladores enferrujados em vez do ar-condicionado. "Tudo deve ser exagerado nos filmes ou nas séries filmadas em hindi: o tamanho da casa, os sentimentos e os orçamentos. Aqui é tudo ao contrário", reconhece Charan. A jornada de filmagem custa cerca de € 1.800, e um episódio de 25 minutos pode ser realizado em dois dias. "Somos apenas subcontratados por quatro canais de televisão locais. Nós tiramos entre 5 e 10% de lucro do que produzimos. É a rede de televisão que possui todos os direitos autorais", explica sua companheira, Sanghita Sarang, encarregada da produção. Obrigatoriamente, as atrizes recebem menos e portanto são menos sedutoras", murmura o maquiador, entediado.

Falar marata
Graças à televisão, há mais trabalho mas menos dinheiro para os contratados. As despesas publicitárias não aumentam tão rapidamente quanto o número de canais. Sanjay, o técnico encarregado da iluminação, deve se contentar com € 8 por dia. Chegado a Mumbai há dez anos, ele volta todos os anos à sua aldeia em uma região pobre do norte da Índia, no Uttar Pradesh, para levar suas magras economias à família. E nunca viaja sozinho, principalmente à noite: "Desde que as pessoas sabem que eu trabalho em Bollywood, imaginam que eu volto com milhões de dólares na bolsa e posso ser atacado".

Sanjay deve sua entrada em Bollywood a Haresh Nandgeri. O diretor da empresa de locação de material, que possui € 120 mil em equipamentos e emprega 50 técnicos, o formou e principalmente lhe deu uma carta de recomendação para que pudesse obter sua carta sindical, sem a qual ninguém pode ser contratado. Contra € 280, uma fortuna para todos os imigrantes que vêm das regiões pobres, essa carta de adesão reembolsa a metade dos tratamentos médicos, garante uma aposentadoria decente e subvenciona os gastos com os estudos dos filhos.

Na confusão que lhe serve de escritório, no meio de uma favela, ao longo da ferrovia, Haresh Nandgeri passou a manhã inteira pegado ao telefone celular: "Tenho uma filmagem que começa em uma hora e meus técnicos, que acabaram de trabalhar esta manhã às 5 horas, querem descansar. Se eu não encontrar ninguém a concorrência vai aproveitar". Às vezes a concorrência paga seus técnicos abaixo do salário mínimo legal contra seu silêncio e a promessa de um emprego duradouro, sem formá-los. "E quando se trata de montar os projetores de 15 quilos sobre suportes de bambu, é melhor ter experiência", comenta Nandgeri.

Os técnicos têm uma vantagem sobre os atores: não precisam falar marata para trabalhar. "A maneira como o rosto recebe a luz, o posicionamento diante da câmera não valem nada se não se fala correntemente o marata", admite Lalit Swatant, um ator de 30 anos contratado para um papel secundário na novela familiar. "Principalmente é preciso encontrar a pessoa certa no momento certo. Um padrinho é indispensável para entrar", explica o jovem ator, maquiando os olhos com rímel e contraindo os músculos diante do espelho. Enquanto espera o sucesso, Swatant trabalha de dia como responsável pela comunicação de uma agência bancária e faz pequenos papéis por € 35 por dia. O salário de US$ 120 milhões que foi proposto recentemente a Shahrukh Khan para rodar cinco filmes não o espanta. "Isso não me revolta, pois espero que aconteça comigo um dia", reconhece, esperando que as luzes do cenário sejam reparadas. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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